Em meio aos temporais Localizado na divisa entre São Bernardo, São Caetano e a Capital, reservatório começou a operar no fim de 2025
FOTO: Celso Luiz/DGABC

Os temporais que atingiram o Grande ABC no último fim de semana colocaram à prova o papel do Piscinão Jaboticabal no controle de enchentes na região. Inaugurado no fim de 2025, o reservatório foi projetado para reter grandes volumes de água durante temporais e reduzir o risco de transbordamento dos rios que cortam a tríplice divisa entre São Bernardo, São Caetano e a Capital.
A SP Águas (Agência de Águas do Estado de São Paulo) informou que, durante as fortes chuvas registradas no final de 2025 e também no último fim de semana, o piscinão atingiu sua capacidade máxima, retendo cerca de 900 mil metros cúbicos de água. O volume é equivalente a aproximadamente 360 piscinas olímpicas.
Nas redes sociais, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que o reservatório já demonstrou resultados práticos. “No último fim de semana, com as chuvas fortes no Estado, o Piscinão Jaboticabal fez a diferença. A obra, aguardada há muitos anos pela população do Grande ABC, está funcionando há quatro meses e já evitou cheias, tragédias e garantiu a segurança das pessoas na região”, escreveu o governador.
De acordo com ele, o Estado enfrenta um desafio histórico decorrente de décadas de falta de investimentos em sistemas de drenagem. Nesse contexto, obras estruturais, como a construção de reservatórios, fazem parte das soluções para diminuir os impactos provocados pelas chuvas.
A professora de hidráulica e drenagem urbana da UFABC (Universidade Federal do ABC), Melissa Graciosa, explicou que o piscinão funciona como uma forma artificial de compensar a perda da função natural dos rios de absorver grandes volumes de água após a urbanização das cidades.
"O piscinão tem o objetivo de devolver para a bacia hidrográfica aquela capacidade de amortecimento da cheia que ela perdeu com a urbanização. Quando o rio está prestes a transbordar, a água é desviada para esse reservatório, fica acumulada por um período e depois retorna ao curso d’água de forma controlada”, afirmou.
Segundo a especialista, a necessidade de estruturas desse tipo está diretamente ligada à forma como as cidades se desenvolveram. “A urbanização impermeabilizou o solo, retirou vegetação e ocupou as várzeas naturais dos rios. Isso faz com que a água da chuva escoe muito mais rápido e em maior volume, aumentando o risco de enchentes”, pontuou.
Apesar da importância da estrutura, a professora ressalta que reservatórios desse tipo não resolvem sozinhos o problema das enchentes. “Hoje também se fala muito em soluções baseadas na natureza, como jardins de chuva, pavimentos permeáveis e pequenos reservatórios distribuídos pela cidade.”
HISTÓRICO
Implantada nas proximidades da Via Anchieta, no encontro dos Ribeirões dos Meninos e dos Couros, a obra recebeu investimento de R$ 573 milhões do governo estadual. O reservatório possui 13 metros de profundidade e ocupa uma área de aproximadamente 130 mil metros quadrados.
Para escoar a água acumulada após os temporais, foram instalados no equipamento seis conjuntos de motobombas, cada um com vazão de 850 litros por segundo.
A construção do piscinão, no entanto, demorou décadas para sair do papel. A necessidade de um reservatório na região já era apontada desde 1998, na primeira versão do Plano Diretor de Macrodrenagem da Bacia do Alto Tietê. A recomendação foi mantida nas revisões seguintes do plano, em 2009 e 2013, e em um estudo regional de drenagem do Grande ABC apresentado em 2016. O projeto só avançou de fato em 2019, após uma das piores enchentes da história recente da região, que deixou dez mortos e 284 pessoas desabrigadas.
Segundo o secretário municipal de Obras e Habitação de São Caetano, Renato Rocha Ferreira, o piscinão contribuiu para reduzir a intensidade das cheias durante episódios de chuva mais intensa. Ele destaca que, durante os temporais mais recentes, foi possível perceber um comportamento mais estável do sistema de drenagem. “A região registrou acumulados superiores a 100 milímetros em curto período. Mesmo diante de um volume significativo, os impactos em São Caetano foram menores”, diz.
MORTE
Mesmo com a estrutura em operação, os temporais ainda causaram estragos. Um homem de 46 anos morreu no último sábado (7) após ser arrastado por uma enxurrada na Rua Miro Vetorazzo, no bairro Demarchi, em São Bernardo.
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