Tradição De México ao Japão, tradições mostram que lembrar os mortos também é celebrar a vida
FOTO: Denis Maciel/DGABC

Apesar de se transformar com o tempo, a cultura orienta costumes e ações de um grupo social ou até mesmo de uma população. É essa união de conhecimentos e crenças que molda a visão de um povo sobre determinado assunto. O Dia de Finados, celebrado hoje no País, reflete bem essa diversidade cultural, sendo marcado por diferentes tradições ao redor do mundo.
Um exemplo que evidencia as diferenças culturais em relação ao Brasil é o costume ucraniano. A aposentada Tânia Krivcun, 79 anos, moradora de Santo André, nasceu na Alemanha, mas foi criada segundo as tradições do pai ucraniano e da mãe russa. “Comemoramos o Dia de Finados em duas ocasiões: no domingo após a Páscoa e no domingo seguinte ao dia 2 de novembro. Nessas reuniões, cada pessoa leva um prato de comida com o intuito de celebrar nossas relações com os mortos”, diz. Ela comenta ainda que o principal prato levado é o Vareniki, uma massa do leste europeu cozida e recheada com frutas, carne ou queijo.
Outro exemplo de celebração com um sentimento totalmente diferente é o famoso Día de Los Muertos (Dia dos Mortos), do México. Reconhecida oficialmente como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em 2008, a festa é marcada por cores vibrantes, comidas típicas, músicas e um clima de alegria, com o objetivo de celebrar e facilitar o retorno das almas à terra entre os dias 31 de outubro e 2 de novembro.
O fornecedor de comida mexicana e também morador de Santo André, Xavier Cruz, 64, nasceu e viveu no México até 2006, quando se mudou para o Brasil.
“No México, o Dia dos Mortos é um dos três feriados mais importantes do País. Quando eu era criança, preparávamos um banquete com comidas de que os falecidos gostavam. Mas só podíamos comer no outro dia, visto que minha mãe contava que as almas vinham buscar os alimentos. A construção de um altar com fotos, velas e outros objetos para nossos entes também faz parte da festa”, relata Cruz.
As famosas calaveras (caveiras) mexicanas também fazem parte da tradição, colorindo ainda mais o evento. Cruz destacou que a música é outro elemento marcante da data, presente principalmente nos cemitérios e nas ruas, tornando os dias ainda mais festivos.
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“Ao chegarmos aqui, percebemos que não há festividade, as pessoas ficam tristes nesse dia. E quando fomos fazer nossos altares, as pessoas olhavam com preconceito, mas minha filha continua fazendo o altar aqui no Brasil, cultivando a tradição”, completa.
A socióloga e professora da Universidade de Colima, no México, Karla Covarrubias, destacou que todo o envolvimento na celebração representa um importante resgate da identidade cultural do país latino-americano. “Faz parte da nossa cultura popular e da proteção da nossa memória. Considero que a tradição do Dia dos Mortos é uma forma alegre de compreender que o ciclo de vida e morte não acaba. O feriado está acima de qualquer outro símbolo cultural de identidade, porque mostra a profundidade da transcendência da alma”, explica a especialista.
Já no Japão, a principal comemoração para relembrar os antepassados sequer acontece em novembro. Entre os dias 13 e 16 de agosto, famílias japonesas comemoram o Obon, de origem budista.
A moradora de Santo André, Misako Shimamoto, 90, chegou ao Brasil aos 22 anos, mas ainda se lembra de como era feita a festividade. Ela conta que os eventos são marcados por muitas luzes e comidas típicas.
“No primeiro dia de finados, é dito que os espíritos dos mortos chegam para visitar os parentes vivos e nesse dia são preparadas guloseimas”, descreve a dona de casa. “No último dia da celebração, os espíritos retornam ao seu mundo, guiados por lanternas acesas colocadas no rio ou no mar”, finaliza.
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No Brasil, o Dia de Finados é marcado por visitas aos cemitérios, momentos de saudade e, muitas vezes, está entrelaçado a rituais religiosos.
“No nosso caso, principalmente em São Paulo, pensamos o Dia de Finados em torno da religião católica e cristã. Em sua maioria, as pessoas religiosas vão aos cemitérios, levam flores e rezam missas. Pela nossa história de colonização, fomos impostos a essa prática”, explica a historiadora, pesquisadora em estudos culturais e professora da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Priscila Perazzo.
A especialista ainda relata que as diferenças culturais fazem com que o dia seja especial. “É um dia em que as comunidades, sejam elas nações ou grupos locais, refletem sobre como lidar com a morte. Entra no campo da filosofia também, visto que é uma forma de lidar com a ausência, muitas vezes se entrelaçando com as diversas religiões”, diz. Neste dia 2 de novembro, são esperados cerca de 65 mil visitantes nos cemitérios do Grande ABC. As prefeituras preparam programações especiais para a data. Em Mauá, o município terá um esquema especial de transporte coletivo para o feriado. Para facilitar o deslocamento, todas as linhas urbanas estarão integradas no Terminal Central. Com o sistema de integração, o passageiro pode chegar ao terminal vindo de qualquer bairro. A partir dali, embarca na linha que segue diretamente ao cemitério desejado, sem precisar pagar uma nova tarifa.
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