Entrevista da Semana
FOTO: André Henriques/DGABC

No mês em que se comemora o Dia do Professor, a presidente da Aesp (Associação das Escolas Particulares do Grande ABC) e ex-vice-prefeita de Santo André (2013-2016), Oswana Fameli, afirma que é urgente a necessidade de a classe política assumir posicionamento efetivo em defesa da educação, com ações concretas que priorizem a inclusão e valorizem os professores. Segundo ela, muitos discursos se perdem em promessas eleitorais, quando o que o País realmente precisa são políticas comprometidas com resultados e com a formação humana. Fameli alerta para a perda de valores e a falta de reconhecimento do papel do educador, que hoje vai muito além da sala de aula. Sobre o uso da tecnologia, ela crê que deve ser aliada, mas com critério. Para a educadora, repensar a educação é resgatar valores, responsabilidade e equilíbrio emocional.
RAIO X
Nome: Oswana Fameli
Aniversário: 28/9
Onde nasceu: Santo André
Onde mora: Santo André
Formação: Mestre em Educação. Psicopedagoga
Um lugar: Praia
Time do coração: Santo André
Alguém que admira: minha mãe, também conhecida como professora Sebastiana, a ‘Tia Sê’
Um livro: O Pequeno Príncipe, de Saint Exupery. Todas vez que volto a lê-lo tiro reflexões importantes para a vida
Uma música: Trem Bala, de Ana Vilela.
Um filme: Sociedade dos Poetas Mortos, diretor Peter Weir - 1989
Como a sra. analisa hoje a educação e o uso da tecnologia na sala de aula?
Antigamente eu dizia que o Brasil ficava muito a reboque do que acontecia no mundo, mas minhas andanças trouxeram uma visão de que estamos no mesmo patamar. Temos condições diferenciadas em questão de currículo, em questão de qualidade de trabalho pedagógico, de formação de professores. A geração que vem é muito semelhante (a de outros países) pelo aspecto da própria cultura mundial, de consulta, de vivência de trabalho e de transformação da sociedade. Acho que precisa se repensar a educação. Como trabalhar com a inteligência artificial. Se não tomarmos cuidado, nossos alunos não serão pensadores. Se não tomarmos cuidado, não teremos iniciativa, empreendedorismo, iniciação científica, de pesquisa, habilidades e reconhecimento, porque o que não se usa, não se desenvolve e eles (crianças e jovens) não usam.
A tecnologia pode ajudar na alfabetização?
Na idade de alfabetização a criança precisa do exercício de amolecer a mãozinha. Precisa reproduzir na escrita para que o processo de aprendizagem seja efetivo e eficiente na sua alfabetização. Tem de fazer a tabuada quantas vezes for necessário para que grave o conceito. Não para decorar, mas para que entenda e compreenda a lógica e o funcionamento por trás do exercício. Precisa ter movimentos de coordenação motora grossa e fina. Isso faz parte do nosso desenvolvimento. A tela pode substituir? Não vai substituir. Vai camuflar uma aprendizagem. Então, o que pedimos (enquanto educadores) é que seja uma aprendizagem monitorada quando na internet. Precisa da presença da família controlando qual é o ponto de aprendizagem. Quais as informações essas crianças estão recebendo. Se você me perguntar se sou contra, digo que não. Porém, sou criteriosa quanto ao seu uso. Precisa ter uma consciência muito grande do que você está procurando para ter um desenvolvimento pleno. A inteligência artificial, por exemplo, vai te responder tudo, mas nem toda resposta é a correta para aquilo que você precisa. Então, primeiro temos de trabalhar menos a tela e mais a ordem física, porque assim vamos conseguir trabalhar uma aprendizagem de melhor sucesso.
A sra. acredita que o sistema educacional tem realmente condições de fazer a inclusão dos alunos?
Falo sem medo: ninguém é bom o tempo todo e em tudo. Ninguém sabe tudo 100% e está tudo bem. São habilidades, competências. O tempo de aprender de cada um e essa diferença na aprendizagem requisita uma metodologia, uma aplicabilidade ou uma habilidade diferente. Não estamos fazendo em produção. A educação tem de ser individualizada, com número reduzido de alunos, os professores trabalhando no mesmo conceito e uma metodologia combinada. Tem aluno que aprende mais enxergando, tem aluno que aprende mais ouvindo, e o que aprende mais experimentando. Quando falamos de inclusão, a nossa legislação trouxe alguns problemas para a escola comum porque coloca (alunos de) condições diferentes em uma mesma sala e o professor tem de se virar. O que eu sugeriria, se pudesse, é que a nossa legislação fosse revisitada e que as escolas pudessem dizer o quanto conseguem incluir e em quais momentos. Precisamos de autoridades que coloquem a mão para dizer: ‘Olha, vamos trabalhar juntos’. Porque hoje, desculpa, o que vejo é só uma postura eleitoral. Não é um compromisso com a educação.
A valorização profissional é uma realidade?
