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Lideranças da região se unem contra a intolerância religiosa

Representes realizam debate sobre o tema no Grande ABC; hoje é celebrado o Dia Nacional de Combate à Discriminação contra Crenças

21/01/2026 | 08:00
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Sheikh Jihad, padre Dayvid da Silva, pai Ronaldo Linares e a pastora Sue’Hellen realizam encontro FOTO: Denis Maciel/DGABC
Sheikh Jihad, padre Dayvid da Silva, pai Ronaldo Linares e a pastora Sue’Hellen realizam encontro FOTO: Denis Maciel/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


No Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, lideranças do Grande ABC promoveram um movimento histórico, raro na realidade brasileira atual: uniram esforços e dialogaram de forma respeitosa em busca de maior convivência entre diferentes crenças.

Juntos, o guardião do Santuário Nacional da Umbanda de Santo André, pai Ronaldo Linares; a pastora da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, Sue’Hellen Monteiro; o padre da Igreja Matriz de Diadema, Dayvid da Silva e o vice-presidente da UNI (União Nacional das Entidades Islâmicas), sheikh Jihad Hammadeh, mostraram que as sete cidades têm espaço para todos os tipos de fé.

No total, o catolicismo, as religiões de origem africana e o evangelismo reúnem 1,9 milhão de pessoas na região, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Já o islamismo possui cerca de 5.000 adeptos no Grande ABC, de acordo com estimativa da UNI.

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Apesar da união dos líderes, a intolerância religiosa ainda é uma realidade presente na região e em todo o País. No ano passado, as cidades do Grande ABC registraram aumento de 6% em denúncias do tema. Segundo o Disque 100, foram 35 queixas de preconceito em 2025, ante 33 no ano anterior.

“A intolerância ocorre porque muitos não sabem enxergar a fé do outro como fé. Sempre vão achar que o próximo tem que crer do mesmo modo. De fato, durante um período do cristianismo, vimos um poder concentrado nas mãos de poucos. O Papa Francisco se tornou o grande modelo de diálogo com as religiões e buscou unir diferentes tipos de crença”, comentou o padre Dayvid da Silva.

Embora possa ocorrer com qualquer religião, os quatro representantes concordaram que as principais queixas recaem sobre as religiões de matriz africana. “Acredito que, justamente por a Umbanda ser muito nova, somos as principais vítimas, e os senhores têm conhecimento disso. Há dois fatores que levam à intolerância religiosa: o fanatismo, que cega o indivíduo, e o desconhecimento das demais religiões”, afirmou o pai Ronaldo.

Para a pastora Sue’Hellen Monteiro, quando se fala em discriminação contra a fé no Brasil, é necessário trazer a questão racial para o debate. “Não se pode esquecer que o País foi colonizado. Temos um racismo religioso. Na prática, conseguimos entender o budismo, por exemplo, que é branco. Mas o preconceito com as matrizes africanas é muito pior. Precisamos nomear e entender as coisas para enfrentá-las, com diálogo, e começar a pensar em cada ponto de vista”, disse a teóloga.

Instituído pela Lei de número 11.635, de 27 de dezembro de 2007, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa relembra a data e o dia do falecimento (21 de janeiro de 2000) da Iyalorixá Mãe Gilda. A religiosa foi vítima de intolerância ao longo da sua trajetória, ela foi acusada de charlatanismo e teve sua casa atacada, além de pessoas da comunidade terem sido agredidas. Mãe Gilda morreu em decorrência de um infarto.

Para todos os líderes, o diálogo inter-religioso é um dos caminhos para a construção da paz e para evitar que situações como essas voltem a acontecer. 

“Se Deus é amor, não podemos permitir que o ódio vença. Creio que o sonho seja justamente este: viver em uma sociedade em que possamos respeitar as diferenças”, comentou o padre Dayvid Silva.

O sheikh Jihad Hammadeh reforça que o papel do líder é fundamental para mostrar o verdadeiro caminho e abrir uma trajetória de respeito. “Não existe nenhuma palavra do Criador que ordene a discriminação com o outro. Se a pessoa não conhece a própria fé, vai agir de forma errada. Os líderes têm que dar o primeiro passo. As pessoas querem que os representantes guiem para a paz, a justiça e o respeito. Reuniões como essas são importantes. Quando lideranças de diversas religiões se reúnem e dialogam, cada um sai conhecendo o outro. É dever de cada um combater a discriminação interna e externa, promovendo a conscientização”, falou Hammadeh.

