Aponta IBGE Dos 160 mil lares da região que são constituídos por apenas um dos pais, 139 mil deles são comandados pelas mães
Elaine Souza e os filhos Levy Gilberto, 8 anos, e Vitor Souza, 25 (FOTO: André Henriques/DGABC)

As mulheres são responsáveis por 87% das famílias monoparentais do Grande ABC. Dos 160.201 lares comandados por apenas um dos pais, 139.110 são chefiados pelas mães. A proporção é semelhante ao cenário brasileiro – 11.936.510 e 10.321.771, respectivamente. Os dados são do Censo 2022-Mulheres, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Os números destacam outras discrepâncias entre os gêneros masculino e feminino, como diferença salarial e de oportunidades no mercado de trabalho. Na região, das 1.266.693 mulheres, 608.413 (48%) têm uma ocupação profissional. Já na população masculina, dos 1.124.173 homens, 704.056 (62,3%) estão empregados. A média de salário para o gênero feminino é de R$ 2.569, enquanto os homens recebem R$ 3.872.
A cabeleireira e designer de sobrancelhas Elaine Marques Souza, 44 anos, de Mauá, criou. sozinha, quatro filhos: Levy Gilberto, 8, a estudante de Enfermagem Lauren, 19, o aluno de Gestão Hospitalar, Yan, 23, e o nutricionista Vitor Souza, 25, único que não mora mais com a mãe e vive em Rio Grande da Serra.
Para conciliar os cuidados com a demanda de trabalho, a mauaense escolheu uma profissão que lhe proporcionasse flexibilidade de horário. “Consigo, dessa forma, levar os filhos ao médico e ir às reuniões de escola. Nunca perdi nenhuma. Eu lutei muito para dar alimento e roupas, o básico, não pude dar tudo, mas dei tudo que pude. Fomos muito felizes e hoje me orgulho de todos estarem estudando e encaminhados”, comemora Elaine.
Nascida em São Bernardo, a moradora de Diadema Mariana Izadora de Souza, 36, é inspetora escolar, o que facilitou na criação solo de Otávio Mattias Belo de Souza, 8, que é aluno da escola onde a mãe trabalha.
“Minha vida é um caos porque ainda faço tortas e lanches para complementar a minha renda, já que preciso, pois moro de aluguel e meu salário não é suficiente. Sou muito sobrecarregada e estou tentando cuidar um pouco mais de mim. É enlouquecedor ser uma mulher como eu, que faz tudo e mais um pouco com pouquíssimo dinheiro. É difícil não ter com quem dividir responsabilidades e dores”, define a são-bernardense.
O psicólogo e professor da Umesp (Universidade Metodista de São Paulo), Cristiano de Jesus Andrade, afirma que os arranjos familiares revelam a persistência de desigualdades de gênero historicamente sedimentadas, sobretudo no que diz respeito à divisão sexual do trabalho, à responsabilização pelo cuidado e à precarização das condições de vivências femininas.
“A elevada proporção de mulheres como chefes de famílias monoparentais explicita a permanência da chamada dupla jornada ou até mesmo tripla. Isso ocorre na medida em que elas acumulam funções produtivas (trabalho remunerado), reprodutivas (cuidado doméstico e familiar) e emocionais. Esse acúmulo não apenas intensifica a sobrecarga física e psíquica, como também limita as possibilidades de inserção qualificada no mercado de trabalho, contribuindo para a feminização da pobreza”, destaca Andrade.
LEIA TAMBÉM
Aprendi a sobreviver na cidade, diz indígena da região que deixou a aldeia
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.