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A infância não é clique

Gregório José Lourenço Simão
13/08/2025 | 09:09
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Vejam só que descoberta surpreendente: quando você coloca uma criança de 8 anos, maquiada como uma adulta, dançando coreografias sensuais diante de uma câmera e posta isso nas redes… adivinhem? Algoritmos entregam o conteúdo para milhões, inclusive para gente que não deveria nem estar perto de uma escola. Quem poderia imaginar, não é?

A “dança da vergonha alheia remunerada” é uma receita simples: você pega uma criança, pinta como se fosse para estrear no Cassino da Urca em 1942, bota para dançar umas coreografias que deixariam Carmem Miranda corada, grava, posta na internet e… tcham! – likes, views e, com sorte, um patrocinador que acha tudo “muito fofo”.

Quem estragou a festa foi o humorista Felca. O moço, em vez de continuar falando bobagem engraçada, resolveu fazer bobagem séria – e descobriu que o que parecia só vídeo inocente é, na verdade, um banquete para tarados digitais. E não foi denúncia tímida, não: o rapaz ligou o holofote e mostrou o circo. E no picadeiro, meus amigos, estava todo mundo – pais, produtores, plataformas e, claro, aquela plateia do mal.

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A reação foi imediata: deputados acordaram de um sono profundo, correram para criar leis, o Senado quer CPI, artistas fizeram post indignado, o Instagram suspendeu umas contas para mostrar serviço. O Brasil entrou em estado de “agora vai”. Já vimos esse filme – e, spoiler: nunca vai.

Agora, claro, políticos se apressam. Propostas de lei brotam como mato em terreno baldio. CPI no Senado. Nota de repúdio no Instagram. Influenciadores e artistas se manifestando nas redes. Tudo muito bonito, muito indignado, muito “temos que proteger nossas crianças” – até a próxima pauta render mais clique.

Enquanto isso, a fábrica de exploração segue a pleno vapor. Cada dia de “debate” é mais um dia de material sendo salvo, compartilhado e vendido. E não existe botão mágico que apague o trauma de uma criança cuja imagem foi transformada em produto para predadores. 

Enquanto isso, as crianças continuam lá, expostas, com suas imagens viajando pelos porões da internet. Porque entre um “vamos proteger a infância” e um “vamos faturar com isso”, a escolha nacional é sempre pela segunda opção.

Felca, nesse enredo, foi o único que não fez cara de paisagem. Botou a boca no trombone e expôs a coreografia obscena desse espetáculo triste. Só falta agora o ato final: transformar indignação em ação. Porque, no fim das contas, a infância não é conteúdo… mas, pelo visto, é o melhor produto que o mercado encontrou desde a invenção do baião de dois. O problema é que, no Brasil, existe uma regra de ouro: se dá dinheiro, o problema deixa de ser urgente. Plataformas faturam, produtores faturam, e a responsabilidade… ah, essa a gente deixa para um “grupo de trabalho” discutir.

Felca fez o que muitos não fizeram: botou o dedo na ferida e mostrou que o pus é mais profundo do que se pensava. Mas se a reação do poder for só discurso e emoji de tristeza no Twitter, podem escrever: daqui a alguns meses, estaremos discutindo outro escândalo igualzinho a este – e fingindo surpresa. Porque, afinal, a infância não é clique. Mas que dá muito like… ah, isso dá.

Gregório José Lourenço Simão é jornalista, radialista e filósofo.

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