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Grande ABC tem maior letalidade policial em 5 anos

De janeiro a maio, foram contabilizados 25 óbitos, número é 127% superior a 2024; PMs são responsáveis por todos os casos

30/07/2025 | 08:12
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FOTO: André Henriques | DGABC (Imagem Ilustrativa)
FOTO: André Henriques | DGABC (Imagem Ilustrativa) Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


O Grande ABC registrou em 2025 o maior número de casos de letalidade policial dos últimos cinco anos. Considerando o período de janeiro a maio, foram 25 mortes de civis praticadas pela PM (Polícia Militar) – o último registro mais elevado tinha sido em 2020, com 38 óbitos. Do total de casos, 96% ocorreram em vias públicas e 64% das ocorrências foram praticadas por policiais em horário de serviço.

LEIA MAIS: Em seis dias, três pessoas são mortas pela PM na região

Na comparação anual, os registros cresceram 127%. No mesmo período do ano passado, foram contabilizadas 11 mortes nos cinco primeiros meses do ano. Com sete ocorrências cada, Santo André, São Bernardo e Mauá têm mais notificações em 2025. (Veja dados por ano na tabela abaixo)

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Somente na última semana, a região registrou em apenas seis dias três mortes em decorrência de intervenção policial, sendo dois casos no município são-bernardense e outro em Mauá. Um mecânico de 38 anos morto com um tiro na nuca após discutir com um agente no trânsito. Esses três óbitos ainda não foram contabilizados nas estatísticas da SSP. 

O advogado criminalista e professor de direito, Guilherme Gama, diz que o discurso e a atual política de segurança pública do Estado contribuem para o aumento de casos na região. Segundo ele, o confronto está sendo priorizado ao invés do uso de inteligência e da prevenção. 

“Verifica-se no discurso do secretário (Guilherme Derrite) uma retórica que legitima a violência das tropas. Há também diversos outros fatores, como a cultura institucional da PM (Polícia Militar) e o seu próprio caráter militar, cujas patentes incitam a sensação das tropas de viverem uma guerra, às vezes fomentada e retroalimentada pela própria instituição. Podemos citar ainda a falta de investigação adequada das mortes decorrentes de intervenção policial, entre outros pontos”, explica Gama, que atuou como policial civil por oito anos em São Paulo.

O docente afirma ainda que, mesmo que seja registrada alta na criminalidade, não é possível atrelar ela à escalada da letalidade. “O Estado não pode ser mais violento que o crime. Não se viola a lei a pretexto de cumpri-la, pois isso é um contrassenso insuperável e contrário ao Estado Democrático de Direito.”

Já o advogado penal e constitucional, Ilmar Muniz, acredita que a alta na letalidade policial no Grande ABC pode estar relacionada com a “complexidade das operações em áreas de maior vulnerabilidade e o enfrentamento de situações de risco elevado”. 

Sobre o crescimento da violência policial, a SSP afirma que investe na recomposição e capacitação do efetivo, na atualização de protocolos operacionais e na aquisição de equipamentos de menor potencial ofensivo visando à redução da letalidade. A Pasta trabalha para análise das ocorrências com objetivo de ajustar procedimentos, revisar treinamentos e aprimorar as estruturas investigativas.

“Os casos de mortes decorrentes de intervenção policial reduziram 3,8% nos cinco primeiros meses deste ano ante igual período de 2024. Mais de 1.000 policiais civis e militares foram presos, demitidos ou expulsos, na atual gestão”.

Homens pretos e pardos são as principais vítimas da violência

Homens negros são as principais vítimas da violência policial no Grande ABC. Dos 25 óbitos no ano, 72% (18) foram contra pessoas do sexo masculino e 60% (15) dos indivíduos eram pretos ou pardos, segundo dados da SSP (Secretaria da Segurança Pública). 

O ex-policial civil e professor de direito, Guilherme Gama, explica que o perfil das vítimas revela a conexão direta da violência policial com questões estruturais, como desigualdade social e racismo. 

“As estatísticas consistentemente mostram que as vítimas da letalidade policial são, em sua esmagadora maioria, jovens negros. Isso não é coincidência. É o reflexo de um racismo estrutural que constrói o estereótipo das pessoas nesse perfil como ‘elemento suspeito’. Essa suspeição prévia torna o gatilho mais fácil, pois a vida dessa pessoa é socialmente desvalorizada”, diz Gama.

O advogado ressalta ainda que as operações policiais mais letais se concentram nos territórios mais pobres. “Onde faltam oportunidades, o Estado muitas vezes se faz presente apenas através do seu braço armado. A polícia, nesse contexto, passa a gerir a miséria através da força, em vez de o Estado atuar nas causas da desigualdade”, finaliza o especialista.




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