Após pico em março SP Águas indica que cenário é de estabilidade, mas falta de chuvas atrapalha; especialista afirma que nível de mananciais deve cair ainda mais
FOTO: Nario Barbosa/DGABC

Apesar de registrarem um aumento no mês anterior, os reservatórios que abastecem o Grande ABC tiveram uma diminuição do volume útil em abril. O manancial Rio Grande, por exemplo, obteve sua melhor marca anual em 16 de março, quando assinalou 98,1% do nível. Com o período de estiagem de chuvas, o reservatório computou 92,3%, atualizado em 20 de abril. Os dados foram analisados no Painel dos Mananciais da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo).
Mesmo que de forma tímida, o Cantareira também apresentou queda, saindo de 44,1% em 24 de março (melhor volume do ano), para 43,3% na data analisada. Os outros dois reservatórios que fornecem o recurso hídrico ao Grande ABC, Alto Tietê e Rio Claro, contabilizaram no último dia 20 as marcas de 53,5% e 58,5%, respectivamente, contra os picos de 54,2% (11 de abril) e 66,2% (9 de março).
De acordo com a SP Águas (Agência de Águas do Estado de São Paulo), os reservatórios Alto Tietê, Cantareira e Rio Claro estão na faixa de Atenção, etapa de volume útil entre 40% e 60% e na qual pode-se retirar 31 metros cúbicos por segundo. Apesar da maior redução no período, Rio Grande está classificado na melhor faixa denominada Normal, com mais de 60% do nível, podendo retirar 33 metros por segundo.
Ainda segundo a agência reguladora, a diminuição do volume observado entre março e abril está ligada, estritamente, às projeções climáticas, o que deve impactar ainda mais o nível. “Com o estabelecimento do outono, ocorre uma transição sazonal característica. Esse cenário resulta em menores acumulados de precipitação sobre as áreas próximas a reservatórios, impactando diretamente as vazões naturais que chegam aos mananciais.”
Para a SP Águas, o SIM (Sistema Integrado Metropolitano) apresentou quadro de estabilidade.
O professor de recursos hídricos da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Jefferson Nascimento de Oliveira, explicou que o cenário tende a piorar. “A priori no período seco, abril até setembro, teremos poucas chuvas, o que reduz a entrada de água. Porém, continua saindo a mesma quantidade. Também estamos tendo dias relativamente quentes, o que aumenta a evaporação do reservatório.”
“O Cantareira, por exemplo, deve diminuir mais, porque abastece muita gente, mais de 7 milhões de pessoas. Os órgãos competentes devem fazer o possível, mas os próprios moradores podem fazer economia e evitar o desperdício”, disse Oliveira.
A Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo) destacou que o Estado conta com um sistema mais resiliente de reservatórios, capaz de enfrentar períodos prolongados de estiagem. Além disso, ressaltou que a redução da pressão de água, vigente desde agosto e ampliada para dez horas em setembro, é uma das formas para evitar o problema. No período, foram economizados 151 bilhões de litros de água.
Além da falta de chuvas, o especialista da Unesp observou que não houve o cuidado ideal com os mananciais. “Não vem só da chuva. As águas subterrâneas abastecem os rios. O que devemos fazer é cuidar do uso racional da terra. Tem que fazer reflorestamento e segurança maior das nascentes, para que o solo filtre a água. Um reflorestamento maior das áreas de recarga dos aquíferos é fundamental para ter um manancial com vazão garantida”, disse o docente.
Transposição visa segurança hídrica
A interligação Billings-Taiaçupeba, que visa a transposição de águas do Rio Pequeno da Represa Billings até o reservatório do Sistema Produtor Alto Tietê, é uma das obras da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico de São Paulo) para garantir uma melhor segurança hídrica da Região Metropolitana.
Segundo a companhia, a intervenção permite transferir 4.000 litros por segundo entre os sistemas. “A operação é regulada pela SP Águas e integra o SIM, possibilitando a redistribuição de água entre mananciais para aumentar a resiliência do abastecimento, especialmente em período de estiagem, sem prejuízo à segurança hídrica do manancial.”
As obras passam por quatro cidades do Grande ABC, casos de Santo André, São Bernardo, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, além de Suzano e Mogi das Cruzes. A Sabesp informou que faz vistorias em imóveis próximos e prevê a recuperação do solo.
“São obras que tentam minimizar o problema e fortalecer o sistema que guarda a água. É tipo uma distribuição de renda. Tira de onde tem mais para quem tem menos, estabelece que no futuro poderá garantir uma maior quantidade de água para aquela região em déficit”, concluiu o docente de recursos hídricos da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Jefferson Nascimento de Oliveira.
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