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Moradores do Grande ABC superam o luto de entes queridos de diferentes formas

Lucia Durante sempre visita o túmulo da família, já Vitor Monteiro não pôde velar o pai, mas ambos encontraram um caminho para curar a dor da perda

01/11/2025 | 07:00
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FOTO: Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


O luto pode ser processado de maneiras distintas. Há quatro décadas, Lucia Cruchak Durante, 91 anos, mantém a mesma rotina. A cada 15 dias, a aposentada passa algumas horas cuidando dos túmulos da família. Ela lava com afinco e mantém limpos os sepulcros de seus antepassados maternos e paternos, ambos no Cemitério da Saudade, na Vila Assunção, em Santo André.

O ritual ajudou Lucia a processar os lutos da vida. Única sobrevivente entre cinco irmãos, ela já enterrou avós, pais, tios, irmãos e o marido, Hermínio José Durante, que faleceu em 1990, aos 52 anos.

“Uma de minhas irmãs se foi aos 24 anos, ao dar à luz. Tenho lembranças boas de todas essas pessoas e penso que é importante cuidar dos túmulos. O corpo não vale mais, eles se foram, mas temos o coração cheio de saudade e de motivo para viver. Um dia também não estarei mais aqui, por isso tenho que aproveitar a vida agora, sem esquecer deles”, justifica.

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A andreense encontrou também na fé uma forma de superação. “Me ajuda muito. Sempre passo na capela para fazer minhas orações pelas almas deles. O tempo cura, mas temos pessoas que ficam com trauma, é muito triste isso. É importante que possamos recuperar a vida normalmente. Quando meu marido faleceu, fiquei um ano martelando. Depois disso, pensei: a vida tem que continuar”, lembra.

A maneira de lidar com a perda pode não ser necessariamente por meio de um processo terapêutico. No caso de Lucia, as visitas ao cemitério e a religiosidade foram as soluções encontradas para lidar com a dor, formas consideradas perfeitamente saudáveis, segundo o psicólogo e psicanalista Francisco Nogueira.

“O ritual é uma forma de estruturar o sofrimento, ao mesmo tempo em que dá sentido à morte. Ela consegue apaziguar o vazio da perda por meio de um pensamento religioso e, de maneira litúrgica, preencher a relação com as pessoas que se foram. Para alguns, essa é uma produção psíquica que dá lugar à perda, a qual ganha outro significado”, explica.

TERAPIA

Ao contrário de Lucia Durante, o analista de projetos de São Bernardo Vitor Duran Monteiro, 29, não teve a oportunidade de viver os rituais da morte na despedida de seu pai, o gerente de tráfego Eduardo Roberto Monteiro, que morreu aos 46 anos, vítima da Covid-19. Entretanto, buscou outros recursos para superar a partida repentina, entre eles o apoio psicológico. 

“Já fazia terapia e me ajudou muito. Meu processo de luto está finalizado e bem trabalhado. Durou um ano e foi bem difícil”, define. O pai foi internado no fim de março de 2020 e faleceu em 5 de abril do mesmo ano. “Foi uma perda repentina, não deu tempo de processar, diferente dos meus avós, que ficaram doentes por meses e deu tempo de me preparar para a despedida. Ele foi dirigindo para o hospital e nunca mais voltou.”

No início da pandemia, o protocolo impedia a realização de velórios e determinava que os sepultamentos fossem feitos rapidamente, por medo da contaminação. Algumas famílias chegaram a reconhecer os corpos por videochamada.

“Não teve velório e somente meu tio acompanhou o enterro, feito de madrugada, com a iluminação do carro da funerária. Minha avó paterna sempre disse que se sentiu incompleta por não ter tido a possibilidade de velar o filho”, conta.

Monteiro destaca que o mais impactante foi a circunstância em que fez o reconhecimento do corpo. “Imaginava que ia ser igual ao que via em cenas de filme: levantariam um lençol e meu pai estaria lá. Mas puxaram só a cabeça dele de dentro de dois sacos mortuários. Se a última imagem dele fosse em um caixão com flores, talvez tivesse sido menos traumático”, reflete.

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Logo após a morte, ele não pôde viver seu luto, pois precisou ser forte para acolher a mãe, que teve a depressão e o TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada) agravados. “Quando ela se estabilizou, eu pude ter minha recaída e chorei muito. Conseguimos nos ajudar de formas alternadas. O tempo não curou, mas ensinou a viver com a dor”, avalia.

Psiquiatra explica quando buscar ajuda

Um ano após a perda de um ente querido, é esperada uma melhora gradual e significativa do estado emocional, explica o psiquiatra Marcel Fúlvio Padula Lamas, coordenador da Psiquiatria do Hospital Albert Sabin.

“Se houver piora, o processo passa a depender de outras medidas. Nesses casos, o tratamento é estruturado com psicoterapia e, em algumas situações, o uso de medicação é fundamental”, afirma.

Em 2022, a OMS (Organização Mundial da Saúde) reconheceu o luto prolongado como um transtorno mental. 

A condição é caracterizada por uma resposta persistente, intensa e incapacitante diante da perda, ultrapassando o processo adaptativo esperado.

“Para que o diagnóstico seja feito, a perda deve ter ocorrido há pelo menos 12 meses, ou seis meses no caso de crianças e adolescentes. A pessoa precisa apresentar anseio intenso ou preocupação constante com o falecido”, explica o psiquiatra.

Segundo Lamas, para ser diagnosticado com TLP (Transtorno do Luto Prolongado) é necessário que estejam presentes, quase diariamente e por pelo menos um mês, três ou mais sintomas, comprometendo as atividades cotidianas.

Entre eles estão a dificuldade em aceitar a morte ou sensação de descrença, evitação de lembranças, desejo intenso de estar novamente com o falecido, sofrimento emocional acentuado ao lembrar da perda, dificuldade em retomar a vida social ou pessoal, sentimento de que uma parte de si morreu com o ente querido, além de raiva ou culpa em relação à morte.




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