Política Titulo Vazio de poder

Mais de 462 mil votos a federal devem ficar ‘sem dono’ na região

Desistência de deputados em disputar a reeleição em 2026 pode redefinir cenário político, abrindo espaço para nomes de centro

08/12/2025 | 08:52
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FOTO: Reprodução Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Levantamento realizado pelo Diário consolidando votos de figuras de destaque na última disputa a deputado federal e que já demonstraram tendência a não concorrer à reeleição em 2026, indica que 462.296 eleitores do Grande ABC podem entrar no próximo pleito sem um candidato natural para apoiar, o que abre um vazio de poder que pode mudar o cenário político na região. 

A soma dos votos que ficam sem dono envolve nomes como Guilherme Boulos (Psol), Luiz Marinho (PT), Alex Manente (Cidadania), Carla Zambelli (PL), Eduardo Bolsonaro (PL), Ricardo Salles (Novo), Erika Hilton (Psol), Alexandre Padilha (PT) e Marco Feliciano (PL). À exceção de Carla Zambelli, que está presa na Itália desde julho após ser condenada a 10 anos por invadir os sistemas do Conselho Nacional de Justiça, os motivos para os demais não estarem na disputa incluem pretensão de buscar cadeira no Senado, permanecer no governo dando apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como é o caso de Luiz Marinho, ou mesmo alçar voos maiores. 

Análise da distribuição dos votos mostra que a indefinição não pesará da mesma forma nas sete cidades, tendo em vista que São Bernardo e Santo André concentram 69% de todo o eleitorado ‘órfão’ no Grande ABC, respectivamente, 197.669 e 121.827 pessoas. 

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Diadema (42.185 votos) e Mauá (45.616), quando o cenário é observado pelo espectro político, apresentam uma dinâmica diferente das demais cidades da região. A esquerda, sobretudo o PT, ainda mantém força relevante em ambos os municípios e também em parte de Santo André e São Bernardo. Mesmo assim, nas últimas eleições municipais apenas um permaneceu sob comando de um prefeito petista: Marcelo Oliveira, em Mauá.

Alex Manente, representante do espectro de centro na região, já manifestou o desejo de disputar o Senado em 2026 e conquistou 125.066 votos no Grande ABC na última eleição a deputado. O número expressivo fortalece sua intenção de buscar voos mais altos, mas também abre espaço para novas figuras políticas, já que não deixa herdeiro natural.

Luiz Marinho deixará 97.938 votantes sem representação. Boulos, que seguirá à frente da Secretaria-Geral da Presidência, soma outros 75.004 nessa condição. Padilha, permanecendo no comando do Ministério da Saúde, acrescenta mais 8.817. Já Erika Hilton, que pretende disputar o governo de São Paulo, soma 13.419 eleitores que ficarão sem representante.

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A direita mostrou em 2022 maior representatividade em colégios de renda mais alta, como São Caetano e Santo André, e os representantes desse espectro somaram 141.846 votos: Carla Zambelli, com 58.142; Salles, com 31.673, disse que tentará vaga no Senado, mesmo caminho apontado por Feliciano, 11.895. 

A situação de Eduardo Bolsonaro, que recebeu 40.136 votos na região no último pleito, é peculiar. O liberal se autoexilou nos Estados Unidos, e o PL segue contando com sua candidatura ao Senado. A legislação eleitoral não impede que um candidato seja eleito mesmo estando no Exterior, desde que mantenha nacionalidade brasileira e domicílio eleitoral no País.

Entretanto, Eduardo Bolsonaro tornou-se réu por coação no curso do processo que julgou seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pela participação na trama golpista, além de responder por sua atuação nos Estados Unidos em relação ao tarifaço aplicado aos produtos brasileiros.

CENTRO

Ricardo Ceneviva, professor de Ciência Política e Políticas Públicas da UFABC (Universidade Federal do ABC), afirma que, na Câmara Federal, em 2022, a taxa de reeleição ficou em aproximadamente 57%, considerada relativamente baixa. “Ou seja, ser detentor de um mandato, ajuda, mas não é garantia e não blinda ninguém. Por isso, existe espaço real para novos nomes capturarem votos antes ancorados em deputados ou em redutos.”

De acordo com o cientista político, o Grande ABC possui esquerda fiel, principalmente ligada ao petismo, que tem entre 20% e 25% do eleitorado; uma direita bolsonarista mais radical, ideológica, de 20% dos eleitores, mais forte nos municípios com bairros de renda mais alta; e um centro amplo e fluido.

“Recentemente, a More in Common Brasil realizou um mapeamento ideológico do eleitorado e identificou dois grupos como cruciais no centro político brasileiro: os empreendedores individuais, mais à direita, e os liberais sociais, mais à esquerda. Juntos, representam algo entre 35% e 40% do eleitorado, e é esse o bloco realmente em disputa. A base petista já está polarizada e vota no PT; a direita bolsonarista tende a apoiar qualquer candidato indicado por Bolsonaro ou pela ala mais radical. Resta esse grupo de centro, numeroso, mas que tem uma particularidade: em média, cerca de 20% desses eleitores são apáticos, isto é, não participam e não votam. Por isso, muitas vezes, é tão difícil para candidatos de centro se viabilizarem eleitoralmente”, diz. 

Ceneviva acrescenta que esse grupo reúne antigos petistas desiludidos, liberais econômicos – alguns mais conservadores nos costumes, outros menos – , mas são eleitores que “votam com base em problemas concretos, como emprego, segurança, custo de vida, e valorizam a competência acima da filiação partidária”. “Esse é o centro que, em geral, decide as eleições, principalmente para os cargos majoritários no Brasil”, pontua.




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