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Marta Marcondes: ‘Mudar consumo é jeito de garantir a sobrevivência’

Leticia Generali
Especial para o Diário
27/10/2025 | 08:08
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FOTO: André Henriques/DGABC
FOTO: André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


 Marta Ângela Marcondes é referência em meio ambiente no Grande ABC. Doutoranda em Medicina Translacional pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), mestre em Educação, Administração e Comunicação e especialista em Ecologia, atua há décadas na pesquisa e na educação ambiental. Professora titular da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), coordena projetos como o IPH (Índice de Poluentes Hídricos) e a Expedição Mananciais, além de integrar redes nacionais e conselhos ligados à gestão de mananciais. Sua atuação conecta ciência, políticas públicas e cidadania. Leia a entrevista.

RAIO-X

Nome: Marta Ângela Marcondes

DGABC

Aniversário: 6 de novembro

Onde nasceu: São Caetano

Onde mora: São Caetano

Formação: Ciências Biológicas e mestrado em Educação, Administração e Comunicação

Um lugar: Paranapiacaba 

Time do coração: Corinthians

Alguém que admira: os pais, Maria de Carvalho e Lavinho de Carvalho

Um livro: Irmãs em Auschwitz, de Heather Dune Macadam

Uma música: Anjos, do Rappa

Um filme: Ao Mestre com Carinho (1967), de James Clavell

A Sra. construiu uma trajetória marcada pela pesquisa em meio ambiente e sustentabilidade. O que a motivou a entrar nesse campo e qual a importância de trazer essa pauta para o Grande ABC?

Desde pequena sempre tive encantamento pela natureza. Isso foi reforçado pela influência da minha família, de professores e das experiências que vivi ainda na juventude. Aos poucos esse interesse pela fauna me levou a perceber o quanto os impactos ambientais atingem diretamente os ecossistemas. Trabalhei no Litoral com espécies marinhas e acompanhei de perto problemas como poluição e perda de habitat. Mais tarde, no mestrado, tive contato com comunidades indígenas na região da Represa Billings e aprendi o quanto os povos tradicionais são fundamentais para a preservação. Essa vivência mudou a minha forma de enxergar o meio ambiente. Essa trajetória mostra como o encantamento virou compromisso. Levar essa pauta para o Grande ABC é essencial porque estamos em uma região que reúne indústrias, áreas verdes e reservatórios que abastecem milhões de pessoas. Discutir sustentabilidade aqui significa pensar no futuro de toda a metrópole.

Qual é a importância da COP30 (30ª Conferência das Partes), em Belém, especialmente com o Brasil sendo o país-sede do evento? E como a Sra. analisa a possibilidade de traduzir esse debate global para o contexto do Grande ABC?

Trazer a COP30 para o Brasil foi uma cartada de mestre, porque é você trazer países do mundo inteiro para conhecerem o que é a floresta amazônica. Por isso que foi pensado em fazer lá em Belém. Porque, óbvio, poderíamos trazer a COP30 aqui para São Paulo, onde há grandes locais de convenções, para o Rio de Janeiro e até para Brasília. Mas por que levar para Belém? É para que as pessoas saiam do imaginário do que é a floresta amazônica e venham para uma coisa real. Porque nada melhor do que conhecer para amar e respeitar. E aí, nesse momento de respeito, é que as discussões poderão ficar mais acaloradas.

Se falarmos de prioridades, quais seriam as emergências ambientais do Grande ABC atualmente?

Uma emergência ambiental é nós brigarmos pela recuperação e preservação das áreas mananciais. Seria se todos os sete municípios se unissem para recuperação e preservação de áreas mananciais. Outra absurda seria a questão do saneamento. Do tratamento do esgoto que é produzido aqui ser tratado e não ser jogado diretamente nos rios da região de Rio Grande da Serra. Isso é uma máxima emergência. Porque nós temos praticamente 60% do esgoto de um município passando pelo outro que é jogado diretamente nos nossos rios ou, pior ainda, no braço do Rio Grande da Billings, que é o braço onde se faz captação de água para distribuição aqui na nossa região.<TB>

Como aproximar temas como a mudança climática ou questões ambientais do morador do Grande ABC?

Uma coisa que eu aprendi ao longo desses anos foi que, se a gente conectar os temas ambientais aos temas de saúde, as pessoas nos ouvem. Quando você vai fazer uma ação e é só ambiental, ninguém está nem aí. Mas se você, de alguma maneira, conecta essas ações com a questão da saúde, as pessoas já levantam umas antenas e falam, ‘opa, espera aí, que isso realmente é problemático’. E outra coisa é o processo de educação ambiental. Então, você conhece para preservar. Ou seja, a melhor forma de envolver as pessoas é por meio de processos de sensibilização.

O que os resultados do projeto de controle do IPH (Índices de Poluentes Hídricos) de rios e córregos mostram sobre a qualidade da água no Grande ABC hoje? 

