Laço familiar Filhas de educadoras mostram como viver entre livros e afeto transformou o ensino em vocação
FOTO: Denis Maciel/DGABC

A educação, para muitas famílias, nasce antes mesmo da escola. Crescer entre cadernos, planejamentos e histórias exige de quem a pratica uma mistura única de amor, responsabilidade e, sobretudo, paciência. É o caso de mulheres da região que transformaram a docência em herança e vocação, uma escolha que vai além da profissão, celebrada nesta quarta-feira (15), no Dia do Professor.
Essa paixão por ensinar une famílias como as de Andresa de Magalhães Silva, 46 anos, professora e também vice-diretora da rede municipal de São Bernardo, e as filhas Gabrielly Magalhães Neres, 27, coordenadora do ensino médio em escola privada, em Mauá e Elise Magalhães Silva, 21, estudante do curso de Pedagogia e moradora de Santo André.
“Acredito que a educação transforma vidas. É um caminho de mudança de mentalidade e de futuro”, diz Andresa. Em casa, as filhas cresceram vendo a mãe planejar aulas, preparar materiais e resolver conflitos com famílias e alunos. “Sempre foi um trabalho muito presente. Elas acompanhavam as conversas sobre a escola e meus preparativos de aula. Acho que foi assim que a educação foi escolhendo cada uma delas.”
Gabrielly confirma que a decisão foi um processo natural, ainda que tenha resistido no início. “Durante a infância, quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, dizia que ia ser professora igual à minha mãe. Mas, com o tempo, tentei fugir disso. Via os desafios que ela enfrentava e dizia que não queria aquilo para mim. Só que, no fim, percebi que a licenciatura era o meu lugar”, conta. “Brinco que, em determinadas situações, penso: ‘O que a dona Andresa faria?’”
Hoje, atuando na gestão escolar, Gabrielly reconhece na mãe a principal referência profissional. “Aprendi com ela a firmeza na resolução de problemas, o acolhimento com os alunos e as famílias e a importância de ouvir. Mantenho a transparência e o senso de justiça como marcas do meu trabalho”, afirma.
Já Elise reforça que a vocação nasceu no convívio. “Crescer com uma mãe professora foi meu porto seguro. Sabia que ela sempre teria a resposta e a paciência para explicar, não só para mim, mas para todos à volta”, recorda. “Tudo se alinha quando ouvimos a frase ‘para ser professor, precisa ter um dom’. Com toda certeza, isso veio pela minha mãe e da nossa família.”
Entre o amor e os desafios, as três reconhecem que a docência mudou muito. Andresa, que começou a lecionar em 2006, viu a tecnologia transformar o cotidiano escolar. “Hoje o acesso é mais rápido, as soluções vêm com mais facilidade, mas também há riscos. As crianças precisam de orientação para usar o digital de forma segura”, afirma.
Gabrielly complementa. “Acredito que, com o uso excessivo de celulares, a ansiedade é um dos maiores desafios atuais. Muitas vezes precisamos agir quase como psicólogas, ouvindo e tentando ajudar o aluno.” Elise concorda e ressalta que ainda há questões a serem repensadas. “Não há como negar que houve muitos pontos positivos, mas também aspectos negativos que precisam ser ajustados.”
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INSPIRAÇÃO
A relação entre gerações também marca a trajetória da professora Clotilde Cayres Calegon, 80, e de sua filha, Catia Cayres Calegon Henriques, 52, ambas de Santo André. Clotilde, já aposentada após anos dedicados à educação, começou a ensinar na década de 1970, quando a escola era movida apenas a giz e folhas de papel.
Clotilde iniciou sua carreira em escolas da periferia de Mauá em 1972, um período em que os recursos eram escassos. “Fazia meu próprio material didático, criava a família silábica, joguinhos, baralhinhos. Trabalhava em uma escola onde o Estado não dava nada”, recorda a educadora.
“O mais gratificante é acolher a criança que não sabia ler nem escrever e, no final do ano, ela estar lendo e escrevendo. Me sentia realizada”, afirma Clotilde. Para ela, o professor da primeira série é o “mestre dos mestres”.
A paixão pela educação inspirou Cátia a seguir os passos da mãe. Ela lembra de crescer e observar Clotilde preparar aulas com “muito amor e dedicação” e de ajudá-la na correção de provas ainda criança. “Minha mãe é a razão pela qual escolhi a minha profissão. Tudo que sou como educadora devo a ela. Ela não só ensinava conteúdos, ela tocava os corações dos alunos”, relata a professora.
Apesar das transformações, Cátia carrega o ensinamento mais importante da mãe: a paciência. “O que aprendi com a minha mãe foi esse lado da paciência, de saber ouvir. Cada aluno que está ali é uma responsabilidade e cada um tem uma historinha para contar”, ensina.
Esta reportagem encerra a série Professor, Presente!, produzida em homenagem aos profissionais da educação. As outras duas matérias estão disponíveis no site do Diário (dgabc.com.br).
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