Furtos Prefeituras registraram apenas 10 casos no primeiro semestre, mas a degradação de jazigos mostra ataques e subtração de materiais nobres como cobre
FOTO: André Henriques/DGABC 15/4/25

A preservação da memória nos 17 cemitérios municipais do Grande ABC segue em risco devido a registros de furtos – a coluna Memória divulga frequentemente os episódios e seus impactos nas famílias. Neste primeiro semestre, a região registrou, oficialmente, dez casos, segundo dados de seis prefeituras, com exceção de Rio Grande da Serra, que não informou. O baixo registro de ocorrências não indica que a prática criminosa diminuiu, mas que o delito é subnotificado, conforme afirma advogado.
A equipe do Diário visitou dois locais nesta semana, sendo o cemitério das Lágrimas, em São Caetano, e o da Vila Euclides, em São Bernardo. Foram encontrados diversos vestígios de ações criminosas, como jazigos sem portões, marcas de oxidação de onde estavam instaladas placas de identificação, base de vasos arrancados, entre outros. No Cemitério da Vila Euclides, construído no século XIX e o mais antigo em atividade no Grande ABC, a Prefeitura instalou no muro concertinas (espirais feitos de arame).
Para tentar driblar as ações criminosas e manter os objetos nos túmulos, as peças de materiais metálicos são pintadas de diferentes cores, como preto, para disfarçar a origem. Alternativa adotada por familiares é a substituição de itens sem valor agregado, como plástico e acrílico, por exemplo. Esse foi o caso da dona de casa Silvia Alves de Oliveira, 55 anos, moradora do Riacho Grande, em São Bernardo.
Com outros familiares, Silvia mantém um jazigo no Cemitério da Pauliceia, no município são-bernardense, onde estão enterrados diversos parentes, como sua mãe, seu pai e cinco irmãos. Em dezembro do ano passado, oito placas de bronze de identificação foram furtadas e a ação criminosa deixou prejuízo em torno de R$ 3 mil para a família.
“Apesar da indignação, não registrei BO, porque com certeza não daria em nada. Depois desse episódio substitui por placas de azulejo, que não tem nenhum valor comercial. A placa de bronze com o nome do meu pai estava há 30 anos no cemitério, me senti muito impotente diante da situação. Se até no cemitério estão roubando, imagina o resto”, lamentou a dona de casa.
O advogado penal Ilmar Muniz disse que os cemitérios são alvos frequentes de furtos e roubos principalmente por três fatores, a vulnerabilidade estrutural (com pouca vigilância e iluminação precária), a baixa circulação de pessoas durante grande parte do dia e a presença de objetos com alto valor comercial, especialmente metais como bronze, cobre e alumínio.
“Os itens mais visados em ações dessa natureza são lápides, fios elétricos, torneiras, portões de jazigos, placas de identificação, imagens religiosas, enfeites e vasos. A subtração dessas peças ocorre principalmente devido ao alto valor agregado dos materiais metálicos, como bronze, cobre e alumínio, e também pelo fácil transporte e ocultação”, explicou Muniz.
Ainda de acordo com o advogado, esses itens são derretidos e vendidos como sucata ou revendidos ilegalmente. Há um comércio clandestino estabelecido, com receptadores que sabem exatamente o valor e o destino desses materiais. “Geralmente há um perfil dos indivíduos que cometem esses delitos, eles possuem histórico de pequenos furtos patrimoniais, muitas vezes em situação de vulnerabilidade social, usuários de substâncias entorpecentes ou atuantes em redes informais de coleta e revenda de metais. Em alguns casos, o crime é praticado por quadrilhas especializadas”, pontuou.
REGISTROS
Na comparação anual, de 2023 com 2024, as notificações de roubos e furtos passaram de 20 para 19, respectivamente. As prefeituras alegam que não há subnotificação nos casos em que as guardas são acionadas. “O que pode ocorrer é que, em determinadas ocorrências, a administração local ou algum colaborador dos cemitérios possam acionar a PM e não a GCM”, destacou a Prefeitura de São Bernardo.
A Polícia Civil da região registrou 12 BOs (Boletins de Ocorrência) em 2023, um em 2024 e nenhum neste ano. O advogado penal, Ilmar Muniz, ressaltou que em regra, casos de roubo e furto em cemitérios muitas vezes nem chegam a ser notificados às autoridades devido à baixa taxa de resolução desses crimes.
Sobre a segurança nos cemitérios, as sete prefeituras informaram que as GCMs realizam rondas ostensivas e que as fiscalizações são intensificadas nos locais quando algum caso é registrado e em dias de maior movimentação, como o Feriado de Finados. Os paços informaram que estudam novas medidas para evitar os furtos. Além disso, Santo André e São Bernardo destacaram que os cemitérios contam com câmeras de monitoramento e iluminação nas vias principais.
“O serviço funerário municipal também realiza um trabalho de orientação aos concessionários para que evitem utilizar materiais comerciáveis nos adornos da sepultura, como placas de porcelana, granito e vidros”, informou o Paço andreense.
Já a SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo), reforçou que a segurança nos locais não compete à Pasta, mas explicou que as polícias realizam operações na região visando ao combate do crime de receptação, que alimenta os furtos dessa natureza. “A PM (Polícia Militar) intensifica o patrulhamento, especialmente em áreas com maior incidência de crimes, conhecidas como ‘hot spots’, contando também com o apoio de denúncias da população e realiza rondas em torno de cemitérios na região”, disse a SSP por nota.
A historiadora e membro da ABEC (Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais), Viviane Comunale, explica que a arte cemiterial era utilizada como forma de distinção social e de eternização do status dos indivíduos. A história dos cemitérios brasileiros está profundamente ligada às transformações religiosas e sociais que ocorreram a partir do século XIX. Antes da criação desses espaços, como conhecemos hoje, os mortos eram enterrados nas igrejas, privilégio reservado àqueles que tinham recursos financeiros.
Os mais pobres, por sua vez, eram sepultados ao redor dos templos. Com a promulgação de uma lei régia, por volta de meados do século XIX, a prática foi proibida, obrigando as igrejas e irmandades a construírem cemitérios fora das áreas urbanas, os chamados cemitérios “extra muros”. A religiosidade, no entanto, permaneceu presente e passaram a compor os túmulos com imagens de Jesus, Maria e anjos, além de capelas e outras referências cristãs.
“Com o passar dos anos, especialmente no final do século XIX e início do XX, os cemitérios também se tornaram palco para manifestações de status social. As famílias mais ricas passaram a investir em monumentos de bronze, mármore e granito para marcar seus túmulos, utilizando a arte tumular como reflexo de sua posição econômica. Após a Segunda Guerra Mundial, no entanto, os altos custos desses materiais reduziram seu uso”, explicou a historiadora.
De acordo com Viviane, a solução encontrada por muitas famílias foi investir em placas menores de bronze com nomes, datas e epitáfios, uma forma simbólica de manter o prestígio mesmo diante das limitações econômicas. “Toda obra cemiterial tem o seu valor, quando uma peça é furtada, o patrimônio funerário sofre com a perda dessa memória que não volta. Não é só uma violação aos túmulos, mas uma violação à memória local”, finalizou a especialista.
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