Desigualdade Cerca de 470 mil pessoas vivem em 350 comunidades; ausência de infraestrutura no entorno dos imóveis compromete qualidade de vida
Comunidade no Ferrazópolis, em São Bernardo FOTO: Celso Luiz/DGABC

O Grande ABC possui 350 favelas com 470.457 pessoas vivendo em 175.721 domicílios, com falhas na infraestrutura do entorno, como pavimentação, calçadas, bueiros e iluminação, além da ausência de arborização, fatores que comprometem a qualidade de vida dos moradores.
De acordo com dados do Censo 2022 - Favelas e Comunidades Urbanas: Características urbanísticas do entorno dos domicílios, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgado nesta sexta-feira (5), mais da metade (54%) destas residências não contam com bueiros no entorno, aumentando a chance de alagamentos em períodos de chuvas. A iluminação nas ruas é ausente para 8%, assim como a pavimentação (9,6%) e calçadas (43%).
Uma das comunidades que sofre com esses problemas é a Ferrazópolis, em São Bernardo. A população enfrenta questões como a falta de vias, o que, além de dificultar a mobilidade, impede o acesso de serviços básicos como ambulâncias e coleta de lixo.
“Essas escadas nós que improvisamos, cada uma constrói um pedaço ou contribui com R$ 10, ou R$ 20, e vamos fazendo o que conseguimos. Há alguns anos, em uma chuva forte, perdi meu barraco e tive que começar tudo de novo”, conta o ajudante geral Roberto Henrique de Carvalho, 49 anos.
O morador destaca ainda os desafios da ausência de vias largas e pavimentadas. “Quando alguém passa mal ou cai, os profissionais do resgate precisam subir as escadas e carregar. O lixo temos que descer até uma rua lá embaixo onde o caminhão consegue chegar, mas não tem nem caçamba para deixá-los, e se chove, os sacos ficam boiando e desce toda comunidade”, enfatiza.
A faxineira Silvany Oliveira Santos, 51, reclama do excesso de lama e resíduos. “A situação parece que piorou nos últimos anos. É bem complicado andar por aqui, muito lodo e sujeira”, afirma.
Parte dos domicílios da comunidade ainda conta com saneamento básico, mas os residentes reclamam que sai água com lama da torneira, sem contar o rodízio de água que precisam fazer, pois não é possível ter fornecimento em todas as residências ao mesmo tempo.
O motoboy Tiago Turral, 35, comemora que a área onde reside já foi contemplada, em 2023, com a pavimentação e regularização do esgoto que ficava ao ar livre. “Moro aqui desde 2013 e antes era um cheiro muito forte, fedia demais quando estava quente. Era tudo terra e virava lama quando chovia, alagava. A situação melhorou, o problema maior agora são as vielas que por serem estreitas não permitem que os veículos passem”, diz Turral.
Os dados do IBGE mostram uma disparidade entre a infraestrutura do entorno das favelas para quem habita fora das comunidades. Um exemplo é a ausência de calçada em apenas 4% do entorno das residências. A diferença também é gritante em relação à presença de árvores. Em aproximadamente 74% das áreas onde os domicílios em favela estão inseridos não há árvores. O número é duas vezes maior do que para quem mora fora das favelas, que é de 31%.
O arquiteto e gestor do curso de Arquitetura e Urbanismo da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Enio Moro Junior, explica que a arborização é muito baixa em todas as favelas devido ao alto adensamento.
“Elas são sempre feitas em uma área esquecida, residual da cidade, e como há a necessidade de muitas pessoas habitarem, todos os espaços acabam tendo algum tipo de uso. Há também pouco espaço de circulação. A prioridade dessa população de ter um teto acaba sendo maior”, pontua
LEIA TAMBÉM:
"Número de comunidades cresce 37% e chega a 350 áreas na região"
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.