Ofício Coveiro e motorista paramentador de Santo André revelam os processos da preparação dos corpos até o momento do enterro
FOTO: Celso Luiz/DGABC

Conviver diariamente com a morte faz parte da rotina de muitos profissionais que atuam longe dos holofotes. Tanatopraxistas, agentes funerários, técnicos de necropsia, legistas, coveiros e cremadores são responsáveis por garantir que o fim da vida seja conduzido com respeito e dignidade. No Grande ABC, entre aqueles que lidam com o luto por décadas, estão Mário Sérgio Antoniol, sepultador há 52 anos, e Jairo Donizete, motorista paramentador há 24.
De acordo com dados do Registro Civil, 16.735 pessoas morreram neste ano nas sete cidades da região, média de 55 óbitos por dia. Cada um desses casos mobiliza equipes de diferentes áreas: quem prepara o corpo, quem faz a remoção, quem realiza a perícia e quem conduz o sepultamento.
No Cemitério da Saudade, em Santo André, Mário Sérgio Antoniol, 73 anos, aprendeu que a morte não escolhe hora nem ocasião. Há mais de meio século, ele acompanha famílias em despedidas.
“Nosso trabalho é fazer sepultamentos e exumações. A família chega com a documentação, marca o horário e realizamos o serviço. Às vezes estamos indo embora e chega um corpo de última hora. Temos de estar sempre prontos”, conta. Segundo ele, a imagem do coveiro mudou muito ao longo dos anos.
“Antigamente, o pessoal achava que quem trabalhava em cemitério era gente sem estudo, excluída da sociedade. Hoje entendem que é um serviço essencial. Lidamos com o sofrimento e precisamos ter respeito com cada família”, afirma.
Quem prepara o corpo para o velório também carrega o peso da responsabilidade. É o caso de Jairo Donizete, 55, que integra o serviço funerário de Santo André e cuida desde a remoção até a preparação final do corpo.
“Fazemos a recolha, o IML (Instituto Médico Legal) faz sua parte e depois preparamos o corpo: vestimos, fazemos barba, cabelo e necromaquiagem. Tudo para deixar o mais natural possível”, explica o motorista paramentador. O objetivo, segundo ele, é ajudar as famílias a enfrentar o momento da despedida.
Esta é a primeira reportagem da série especial Rituais: entre luto e memória, que revela o que está por trás da morte e os processos que a cercam – do trabalho de quem lida com ela diariamente e às formas de manter viva a lembrança de quem partiu. Dividida em quatro reportagens, a série será concluída no domingo (2), feriado de Finados.
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Obituário do ‘Diário’ mantém viva a memória do Grande ABC
A seção Falecimentos aparece regularmente no Diário desde os tempos do semanário News Seller (1958-1968). Mas ganhou relevância com o desenvolvimento tecnológico do jornal e a criação do site, na virada do século XX para o XXI. Com o on-line, estabelece-se uma conexão universal e passa a ser comum uma família lá do sertão do Nordeste entrar em contato com o Diário porque leu na Internet sobre a morte de um parente que há anos havia migrado para São Paulo e não mais ter se comunicado.
Nestes casos, o jornal torna-se a ponte familiar, em colaboração com a agência funerária, em um trabalho social dos mais nobres, sempre valorizado por todas as partes.
Os agentes funerários realizam um trabalho essencial, atendendo nas 24 horas do dia, nos momentos mais difíceis da realidade humana.
Registrar um óbito é muito mais do que um trabalho burocrático. Orientar quem registra torna-se, quase sempre, um ato no qual o funcionário, mesmo que queira manter-se frio, equidistante e profissional, envolve-se com a dor de uma perda
“Alguém tem que fazer esse trabalho”, comenta um agente, já no papel de fonte permanente do repórter, que vai noticiar mais uma partida.
Incluir o obituário no rodapé da página Memória tem tudo a ver com o registro memorialístico. E o jornal procura, entre as informações a serem publicadas, colocar a cidade natal de quem partiu.
O Grande ABC é uma região formada por migrantes e imigrantes. E o obituário diário é o espelho desta formação étnica. Complementando os informes sobre as origens de quem faleceu, a página Memória tornou hábito a publicação diária das cidades aniversariantes. Primeiro as do Estado de São Paulo. Depois, as cidades brasileiras em geral.
Nova conexão é observada: no obituário, o nome da cidade que aparece também na seção dos municípios que aniversariam. Gentes de todas as paragens participando da construção do Grande ABC, estendendo-se aos naturais de todas as partes do mundo.
Alguns poucos brasileiros que aqui falecem são enviados para sepultamento nas cidades para os crematórios criados a partir da década de 1980. Nasceram em outras paragens, escolheram o Grande ABC como seu eterno chão.
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