Força feminina Lorena de Novaes, 38 anos, conta sua história de superação contra a violência doméstica sofrida durante dois anos
FOTO: André Henriques/DGABC

“Acredito que, se continuasse, esse relacionamento me levaria à morte.” Esse foi um dos relatos da trancista e moradora de Mauá, Lorena de Novaes, 38 anos, que contou sobre seu caso de violência doméstica vivido entre 2022 e 2024. Hoje (8), Dia Internacional da Mulher, o relato de Lorena reforça que a violência doméstica ainda é uma realidade presente em muitos lares.
Xingamentos, isolamento, controle emocional, socos e até mesmo ameaça com faca. Essas foram algumas das situações sofridas por Lorena neste período de sua vida.
“Foi um momento extremamente difícil. Antes, eu não sabia o que era ser xingada por um homem, muito menos sofrer agressões físicas. Era uma relação em que ele decidia minhas roupas, meus amigos e constantemente me diminuía. Com o tempo, começou a exercer outro tipo de controle, dando início às agressões”, relatou.
E a cada dia que passava, os momentos se tornavam mais cruéis e desgastantes. “Lembro de ter comprado um vestido uma vez. Quando ele me viu, rasgou a peça na hora, ainda enquanto eu a usava. Sempre gostei de roupas, cabelo e maquiagem, mas passei a me privar dessas coisas para evitar conflitos e, mesmo assim, tudo continuava”, relatou a trancista.
As situações não aconteciam apenas em locais reservados. Em ambientes públicos, o ex-namorado demonstrava sua agressividade. “Uma vez, ele ficou gritando e uma mulher veio perguntar: ‘Precisa de ajuda?’. Se eu olhasse para o lado, ela poderia questionar sobre o que acontecia. Eu torcia para ninguém falar comigo”, relatou.
Por medo da reação das outras pessoas, Lorena evitava expor o caso. Por falas do ex, a trancista acabou se afastando de amizades. Além disso, começou a ficar menos em casa, evitando que suas filhas vissem os hematomas pelo corpo.
“Acredito que fugi do feminicídio e não virei estatística. Porque não levava a outra coisa. Saía de uma e vinha outra, as agressões ficavam ainda piores. Houve uma vez em que ele pegou uma faca para me ameaçar, então tenho certeza de que, se o relacionamento continuasse, isso poderia acontecer”, afirmou.
Durante esses dois anos, Lorena percebeu que o relacionamento não estava certo, mas não conseguia se desvincular dele. No entanto, após um novo episódio de violência, a trancista recorreu a sua força interior para colocar um ponto final nas violações que sofria.
“A última agressão aconteceu por volta das 6h. Não queria sair, porque meu olho estava muito roxo, e também não queria que minha mãe me visse assim. Então, liguei para uma amiga para pedir ajuda e registrei o Boletim de Ocorrência. Só depois tive coragem de falar com minha mãe, que reagiu de forma diferente do que eu esperava: apenas me acolheu.” Atualmente, Lorena possui medida protetiva ativa contra o ex-namorado, que não chegou a ser preso. Por questões de segurança, o nome do agressor não foi divulgado.
Mãe de Emanuella Neres, 17, Tayla Eduarda Neres, 12, e Helena Neres, 9, a mauaense encontrou na terapia e no esporte formas de se desvincular do passado. “Hoje, a agressão em si não me machuca mais. O que dói é relembrar tudo o que suportei. A terapia reforçou, na verdade, coisas que já sabia, mas para as quais ainda não tinha coragem de romper o ciclo”, afirmou. Atualmente, ela é voluntária da ONG (Organização Não Governamental) Mulheres em Ação de Mauá, onde usa sua história de superação para apoiar outras vítimas de violência doméstica.
No universo das tranças, a profissional encontrou uma forma de reconstruir sua paz. “Fiz todos os tipos de cursos possíveis. A maioria das clientes atendo em domicílio, o que me permite dedicar mais atenção às minhas filhas, que me ajudam muito”, concluiu Lorena.
FORÇA FEMININA
Essa é a segunda de três reportagens da série Força Feminina em celebração ao Dia Internacional da Mulher.
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