Infelizmente, os nossos rios e córregos urbanos aqui no Grande ABC, estão em situação extremamente precária. Quando eu falo extremamente precária, são realmente muito contaminados. Então, não adianta a gente pensar, por exemplo, em despoluir um rio Tietê se a gente não despoluir quem leva a poluição para esse rio. O rio Tamanduateí, que nasce na Gruta de Santa Luzia, em Mauá, e 500 metros da saída do parque, já começa a ficar poluído. O Ribeirão dos Meninos é um rio que estudo há 20 anos. Ele não melhorou nada nesse período, e sim, piorou, com mais lançamento de esgotos, com mais aparecimento de micro-organismos causadores de doenças, com uma situação que, infelizmente, é insustentável para um rio.

Já é possível notar os impactos da mudança climática na região? Se sim, quais?

Muito. No dia 22 de setembro, tivemos ventos fora do normal. A falta ou a concentração de chuvas, temperaturas que oscilam muito, por exemplo, 10 °C de manhã, 28 °C à tarde e 9 °C à noite, já são sinais de mudanças climáticas aqui no Grande ABC. Antigamente, ao andar pela Via Anchieta, havia neblina intensa que hoje não vemos. Isso acontecia por conta da vegetação e das águas da região. Com a perda desses elementos, também perdemos o vapor d’água que formava esse fenômeno. Esses sinais mostram claramente que os impactos das mudanças climáticas já são visíveis na região.

Considerando a situação atual das reservas de água em São Paulo, as mudanças climáticas têm influenciado esse contexto?

Sim, as mudanças climáticas já estão afetando nossas reservas. O braço do Rio Grande está com menos de 50% da capacidade nesta época do ano, porque depende dos rios que chegam até ele, e hoje o regime de chuvas está reduzido. A situação é insustentável e compromete também a produção de água no braço do Rio Pequeno, que abastece praticamente todos os municípios do Grande ABC. O sistema Rio Claro, que atende parte das cidades de Mauá e de Santo André, também está em níveis baixíssimos. Ou seja, os impactos já são claros na região.

Como a Sra. avalia a situação atual das reservas? Estamos repetindo erros do passado ou houve avanços?

A gente não fez nada para melhorar. Além de repetir os mesmos erros de anos atrás, não houve avanços. Hoje existem discussões sobre mudanças nos planos gestores dos municípios para permitir mais obras, mais supressão de vegetação e mais impermeabilização do solo. Ou seja, ninguém aprendeu nada durante esse período.

E como os resultados de suas pesquisas pode contribuir para o Grande ABC se preparar diante das mudanças climáticas?

Nossos estudos mostram que a perda de vegetação significa que áreas que antes sequestravam carbono e ajudavam a amenizar a temperatura já foram destruídas. Isso comprova que estamos contribuindo negativamente para o avanço das mudanças climáticas. Os relatórios de poluentes atmosféricos e de água, a supressão de vegetação e o assoreamento dos reservatórios são evidências científicas da situação que enfrentamos na região.

O Grande ABC é uma região industrial, mas também cercada por áreas verdes importantes. Como equilibrar esses dois mundos de forma saudável e produtiva?

Não se trata de acabar com a vocação industrial do Grande ABC, mas de pensar quais indústrias são compatíveis com a região. Hoje, a vocação maior é para preservação e produção de água. Há dez anos tivemos a crise hídrica, nada foi feito, e agora enfrentamos outra com a Cantareira abaixo de 24%. As áreas verdes do Grande ABC garantem abastecimento, geração de energia e ainda podem ser aproveitadas para o turismo. Isso não dá para aceitar. Porque se isso realmente se configurar, nós teremos uma destruição das áreas que são produtoras de água e que abastecem agora oito milhões de pessoas. Ou mudamos radicalmente o que estamos fazendo, como já alertava a Carta da Terra nos anos 1980, ou não vamos garantir a vida humana no planeta.

Muito se fala em consumo consciente, mas até que ponto a responsabilidade deve ser do cidadão e até que ponto deve recair sobre as políticas públicas e gestão?

Consumo consciente envolve os três setores: poder público, empresas e sociedade civil. Não adianta estimular o consumo sem oferecer opções de descarte correto. A sociedade também tem papel central: somos nós que colocamos representantes no poder público e ditamos boa parte do consumo. Quando aceitamos produtos baratos demais ou trocamos bens antes da hora por influência da propaganda, reforçamos práticas insustentáveis. As empresas, por sua vez, querem vender cada vez mais, mas precisam equilibrar isso com responsabilidade social e ambiental. A mudança só virá com educação constante. Todos têm responsabilidade. Não existe planeta B. Ou mudamos nossos padrões de consumo ou comprometemos a sobrevivência da própria espécie humana.

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