De aluno a mestre Docentes de diversas áreas compartilham os desafios e a paixão pela profissão que vai além da alfabetização
FOTO: André Henriques/DGABC

“Você dá aulas de judô, mas qual é o seu trabalho?”. Foi o que ouviu Adevaldo Junior, 27 anos, professor de artes marciais do projeto Judô Riacho Grande, de São Bernardo, ao iniciar sua carreira de sensei. Sem lousas, canetas e as tradicionais carteiras escolares, docentes fora das salas de aula e do âmbito da alfabetização ainda buscam valorização profissional.
Logo após conquistar a faixa preta, aos 18 anos, Junior começou a dar aulas de judô para alunos de diversas faixas etárias, desde crianças até adultos.
Para o atleta, a vontade de seguir carreira surgiu como oportunidade de continuar no mundo das artes marciais. “Todos querem seguir carreira como atleta de competições. No percurso, fui adquirindo a vontade de ser professor e amadurecendo a responsabilidade de ensinar”, disse.
Segundo o são-bernardense, seu trabalho passa muito pela questão social dos participantes. “Sempre falo para os alunos e para os pais que não existe aprender algo sem disciplina. É uma coisa que sempre enfatizo, não só a parte do atleta, porque não adianta nada me respeitar aqui e desrespeitar as pessoas em outros ambientes. Além disso, trabalhamos muito o aspecto social, porque temos crianças que não têm estrutura, sendo assim temos que focar mais ainda nessa parte da vida”, afirmou o professor.
Entretanto, apesar desse grande comprometimento, o sensei enxerga a falta de valorização na profissão, muitas vezes não sendo considerado um docente. “Ser professor é dar o exemplo, é algo que pode mudar vidas. Mas é desvalorizado tanto pela sociedade quanto pelo governo”, relatou.
Em paralelo, o professor de artes cênicas da Escola Nacional de Teatro, de Santo André, Vinícius Ribeiro, 32, também observa que a profissão não é reconhecida como deveria ser. “Enfrentamos desde a desvalorização salarial, governamental, até das próprias famílias. Isso gera um adoecimento muito grave dos profissionais. A cada ano temos o aumento de doenças relacionadas às questões de saúde mental em professores”, comentou.
“Erra quem pensa que o professor só trabalha durante a aula. Antes de chegar ao local, temos uma jornada de preparação, que vai desde organização até o planejamento de atividades. Os problemas são parecidos no teatro e na alfabetização, mas, às vezes, no ensino formal temos um sindicato que é uma instância do governo mais forte”, concluiu Ribeiro.
Um elemento fundamental no dia a dia do ser humano é a música. E para adquirir as habilidades de um instrumento é preciso treino e dedicação. Diante disso, o papel do professor é essencial na formação de futuros artistas.
O professor de violoncelo do Guri, programa de ensino musical do governo do Estado, no polo de Rio Grande da Serra, Valdir Maia, 43, percorreu essa trajetória. Aos 15 anos iniciou no projeto onde ficou como estudante até os 18. Em 2001, começou sua carreira como docente.
“A oportunidade surgiu para atuar como monitor para alunos que estavam se destacando. No início, meu pai foi contra trabalhar com música, porque não conseguia me sustentar. Mas o projeto foi um ambiente acolhedor”, comentou Maia.
Atualmente, o programa possui 1.000 docentes distribuídos por todo o território estadual. Para o violoncelista, o momento da educação brasileira é crítico. “Os ambientes de ensino são vistos como depósito de crianças. Muitos pais pensam que educar é responsabilidade total do professor, mas não existe uma contrapartida da família. Não existe pacto entre a família e o educador. A valorização do professor tem de partir de todos, não só na forma monetária, mas também nas condições de trabalho”, concluiu o músico.
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Essa é a primeira de três reportagens da série Professor, Presente!, que destaca a valorização dos docentes na região em homenagem ao Dia dos Professores, comemorado na próxima quarta-feira (15). A segunda matéria será publicada na edição de amanhã.
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