Tradição Descendentes dos povos originários que vivem nas sete cidades enfrentam desafios de adaptação no contexto urbano; tema motiva debate hoje
Delma Lima, hoje com 64 anos, precisou se adaptar sozinha, aos 11, à vida intensa de São Bernardo FOTO: Celso Luiz/DGABC

A babá e faxineira aposentada Eva Maria dos Santos, 65 anos, nasceu e viveu em uma aldeia de Pernambuco, pertencente ao povo Pankararu, até os 34 anos, quando se mudou para São Caetano, onde mora até hoje. Após mais de três décadas, ela se considera adaptada ao contexto urbano, mas no início da mudança enfrentou forte discriminação.
Eva chegou com dificuldade para falar a língua portuguesa e para encontrar trabalho, além de enfrentar preconceito por sua aparência, já que gostava de andar descalça e usar seus adereços indígenas, como cocar, brincos e colares.
“As pessoas implicavam com a minha forma de vestir e diziam que o Carnaval já tinha passado, para que eu não estivesse ‘fantasiada’. Eu me sentia diminuída e discutia com muitas pessoas. Sofri todo tipo de humilhação, achavam que indígena não era gente, mas aprendi a sobreviver na cidade.”
A moradora de São Caetano afirma que houve avanços e que, atualmente, a sociedade aceita melhor a pluralidade étnica. O tema ganha destaque neste domingo (19), Dia dos Povos Indígenas. A data foi instituída para combater estereótipos e valorizar a diversidade cultural, a história e a importância dos povos originários do Brasil.
No Grande ABC, há 3.031 indígenas, dos quais 2.916 moram em contexto urbano e 165 vivem em aldeias, segundo dados do Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
A costureira e vendedora aposentada Delma Maria de Sá, 64, moradora de São Bernardo e natural da aldeia Pankará, no sertão de Pernambuco, teve contato com a vida urbana ainda na infância, aos 11 anos. Incentivada pelo avô a estudar, mudou-se para outras cidades do Estado a fim de frequentar a escola e passou anos vivendo de casa em casa, entre parentes e famílias onde trabalhava como doméstica, em troca de moradia e alimentação, para conseguir continuar os estudos.
“Quando cheguei aqui (São Bernardo), era muito inocente e me assustei com a cidade, mas me estabeleci. Apesar de longe, busco manter minhas origens, participo de rituais indígenas e vou três vezes por ano visitar minha família. Meus pais e alguns irmãos estão lá em Pernambuco, na aldeia onde nasci. Acredito que a vida lá seja melhor, mais tranquila, em meio à natureza”, afirma Delma.
A ativista dos direitos dos povos indígenas e pesquisadora da área Chirley Pankará diz que um dos maiores desafios dos indígenas em contexto urbano é a dificuldade de acesso a políticas públicas, como educação, cultura, saúde e moradia.
A especialista ressalta que as aldeias foram engolidas pelas cidades e não o contrário, e reforça o preconceito que existe com a cultura dos povos originários.
“Os indígenas em contexto urbano vivem o preconceito de quem acha que deveriam estar nas aldeias e que deixam de ser indígenas porque estão na cidade, onde são invisibilizados. Além disso, há questionamentos sobre fenótipos. Se tiver cabelo cacheado, por exemplo, sofre preconceito”, afirma.
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