20.000 edições Da proposta de Lauro Gomes em 1961 à oficialização liderada por Celso Daniel em 1990, jornal acompanha evolução da entidade
FOTO: Vânia Delpoio 10/3/89

As histórias do Diário e do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC se misturam, antes mesmo do nascimento oficial da entidade que reúne os prefeitos para definir políticas integradas nas sete cidades. Na edição n° 183, de novembro de 1961, o ''News Seller'', predecessor do maior jornal regional do Brasil, já destacava: “Lauro Gomes propõe: União de todo o ABC”.
O então prefeito de São Bernardo, que viria a comandar Santo André anos depois, já olhava à frente do seu tempo, ao propor a “a integração dos municípios que compõem a chamada área do ABC, ou seja, Santo André, São Bernardo e São Caetano em um só bloco, no sentido de uma administração coesa, o que redundará, fatalmente, em maiores benefícios para a coletividade da região”.
A proposta de Lauro Gomes ocorreu durante visita do prefeito de Santo André à época, José da Silveira Sampaio, ao seu gabinete. “É de real interesse uma aproximação política entre os três municípios. São Bernardo está pronto para qualquer resolução e posso, autorizadamente, falar em nome do prefeito de São Caetano, o senhor Anacleto Campanella, com quem já conferenciei, que aquele município também tem o máximo interesse nessa união”, disse.
Quase três décadas depois, o Diário voltou dar luz à criação da entidade, no dia 13 de dezembro de 1990, ao noticiar a reunião de seis dos sete prefeitos no gabinete de Celso Daniel, em Santo André - apenas José Augusto da Silva Ramos, de Diadema, estava ausente. O assunto foi tirar do papel o Consórcio Intermunicipal das Bacias do Alto Tamanduateí e Billings. Naquele encontro foi sacramentado o nascimento oficial para 19 de dezembro e a escolha do prefeito andreense como primeiro presidente do colegiado.
Em cerimônia na Câmara de Santo André, exatamente em 19 de dezembro, nascia oficialmente o Consórcio Intermunicipal por meio de ata assinada por Celso Daniel (Santo André), Maurício Soares (São Bernardo), Luiz Olinto Tortorello (São Caetano), José Augusto da Silva Ramos (Diadema), Amaury Fioravanti (Mauá), Luiz Carlos Grecco (Ribeirão Pires) e Aparecido Benedito Franco (Rio Grande da Serra). O orçamento da instituição para 1991 ficou fixado em Cr$ 32 milhões, com foco em saneamento básico, drenagem de águas pluviais, abastecimento e destinação de lixo.
SEDE PRÓPRIA
O mundo estava sob choque com os atentados terroristas por meio de aviões tripulados contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e o Pentágono, em Washington, naquele 11 de setembro de 2001. No dia seguinte, o Diário e jornais de todo o planeta estampam em suas capas o terror nos Estados Unidos. Em meio ao turbilhão de emoções, o jornal também destacava um novo avanço do Consórcio Intermunicipal: a Câmara de Santo André aprovou a nova sede da entidade.
Além do Consórcio Intermunicipal, a Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC também passaria a se fixar no prédio desocupado, onde funcionava o Fórum Trabalhista, na Avenida Ramiro Colleoni, Centro de Santo André. O edifício apresentava sinais de deterioração e passou por reformas para receber as duas instituições, que permanecem nesse mesmo endereço até os dias atuais.
Hoje, o Consórcio Intermunicipal é o símbolo de políticas públicas integradas na saúde, segurança, educação, meio ambiente, e uma das principais ferramentas de interlocução do Grande ABC ao Estado e à União.
Lágrimas e ruptura: o adeus de Maurício Soares ao PT
Enquanto o Brasil testemunhava uma disputa emblemática da história econômica do governo de Fernando Collor com a Autolatina - holding da Volkswagen e Ford -, o Grande ABC acompanhava o rompimento do prefeito de São Bernardo, Maurício Soares - morto em 2021 -, com o seu partido na ocasião, o PT. “Saímos do PT, mas continuamos querendo bem os companheiros. Não somos donos da verdade. Podemos estar cometendo um equívoco. A história vai dizer”, afirmou o chefe do Executivo ao <CF52>Diário</CF> na edição de 20 de dezembro.
