Entrevista da Semana
FOTO: André Henriques/DGABC

À frente do COI (Centro de Operações Integradas) de Santo André desde janeiro de 2025, o superintendente Carlos Secco tem buscado imprimir ao equipamento um viés mais investigativo, aproximando a tecnologia do dia a dia policial. Com passagem pela gestão municipal na área de segurança e décadas de experiência na Polícia Civil, ele defende a integração entre forças e a participação da sociedade como caminhos para reduzir a criminalidade e a sensação de insegurança, além de apostar na ampliação do sistema de câmeras e estratégias para “fechar a cidade” contra a ação de criminosos.
RAIO X
Nome: Carlos Alberto Secco
Aniversário: 23 de fevereiro
Onde nasceu: São Bernardo
Onde mora: Santo André
Formação: Mestrando em Ciências Jurídicas
Um lugar: Praia
Time do coração: Corinthians
Alguém que admira: A mulher, Queila
Um livro: O que é Justiça?, de Hans Kelsen
Uma música: Eye of The Tiger, do Survivor
Um filme: Máquina Mortífera (1987), do diretor Richard Donner
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O que motivou o Sr. a se tornar policial civil?
Essa ideia começou por volta dos meus 4 ou 5 anos de idade. Desde criança eu tinha vontade de ser policial. Todos os meus brinquedos eram de polícia. Costumo dizer que eu tinha sempre o mesmo pesadelo: eu morava em uma casa com corredor lateral, o criminoso passava por lá, o barulho ecoava, meu pai ia verificar e levava um tiro. Esse sonho se repetia constantemente. Então, cresci com essa ideia fixa de ser policial, de prender ladrão. Quando chegou a hora certa, prestei concurso e entrei. Antes de ser superintendente, fui convidado pelo Paulo Serra (PSDB), quando ele foi eleito prefeito de Santo André, a integrar o governo na área de segurança. Trabalhei oito anos nesse setor, cuidando da parte institucional e dando apoio à secretaria. Com a transição para a gestão do prefeito Gilvan Ferreira (PSDB), surgiu a oportunidade de comandar o COI, onde estou desde janeiro deste ano.
O COI trabalha em parceria com a PM (Polícia Militar), GCM (Guarda Civil Municipal), Defesa Civil, Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e outras forças. Na prática, como funciona essa integração?
O COI existe desde 2019, quando o prefeito Paulo Serra transformou o centro em um espaço de integração de serviços. O objetivo é unir agências públicas – Polícia Civil, PM, GCM, Samu, entre outras – para otimizar custos, melhorar a troca de informações e garantir uma resposta mais rápida em situações de segurança, mobilidade e saúde. Com a minha trajetória policial, trouxe um viés mais investigativo para o trabalho do COI. Aqui reunimos informações que ajudam tanto a parte ostensiva (Polícia Militar e GCM) quanto a investigativa (Polícia Civil). Esse equipamento fornece elementos de prova importantes para inquéritos, como registros de veículos, imagens de câmeras e cruzamento de dados. Prender criminosos não é simples. Fora do flagrante, é preciso cumprir uma série de regras para que a prova seja válida. O COI ajuda a reunir e encaminhar essas informações às autoridades competentes.
O Sr. costuma usar bastante as redes sociais para divulgar o trabalho do COI e ações ligadas à segurança pública em Santo André. Qual é a importância dessa comunicação direta com a população e como o senhor avalia o impacto dessa transparência no dia a dia do seu trabalho?
A minha metodologia sempre foi mostrar o lado positivo da polícia. Hoje, o que mais aparece nas mídias são crimes: roubos, homicídios, golpes. A ideia é fazer um contraponto, mostrando que, apesar de falhas humanas, os policiais estão trabalhando. Muitas vezes há um preconceito contra as forças de segurança. Um erro cometido por um agente ganha muito mais repercussão do que os inúmeros acertos que ocorrem diariamente. Ainda assim, muitas vezes somos julgados apenas por um erro, sem que se reconheça o esforço de proteger a sociedade. O objetivo do meu perfil no Instagram é mostrar esse trabalho, para que a população enxergue também o copo meio cheio. Eu não sou repórter, mas é mostrar os resultados das ocorrências com emoção, com alegria, com felicidade, apresentar o resultado que deu um grande trabalho para ser realizado.O bem precisa ser divulgado na mesma proporção que o mal. Quando mostramos as prisões, as pessoas podem reconhecer criminosos que cometeram outros delitos, o que ajuda a investigação.
A sensação de insegurança pode ser maior do que os próprios números da criminalidade. Como trabalhar para reduzir essa percepção negativa da população?