Polarização política fomenta desrespeito entre praticantes

Um ponto em comum destacado pelos líderes religiosos ouvidos pelo Diário foi o impacto negativo da polarização e da influência da ideologia política sobre as religiões.

Apesar de o Brasil ser laico, ou seja, não há influência religiosa nas instituições e nas decisões políticas do País, os representantes acreditam que muitos governantes e lideranças utilizam da fé para promover assuntos externos em prol de uma causa ideológica.

“Vemos, principalmente nas igrejas, o reflexo de como está o Brasil. A polarização política reflete-se nas comunidades de fé. Temos vivido momentos em que, se abrirmos o texto em Jeremias e falarmos sobre justiça social, é a morte para algumas igrejas, você é chamado de comunista”, comentou a pastora da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, Sue’Hellen.

Há também o estereótipo de que as religiões cristãs estariam automaticamente associadas à direita. No entanto, os líderes negam essa vinculação. “No contexto do cristianismo, essa polarização contribuiu para distorcer a imagem de Jesus Cristo”, acrescentou a pastora.

Para o grupo, discursos políticos embasados na captação de fiéis podem entrar em um campo perigoso, indo em direção totalmente contrária à crença. “A religião está acima de partidos políticos. Hoje, estão nos templos religiosos, mas amanhã pode mudar para campos de futebol e torcidas organizadas. Então, depende de onde há eleitores e onde pode influenciá-los. Muitos políticos falam de religião e poucos praticam. A prática é ser honesto, ter ética, ser justo e respeitoso”, comentou o vice-presidente da UNI (União Nacional das Entidades Islâmicas), sheikh Jihad Hammadeh.

Por ser uma religião relativamente nova, o pai Ronaldo Linares avalia que, muitas vezes, é necessário contar com o apoio de pessoas externas em determinadas batalhas. 

“Concordo com as lideranças. Mas, para uma instituição jovem como a Umbanda, muitas vezes só se consegue avançar com o suporte de determinados políticos. Ainda assim, em hipótese alguma podemos transferir a essência e o caminho da religião, especialmente quando percebemos que isso não condiz com os ensinamentos de Deus”, concluiu.

Sincretismo ainda perdura na sociedade, afirma especialista

O mestre em ciências da religião pela Umesp (Universidade Metodista de São Paulo), Marco Brito, explicou que o sincretismo religioso é o processo de adaptação e reorganização de uma tradição para outro contexto cultural.

Contudo, historicamente, esse processo decorre de imposições e práticas de dominação contra determinados grupos. Segundo o especialista, o País vivenciou de perto esse tipo de ação. “O sincretismo não afeta apenas religiões de matriz africana. O cristianismo também passou por adaptações ao se expandir pelo Império Romano. No Brasil, entretanto, essas tradições de origem afro tornaram-se mais visíveis em razão da hegemonia histórica do cristianismo. Essas religiões, trazidas por meio da escravidão, precisaram se reconfigurar para sobreviver à repressão religiosa”, explicou.

Ainda segundo Brito, a prática perdura até hoje, justamente pelo preconceito vivido na sociedade. “Ao longo da história, grupos religiosos construíram interpretações teológicas que demonizam entidades e práticas afro-religiosas. Atualmente, esse discurso de ódio continua sendo reproduzido, por se mostrar eficaz na mobilização”, afirmou.

Para o mestre em ciências da religião, o sincretismo é uma das formas pelas quais a intolerância religiosa se fez presente na sociedade, visto que é de fato uma negação do direito à livre manifestação. “Não é causa direta da intolerância, mas um feito histórico de um ambiente religioso excludente”, completou Brito.

EXEMPLOS

O guardião do Santuário Nacional da Umbanda de Santo André, pai Ronaldo Linares, exemplificou como funciona na prática em sua religião. “Para cada orixá africano, temos assimilação a um santo católico, devido à Igreja impôs essa prática. Por exemplo, o orixá do ferro é Ogum, um orixá associado ao uso de ferramentas de defesa. Por isso, Ogum foi assimilado à imagem de São Jorge”, afirmou pai Ronaldo.

O líder religioso ainda falou que hoje é difícil não assimilar as entidades com os santos, visto que já virou uma tradição e também uma forma de resistência contra a discriminação.

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