Entrevista da Semana Em entrevista ao 'Diário', fala sobre o novo projeto e como pretende apresentar o disco no festival, no próximo sábado (6)
FOTO: Divulgação

O cantor e compositor MC Hariel chega a uma nova fase da carreira com o lançamento do álbum Eh Noiz Ki Tá, que reúne 15 faixas de letras afiadas e colaborações importantes, reafirmando sua presença no funk paulista. Em entrevista que abre a semana de cobertura do Diário no The Town, ele fala sobre o novo projeto e como pretende apresentar o disco no festival, no próximo sábado.
Além disso, comenta sua relação com o Grande ABC, o show com Memphis Depay, a influência da herança musical de seu pai, a paternidade e a fé, além de refletir sobre a importância das parcerias e da união entre os artistas do gênero.
RAIO X
Nome: Hariel Denaro Ribeiro
Aniversário: 20 de dezembro
Onde nasceu: São Paulo
Onde mora: Mairiporã
Formação: Segundo grau completo
Um lugar: Porto de Galinhas (PE)
Time do coração: Corinthians
Alguém que admira: Mano Brown
Um livro: Hit Makers, de Derek Thompson
Uma música: Eh Noiz Ki Tá, de MC Hariel
Um filme: A Origem, de Christopher Nolan
Seu novo álbum Eh Noiz Ki Tá foi lançado há poucos dias. Como o Sr. descreveria esse disco e como planeja apresentar ele no festival?
O meu novo álbum Eh Noiz Ki Tá significa que nós estamos em diversos lugares ao mesmo tempo, fincando a bandeira do funk com muito orgulho em 15 faixas e colaborações de parceiros importantes. Esse projeto vem com minha proposta pessoal de voltar a fazer funk mais animado, leve e alegre, mas também de autoafirmação. Depois de projetos mais conceituais, como Funk Superação, Alma Imortal e Falando com as Favelas, eu retorno ao funk de rua, com batidas vibrantes, letras afiadas e uma energia que evoca a essência das comunidades. A galera que estiver no show do The Town pode esperar muito funk paulista. A história de um moleque que batalhou muitos anos para chegar até aqui. Para mim, é muito grandioso estar no evento e poder falar do meu movimento. Estarei com o meu parceiro Marks, cantando vários sucessos nossos e, claro, músicas desse meu novo projeto.
O Sr. já fez um show grandioso em São Bernardo, com Memphis Depay, que superou 70 mil pessoas no feriado de 1º de Maio, e também visitou Santo André com o jogador. Como é essa relação com o Grande ABC e com o jogador e como você avalia esse sucesso na região?
O Memphis é um cara multitalentoso, que trouxe para a música a seriedade e disciplina que já conhecemos dele no campo. Tem sido um prazer fazer esse trampo com ele e descobrimos muitas afinidades musicais, além de, claro, nosso amor pelo Corinthians. Nós nos conhecemos por meio de um amigo em comum, e fui convidado para vir para Santo André com ele, em uma escola de samba, se não me engano. Ele não pensa apenas no superficial das coisas, por isso quis vir conhecer as comunidades. Eu também estou em todas as áreas, e o Grande ABC sempre apoiou meu trabalho, desde o começo da minha carreira. É muito gratificante essa marca de 70 mil pessoas, em pleno Dia do Trabalhador.
Seu pai, Celso Ribeiro, tocava música latino-americana com a banda do grupo Raíces de América. Como essa herança cultural influenciou sua forma de ver o funk desde a Vila Aurora, onde nasceu e cresceu – e o Sr. já enxergou esse gênero como uma continuação dessa tradição?
A música sempre permeou todos meus caminhos. Por exemplo, era meu sonho ser jogador de futebol e já trabalhei por várias outras coisas, mas a música sempre estava na minha mente, paralelamente a esse desejo que eu também queria trilhar. Independentemente do sonho, a música estava junta. A música sempre esteve na minha casa, com meu pai e minha mãe, eu queria fazer, mas eu não me via também naquele ambiente, não me sentia pertencente àquilo. O funk era do portão para fora, quando eu ia para escola ou para rua, no nosso bairro, na Vila Aurora. Por exemplo, uma época que minha mãe trabalhava à tarde e deixava eu e meus irmãos na casa de uma mulher que cuidava de crianças. Lá tocava funk, e esse estilo me trouxe um sentimento de pertencimento. Quando eu comecei a encostar, cantar, fazer vídeo, aquela parada da sincronia mesmo, na palma da mão, aí eu comecei a me sentir pertencente ao movimento. Me senti parte de alguma coisa, e aí eu só misturei uma coisa que já estava dentro da minha casa com o meu outro sonho, com um ritmo que eu me apaixonei quando eu escutei.
O Sr. vê no funk, com MC Hariel e outros grandes nomes do gênero, uma continuação da identidade da música latino-americana?