A sociedade vai propagando somente as notícias ruins, como roubos e furtos, e isso vai gerando a sensação de insegurança. As pessoas, as vítimas da sociedade, não divulgam as prisões e as apreensões. Não falam do bem, só falam do mal. ‘Você viu? Roubaram aqui. Você viu? Não tem polícia aqui. Você viu? Mataram o fulano.’ É só o mal. Recentemente, tivemos uma série de operações aqui na cidade. Todos esses crimes que eu elenquei tiveram prisões. Inclusive, outros Estados vieram até aqui e fizeram operações conjuntas. Só vai haver sensação de segurança se existir uma união entre sociedade e instituição.<EM>
Como é que a sociedade pode ajudar o COI?
Primeiro, divulgando as ações positivas, como prisões. Isso já é muito importante, porque mostra o poder do equipamento e da instituição. Segundo, passando informações – seja pelo Instagram, por telefone, pelo 153 ou pelo 190. E, em terceiro lugar, participando dessa novidade do programa Muralha Paulista, inserindo suas câmeras para ajudar no trabalho investigativo. Isso também reduz custos para o município. Se não há câmeras em todas as ruas, mas a população disponibiliza as suas, já facilita a operação.Se a polícia precisar rodar bairro por bairro para buscar imagens, uma viatura inteira fica empenhada nisso. Mas se já tiver acesso pelo sistema, resolve em poucos cliques. Por isso, a população precisa se preocupar com segurança não apenas esperando uma ação do poder público, mas também colaborando.
Hoje, quantas câmeras estão a disposição do COI?
Hoje o COI conta com cerca de 800 câmeras voltadas diretamente à segurança pública. Com leitura de placas, e em breve teremos o reconhecimento facial em funcionamento, que está na fase final de ajustes. O sistema também apoia investigações em casos de desaparecidos ou sequestros, rastreando rotas e oferecendo pistas iniciais que podem ser decisivas. Para se ter uma ideia, quase 100% dos criminosos que atuam em Santo André vêm da Zona Leste da Capital, especialmente na prática de furtos de rodas de veículos, onde vimos alguns casos meses atrás. As investigações mostraram que a receptação não ocorria no município, mas em São Paulo, o que levou à prisão de envolvidos.
O COI já chegou a ajudar outros municípios, na questão de divisas, perseguições que atravessam municípios, por exemplo?
Diversas vezes. Isso é uma prática comum, sobretudo entre Santo André e São Caetano, que são os dois equipamentos mais adiantados. São Bernardo ainda não tem; Diadema está começando; Mauá tem, mas ainda não no mesmo ritmo que a gente. Somos integrados: Mauá, Santo André e São Caetano. Então, se tudo que eu falei for cadastrado em Mauá, a gente fica sabendo também. O carro roubado ou furtado com envolvimento em atividade criminosa é uma questão institucional a ser pensada. Não podemos cada um fazer o seu e não conversar entre si. A sistemática precisa ser integrada, como no programa Muralha Paulista: cada cidade cuida do seu território, mas compartilhamos informações, não importa de qual município elas venham. É uma atividade intensa, interpolicial e intermunicipal.
O Sr. pontuou que trouxe o lado investigativo para o COI. Acredita que alguém sem experiência policial poderia exercer essa função?
Poderia até desempenhar, mas não nos detalhes mais investigativos, porque não teria competência e seria até arriscado. Eu estou armado, tenho preparo e treinamento para isso. Por exemplo, no caso em que fui para o bairro onde ocorreu um crime, às 23h , estava rodando sozinho, é perigoso. Qualquer um pode ser superintendente do COI no sentido de fazer o equipamento funcionar, mas essas questões mais intrínsecas da atividade policial, não. Nesse ponto, começa a oferecer risco até para a própria pessoa, não combina. Essa expertise de ser policial faz diferença. Muitas vezes a visão de rua que eu trago para dentro do COI ajuda a fortalecer a investigação, a troca de informações. Eu carrego a experiência de grupos operacionais, onde cada um cuida de um setor – se eu olho para a esquerda, sei que meu parceiro olha para a direita, e outro protege a retaguarda. É uma parceria de confiança que tento aplicar aqui. Isso ainda é culturalmente difícil, mas é o que traz vida ao trabalho. A lógica policial, de investigação, de coleta de provas e elementos de criminologia, está engatinhando aqui. Mas quando tudo isso estiver bem estruturado, com mais recursos, o resultado será ainda melhor.
Qual é a sua principal meta à frente do COI em 2025?
Quero, rapidamente, prender muitos criminosos com a implantação do reconhecimento facial – e estão chegando mais 900 câmeras; o objetivo é fechar a cidade. Obviamente não será tudo neste ano, mas a meta é cobrir cada bairro e todas as fronteiras de Santo André, deixando o município cercado por câmeras. Se o crime ocorrer internamente, e os criminosos tentarem se esconder sem cruzar fronteiras, vou conseguir localizá-los; se cruzarem a fronteira, também vou pegar. Esse é o objetivo: literalmente fechar a cidade. Com essa tecnologia e medidas operacionais, não haverá mais espaço para a criminosos. Vamos mostrar para a criminalidade que estamos trabalhando, e crimes visualizados pelas câmeras não passarão batidos.
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