Imunização No dia 19 de janeiro de 2021, o Grande ABC recebia a tão aguardada vacina que salvaria a população de mortes em massa pelo coronavírus
FOTO: Denis Maciel/DGABC

Há exatos cinco anos, em 19 de janeiro de 2021, o Grande ABC recebia as primeiras vacinas contra a Covid-19. Naquele dia histórico, início de uma fase de esperança, a região recebeu 39,3 mil frascos do imunizante Coronavac, que ajudaria a pôr fim na pandemia. Desde então, foram aplicadas 7.930.042 doses nas sete cidades, segundo dados do Ministério da Saúde.
A enfermeira aposentada e moradora de Santo André, Francisca das Chagas e Silva de Lima, 77 anos, que atuou por 35 anos nas unidades de saúde de Mauá e esteve na linha de frente no combate à pandemia, foi a primeira vacinada na cidade mauaense. A imunização, a princípio, era destinada a profissionais da saúde, indígenas, idosos abrigados em asilos e pessoas com deficiência física acamadas.
“Foi um susto emocionante, nunca vou me esquecer deste dia indescritível. Fui escoltada, com outros veículos, um com a vacina e outro com o prefeito (Marcelo Oliveira - PT). Meu exemplo, que mostrou que a vacina era segura, indolor e sem efeitos colaterais, deu confiança aos pacientes que estavam com medo de tomar”, relata.
Depois de receber a vacina, Francisca teve a missão de aplicá-la nos munícipes, na UBS (Unidade Básica de Saúde) Santa Lídia, onde trabalhava. “Vacinava o dia todo, das 8h às 17h lá, e depois ia fazer hora extra em outro posto, atendendo à noite para ajudar. Vacinava mais de mil pessoas por semana. Cheguei a receber um reconhecimento do Estado como uma das melhores vacinadoras. Foi difícil, tinha que trabalhar igual a um robô, toda coberta, com máscara, touca, viseira, mas, ao mesmo tempo, gratificante”, descreve.
A enfermeira de Diadema Daniela Carla Lima, 43, que na época atuava como técnica, foi uma das três primeiras a ser imunizada no município. “Tive o privilégio de receber o convite. Com isso, veio a esperança de dias melhores e, em seguida, veio o medo de uma vacina desconhecida. Mas abracei a oportunidade sem nenhuma dúvida, e hoje estou aqui para testemunhar que foi a melhor escolha que fiz”, conta Daniela.
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A diademense lembra os tempos difíceis da pandemia da Covid-19 e o desafio dos profissionais da saúde. “Foi uma experiência marcante e exaustiva, de um momento que aterrorizou a vida de muitas pessoas, porém, transformadora. Na época, o medo foi tão grande que me distanciei da minha própria família pelo medo de poder contaminá-los.”
FABRICAÇÃO
A região teve papel fundamental na produção da Coronavac, desenvolvida pelo Instituto Butantan, na Capital, com a colaboração da USCS (Universidade Municipal de São Caetano). O coordenador-geral de Pesquisa Clínica e Inovação, Fabio Leal, detalha como se deu essa participação.
“A resposta que a USCS deu à pandemia foi a estruturação de um centro de pesquisa clínica para auxiliar no desenvolvimento da vacina contra a Covid-19. Em julho (de 2020) já tínhamos um centro estruturado, incluindo centenas de participantes, não só na vacina com o Butantan, mas posteriormente na vacina com a Janssen (da Johnson & Johnson) também, e em seis meses já estávamos na casa de mais de 1.000 participantes nos ensaios. Nosso papel era recrutar voluntários e garantir um processo de segurança e qualidade para essas pessoas, coleta dos dados, fornecer os dados com qualidade para análise e e contribuir com o Butantan para garantir segurança e a eficácia no desenvolvimento de uma vacina.”
O pesquisador descreve como é o processo de desenvolvimento de um imunizante e as fases de testes para garantir, além da eficácia, sua segurança.
“Uma vacina é inicialmente estudada em animais e em laboratório, etapa em que se define a estratégia e a tecnologia mais promissoras. Depois, começam os ensaios em pequenos grupos humanos para avaliar a dose segura. Na fase dois, os experimentos são ampliados para um número maior de voluntários, com a dosagem considerada mais adequada. Na fase três, milhares de participantes recebem a vacina, permitindo comprovar eficácia e monitorar segurança. Quando os resultados mostram proteção eficaz e poucos efeitos colaterais, o imunizante é analisado pelas agências de saúde e pode ser aprovado”, explica Leal.
O coordenador acrescenta que mesmo sendo aprovada e aplicada na população, a vigilância continua acompanhando possíveis eventos a partir do momento em que ela está sendo usada em milhões de pessoas.
A vacina contra a Covid-19 precisou ser desenvolvida rapidamente, devido à rápida propagação do coronavírus e aos seus efeitos devastadores pelo mundo. Entretanto, a rápida resposta gerou questionamentos sobre sua eficácia e, principalmente, segurança. O coordenador-geral de Pesquisa Clínica e Inovação da USCS (Universidade de São Caetano), Fabio Leal, explica que a produção ‘a toque de caixa’ foi possível porque já existiam tecnologias desenvolvidas.
“A vacina contra a Covid-19 pode ser mais rápida por dois motivos. Havia uma tecnologia nova, mas que já tinha sido bastante explorada quanto à segurança e à eficácia de vacinas em geral, e podia ser aplicada em imunizantes emergenciais, como foi o caso”, afirma Fabio Leal.
O pesquisador diz que também tinha sido desenvolvido um imunizante para um vírus antecessor muito parecido com o coronavírus. “Foi nos anos 2000 que este estudo começou, mas não foi usado porque o vírus nunca causou uma pandemia como a da Covid-19.”
Além desses dois fatores, a emergência pública mobilizou centros de pesquisa e desenvolvedores de vacinas para acelerar o processo. Todo o esforço foi concentrado nesse momento, o que possibilitou a produção rápida do imunizante, com eficácia e segurança. “É um equívoco pensar que esta foi a vacina desenvolvida com mais rapidez, pois há outras na história que foram aprovadas ainda mais rapidamente”, esclarece.
O coordenador de Pesquisa Clínica e Inovação da USCS destaca ainda que um imunizante, ainda que apresente efeitos colaterais, é uma estratégia importante quando os riscos da proliferação da doença são muito maiores.
“O acompanhamento das milhares de pessoas que tomaram a vacina nos ensaios e também pelos dados coletados demonstra que, mesmo quando ocorreram alguns eventos, as complicações foram muito menos frequentes e graves do que os efeitos da própria doença. Isso mostrou que o imunizante tinha um benefício significativo para a população com um risco bastante pequeno e muito menor do que deixar a população não vacinada”, justifica.
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