Sim, o nosso funk é uma música latino-americana. É um formato de música latino-americana. Uma parada bem brasileira. O Brasil, acredito que, por conta da língua, por ser um País que fala português, acaba ficando um pouco destacado do resto da América Latina, porque todo mundo fala espanhol. Cada dia mais vê que essa distância continental, que não deveria existir por sermos vizinhos, vem cada vez mais se quebrando. O funk vai abrangendo cada vez mais: Argentina, Colômbia, Paraguai, todos esses lugares perto de nós. Uruguai mesmo, que a gente vai fazer show muitas vezes. Então vemos que vai quebrando um pouco isso com o tempo, mas ainda existe, sim, uma divisão. Mas o funk é música, e cada vez mais vamos tentando unificar isso.
O Sr. é pai da Maitê e do Jorge – e chegou a lançar Salve Jorge em homenagem a eles. Como a paternidade mudou sua vida e qual mensagem pode deixar sobre esse sentimento?
É um sentimento que não tem explicação e quando falo isso soa até clichê, mas é uma coisa que muda totalmente a percepção da vida do ser humano. É difícil falar sobre isso, mas eu acredito muito na coisa do sentido da vida, e acho que o sentido da minha era ser pai, ter meu filho e minha filha, e conseguir ter minha continuidade através de pessoas, não só coisas, como músicas – que são boas também, mas acho que meus filhos são a melhor forma de me eternizar no mundo, e assim continuar o ciclo maravilhoso que é o da vida. Fico feliz demais de acordar todo dia, mesmo quebrado, mas com eles dois ali, meio desconfortável, todo mundo apertado na mesma cama... Porque é um momento que é muito importante. Eu perdi meu pai cedo, ainda adolescente, e senti um vazio e uma saudade muito grande, e isso me ajudou bastante: o nascimento do Jorge e da Maitê. Hoje eu me sinto bem mais ciente do que eu preciso fazer, são como um norte na minha vida.
Quem deu o nome Jorge para seu filho? Qual o significado da religiosidade, especificamente de São Jorge, na sua vida e na sua arte?
Fui eu que dei esse nome, sim. Eu sou um cara devoto de São Jorge, acredito em várias caminhadas. Acredito em muita coisa, sou cético para algumas, meio desacreditado por outras, mas também místico para várias. Tenho minhas formas de ver o mundo. E na religião, gosto de pegar o que é de bom de cada uma. Já dei uma passada pelo espiritismo, a da minha mãe, que ela mostrou para mim. Também já fui pela umbanda, e outras diversas religiões. Quando eu preciso de alguma proteção maior, também tenho uma tia que me dá uma força – ela é do candomblé, olha por mim. Tem também outra tia, mãe de um amigo meu, que é da igreja evangélica, quando ela sente alguma coisa lá, ora por mim também. Então sou um cara bem protegido por todos os lados mesmo. Gosto de brincar que eu tenho Deus, uma legião de anjos da guarda e um monte de padroeiro. O ‘bagulho’ é muito louco, sou protegido.
O Sr. lançou a faixa A Dança ao lado de Gilberto Gil. Como foi essa experiência de transitar entre gerações, estilos e abranger tanta carga simbólica no funk?
É um lance geracional que é muito marcante para mim, mais do que qualquer sucesso, mais do que qualquer ritmo, mais do que qualquer viralização. É uma questão que corresponde à nossa alma, um orgulho de onde a gente chegou. Cantar com um artista desse tamanho, me apresentando com ele no meu show, já tinha sido muito importante lá no Funk Superação, na gravação do DVD, em 2024, mas depois fui convidado para o show dele, e foi tipo a cereja do bolo, poder ver muita molecada nova falando que conheceu o trabalho do Gil através do meu. E no dia que pude me apresentar lá no Allianz Parque, no show do Gil em abril deste ano, muita rapaziada mais velha veio falar que conhecia o meu trabalho através dele. Foi muito importante para mim mesmo, de me sentir feliz, recompensado e honrado. Foram dias que chorei e agradeci demais a oportunidade de viver isso. É por isso que trabalhamos e por dias assim que estamos vivos, e não por questão financeira e superficial.
Seus discos têm muitos feats. Como o Sr. vê a importância de fortalecer essa rede de apoio entre os artistas do funk?
Acredito que o funk é uma rede de apoio. Sempre foi. Gosto de colaborar bastante com artistas que eu acredito que tenham sentido. Quando eles são meus amigos, a caminhada vai fluindo de maneira natural. Estamos um dia em um estúdio, um dia numa festa que tem um estúdio, e acaba que todo mundo faz uma música. É natural. Por eu ser fã de todos que estão presentes ali nos feats, acaba que flui de maneira natural, de forma leve, e a gente conecta tudo isso. O nosso sonho é muito colaborativo. Sempre que estamos juntos, acaba em música, não tem aquele ditado lá de Brasília que tudo “acaba em pizza”. No caso da nossa rapaziada, tudo acaba em funk, rima e música.
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