Berço do petismo e do sindicalismo, palco da largada política de Luiz Inácio Lula da Silva, São Bernardo se tornou um objetivo alcançado pelo PT em 1988, cinco anos após o partido conquistar a sua primeira prefeitura, em Diadema, com Gilson Menezes. Junto a Maurício Soares, eleito com 112.215 votos, o partido também alçava nove vereadores no Parlamento, chegando em um cenário de amplo domínio político na cidade.
Entretanto, o que era para ser uma página hegemônica do PT em São Bernardo, passou a apresentar rupturas. A “raiz” do conflito, segundo o próprio prefeito, foi a postura do PT nas eleições estaduais de 1990. No segundo turno, a legenda havia decidido pelo “voto nulo”. No entanto, Maurício Soares e seu grupo político decidiram apoiar abertamente Luiz Antônio Fleury Filho (PMDB) ao comando do Estado, candidato do governador Orestes Quércia.
A aproximação entre Maurício Soares e Quércia se deu durante a inauguração do sistema de Trólebus - atual Corredor ABD. Após o prefeito e o governador se encontrarem no Palácio dos Bandeirantes, a executiva municipal do PT reagiu com rigor. O vereador Ademir Silvestre, aliado fiel do prefeito, foi punido com uma suspensão de 180 dias por ter subido no palanque de Fleury. Maurício Soares considerou a punição injusta e alegou que não houve “direito de defesa”, acusando as direções estadual e municipal de falharem na tentativa de pacificar a sigla.
Na tarde de 20 de dezembro de 1990, Maurício confirmou sua saída, sob clima de forte emoção. “Saio com uma tristeza muito grande. Ontem de manhã, quando assinamos aqui a carta de desligamento nós cinco, choramos”, relatou o prefeito, com olhos cheios de lágrimas, levando consigo cinco vereadores do PT.
Maurício voltou ao PT em 2008, para apoiar o candidato Luiz Marinho, marcando o retorno do partido ao Paço. A nova aliança perdurou até 2016, quando o ex-prefeito deixou novamente a sigla, para aderir à eleição de Orlando Morando, na época no PSDB.
Vereadores de São Bernardo movem ação contra novela do SBT
Também em dezembro de 1990, uma gravação de cenas da novela Brasileiras e Brasileiros, do SBT, agitou a Câmara de São Bernardo. Em reportagem de Denise Caboclo, o Diário noticiou o inusitado episódio no qual o Legislativo decidiu mover uma ação cautelar contra a emissora, na 2ª Vara Cível de Santana, em São Paulo, pedindo ao juiz uma liminar que impedisse a vei-culação das cenas nas dependências da Casa, sob argumento de que elas atingiram a imagem dos parlamentares.
Na ocasião, a reportagem entrou em contato com o diretor de Produção do Núcleo de Teledramaturgia do SBT, Luiz Carlos Laborda, que classificou de “elemento censor” a atitude do Parlamento. Por sua vez, a assessoria de imprensa da emissora informou a decisão de que parte das cenas gravadas no plenário não seriam levadas ao ar, em uma tentativa de acordo com a Câmara.
A ação foi protocolada no dia 17 de dezembro pela assessoria jurídica, que alegou não ter o conhecimento prévio das gravações e não deu autorização formal para que ocorressem. O presidente da Câmara na época, Nélson Campanholo (PT), garantiu que não houve pedido formal da emissora. Já o SBT contestou as informações do Parlamento, dizendo que teria recebido autorização formal, por telefone, do gabinete do chefe do Legislativo.
No fim a assessoria da emissora informou sobre o corte da cena do plenário da Câmara de São Bernardo.
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