Sucesso Tarciso Raymundo dedicou 71 dos 85 anos a pinceladas que eternizam vidas em jazigos
FOTO: André Henriques/DGABC

De Taubaté, o artista aposentado Tarciso Raymundo dos Santos, 85 anos, relembra a importância de uma arte muitas vezes esquecida, mas que transpassa a morte: a pintura de azulejos em cemitérios. Morador de Santo André, o azulejista compartilha as memórias de 71 anos na profissão que sustentou os filhos no Grande ABC e exportou sua arte para a Capital e o Exterior.
O artista procurou o Diário como uma forma de chamar atenção para as peças que duram mais de 100 anos. “Todo dia alguém passa pelo cemitério e penso que aquelas imagens que pintei trazem um acalento ao coração. Mas a verdade é que falar do tema para o jornal sempre foi um sonho, porque não queria também morrer sem que conhecessem minha arte”, afirmou o pintor de azulejos que, já aos 14 anos, aprendeu o ofício para ajudar a pagar as despesas da casa de sua família no Interior de São Paulo.
O trabalho manual que envolvia o esboço de desenhos com lápis B12 nos azulejos, contorno e pintura com tinta, normalmente levava muitas vezes um dia inteiro pela riqueza de detalhes. O empenho era recompensado por um pagamento médio de R$ 150 por peça, mas o desafio e a remuneração poderiam aumentar, como foi com o seu quadro mais complexo: uma réplica de A Última Ceia, de Leonardo da Vinci. “Levei um mês para finalizar o processo, já tinha me mudado para Santo André com minha esposa e quatro filhos após comprarmos um terreno em promoção. Foi a arte que me provou que ser azulejista é, sim, um trabalho de paciência, mas, sobretudo, é um dom”, comentou.
Segundo ele, em 71 anos, já perdeu a conta de quantos azulejos já produziu. As memórias, entretanto, ficam por cemitérios no Grande ABC, São Paulo, Franco da Rocha, Santos e, ao que acredita, até nos Estados Unidos. “Quando nos mudamos para cá, passei a terceirizar para uma empresa grande da região minhas pinturas. Recebemos uma encomenda internacional. Isso porque sempre construí minhas peças para durar uma vida, para acompanhar um descanso eterno. É algo bonito, que acredito, sim, trazer felicidade e devoção a todos”, observa o aposentado, que destaca o sucesso de pedidos principalmente para imagens de Nossa Senhora de Fátima, Jesus Cristo e Nossa Senhora Aparecida.
De acordo com Raymundo, um forno de 900 graus fixava os traços nos quadrados. “Se quebrasse lá dentro ou antes, não tinha outro jeito que não refazer tudo a tempo do prazo. Uma vez caíram na minha produção dez azulejos, então sempre foi e será um manejo de resiliência”, complementa.
Para ele, além de lidar com a delicadeza do processo, os azulejos são naturalmente um artefato de emoção e devem ser preservados. “Tentei ensinar a pintura para muitos amigos e até depois para meus filhos e, na falta de paciência de todos, percebi que pode ser uma arte de sentimento e que aos poucos morra. Mas faz parte da nossa humanidade, preserva nossa memória. Quando falo de emoção, falo da precisão e do coração que se precisa para retratar tudo que o olhar de um santo nas imagens tinha de carregar, por exemplo. Acredito na importância de valorizar os jovens talentos da área”, finaliza.
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