Vou dar um exemplo: cada time de futebol tem seu técnico, mas na hora de assistir ao jogo parece que todos são técnicos. Todo mundo tem um palpite para dar. Porém, quem se especializou nos jogadores para poder dizer o que cada um tem de fazer? O técnico. Ele sabe qual é o papel do jogador, mas todo mundo acha que pode dar palpite. Acredito que é umas 100 vezes pior a interferência da sociedade no trabalho do professor. Muitas vezes ele trabalha de forma solitária, porque a família não o apoia. Isso, 90% das vezes. Quando pegamos as histórias das escolas que foram invadidas, todos os professores deram a vida pelos seus alunos. Então, depois do pai, da mãe, quem dá a vida por essas crianças são seus professores. O mínimo que a sociedade tem de fazer é respeitar. O mínimo que a sociedade tem de fazer é colaborar. Porém, não é isso o que acontece. O papel que o professor exerce hoje é muito mais do que a educação formal que aplica a seu aluno. Muitas vezes, ele é o confidente, o orientador. Muitas vezes é aquele que vai intermediar uma conversa entre o aluno e a família. Então, o professor é aquele que esclarece e que transmite conhecimento. Mais do que isso, hoje ele se transmite como pessoa. Se o professor perdeu em algum momento esse valor, foi porque a sua formação também se perdeu em algum momento, que precisa ser resgatado. Precisamos hoje que as cabeças pensantes do nosso País voltem os olhos para o currículo acadêmico, para a carga horária curricular. Para a formação desses que hoje precisam, inclusive, (de apoio) com a saúde mental. Precisamos de legislação, não que traga voto para quem escreve, mas que traga eficiência para quem cumpre. A exceção não pode se tornar o cotidiano.
O Diário tem uma campanha focada na saúde mental, Como vê essa questão na educação?
A crise da educação vem da formação dos nossos filhos. De quanto os poupamos de alguns trabalhos emocionais. Então, a criança que não aprende a perder, a se frustrar e ir buscar enquanto pequena, ela vai crescer um adulto sem equilíbrio emocional. Antigamente, o melhor bife era para o pai, porque era o provedor e tinha de estar bem alimentado. Hoje, como mãe, como pai, provedores, deixamos o melhor bife para o filho, porque ele precisa dar continuidade à vida. Com isso, eles não lutam mais, não buscam mais e na primeira frustração já aprendem a fuga. A fuga é buscar aquilo que muitas vezes não é a melhor solução. Então, vemos números crescentes de suicídios, de crises mentais. Vemos a busca por drogas, bebida, porque não aprenderam a lidar com o reverso. Hoje, a família tem uma estrutura nos conceitos de valores certos e errados. Vou dar um exemplo que uso para os pais aqui (na escola). A família tem uma rotina muito intensa. A mãe teve uma semana ruim, choveu, a roupa não secou, o salário não deu até o fim do mês, o chefe pegou no pé, tem dívida para pagar, e quando chegou em casa, a criança estava pulando no sofá. ‘Filho, não pula no sofá. Não paguei o sofá’. A vida está toda errada e descasca a confusão na cabeça do filho, porque não é certo pular no sofá. Na semana seguinte, amanheceu um dia ensolarado, a roupa secou, o chefe elogiou, veio um aumento, não tinha trânsito na rua. A mãe chega em casa e a criança está fazendo o quê? Pulando no sofá. Ela pensa: ‘já briguei tanto a semana inteira, e também, o que custa? Deixa pular um pouquinho’. Qual é o recado que a criança entendeu? É certo ou é errado pular no sofá? Depende do estado de espírito da minha mãe, depende de como caminha a humanidade. Então, faço analogia com o desequilíbrio do valor moral do certo e do errado. O sofá é um símbolo de brincadeira, mas tudo na vida está assim. Posso passar no farol vermelho, ou não posso passar? Posso beber uma bebida em um bar que não conheço, ou não? Quais são os valores que estamos vivendo hoje que estão trazendo essa confusão do certo e do errado na vida de cada um? O que estamos vendo é uma sociedade com valores disformes, os quais estão se perpetuando nos filhos. Nos filhos dos filhos, que acabam não tendo compromisso, iniciativa, responsabilidade.
A sra. falou de valores, compromisso e responsabilidade.
Estamos vivendo um período em que a geração não tem iniciativa para enfrentar nada. Por quê? Por que foram preservados? Não sei. Por que foram mal acostumados? Não sei, mas algo na nossa sociedade mudou para que chegássemos a esse ponto. Não pode sofrer, não pode perder, não pode ter tristeza. São consequências. Precisamos dosar essa experiência, porque vai ter sucesso na vida quem se destacar. E quem é que vai se destacar? Quem tiver a oportunidade de aprender e aproveitar o que está sendo oferecido. Trabalhando a frustração, a perda, a vitória, a conquista. Voltar um passo para poder dar dois para frente. A vida deixou de ter valor, eu acho, porque não foi trabalhado o valor. Não foi incentivado à verdade, à obediência e ao compromisso. Temos de fazer um resgate. Revisitar todos os conceitos de valores morais, sociais, econômicos, e começar a trabalhar a mudança que precisamos. Digo isso porque ninguém é melhor nem pior neste mundo.
Como a sra. vê o Desafio da Redação, concurso realizado pelo ‘Diário’?
Acho que tem um impacto muito grande, forte e verdadeiro. Quando pegamos para olhar, por exemplo, o Enem ou os vestibulares, o quanto a redação é seletiva por sua pontuação. Penso que iniciativas como essa ajudam a acompanhar o desenvolvimento de uma sociedade em formação. É uma iniciativa exemplar, significativa e que merece todo incentivo, todo apoio e toda nossa observação, para que possamos levar esse momento de aprendizagem, de entrega, não só para quem tem oportunidade de aprender, mas para quem também não tem.
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