Síndrome de abstinência Após quatro meses da proibição, estudantes expressam desconfortos pela ausência do aparelho, ansiedade e dificuldade de fazer as atividades
FOTO: Celso Luiz/DGABC

Estudantes da região relatam que, nesses quatro meses sem poder utilizar celular nas escolas, têm enfrentado dificuldades para estudar e ansiedade nos horários de intervalo. O professor da Fundação Santo André, Ednilton Santa-Rosa, doutor em Psicologia, destaca que a suspensão repentina do celular, mesmo que somente no ambiente escolar, pode causar sintomas parecidos com uma síndrome de abstinência comportamental nos jovens.
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“O uso da internet pode ser considerado um comportamento compulsivo ou problemático quando a criança ou adolescente tem dificuldade para parar ou está tendo prejuízos, deixando de fazer outras atividades ou de ter interação com amigos e familiares. Eles podem utilizar a internet como fuga das emoções”, explica. Para o especialista, esses comportamentos, entre outros, como a prática de mentir para utilizar as telas escondido, são sinais de alerta para os pais buscarem tratamento para a criança ou adolescente. O Diário conversou com os alunos da segunda série do ensino médio da Escola Estadual Idalina Macedo Costa Sodré, em São Caetano, que alegaram que a restrição não tem trazido os benefícios prometidos, como aumentar a concentração e a socialização. O sulsancaetanense Guilherme Queiroz, 16 anos, é autista e reclama da restrição até para fins pedagógicos. “Tenho muita dificuldade para escrever manuscrito, eu sempre anotei o conteúdo das aulas digitando no meu celular. A tecnologia me ajuda muito, mas agora não posso usá-la. Não é tirando totalmente nossa liberdade que vai funcionar. Precisa ter flexibilidade”, avalia. Livia de Souza, 16, que também mora em São Caetano, concorda e reclama da restrição até para fins pedagógicos. “Temos uma plataforma onde acessamos o conteúdo, mas o computador da escola não carrega. Aí, às vezes, não conseguimos fazer a atividade, que antes acessávamos pelo celular. E antes eu também gostava de fazer os exercícios ouvindo música, me concentrava melhor”, compartilha. LEIA MAIS: Aprendizado melhorou no 1º mês de proibição de celular em escolas, diz secretário da Educação
A aluna conta que um artifício que estavam utilizando para driblar a ansiedade na hora dos intervalos era colorir livros de pintar ou modelar com massinhas, mas a escola proibiu os alunos de levarem esses materiais. A Secretaria Estadual de Educação justifica que levar materiais recreativos é proibido para equalizar, já que nem todos os alunos possuem as mesmas condições financeiras. A pasta explica que são abertas exceções para alunos que apresentarem laudos que comprovem uma deficiência e necessidade da tecnologia para a aprendizagem. Na visão dos alunos, a ausência dos aparelhos não os fez interagir mais, já que a tecnologia era incorporada nesse contato. Moradores de Santo André, os estudantes Vinícius Souza de Moraes e Gabriel Uliana, ambos com 16, costumavam jogar juntos pelo celular no intervalo. “No meio das aulas eu entendo a proibição do celular, mas no intervalo não. Outra coisa que dificulta é pagar o lanche na cantina. Eu não tenho cartão de crédito, somente a conta no celular”, conta Vinícius. Maxuell Neves de Sousa, 16, de Santo André, e Cauê Vieira, 15, morador da Zona Leste da Capital, já trabalham e reclamam da falta de comunicação. “Às vezes precisamos responder a uma mensagem com urgência. A maioria acaba tendo que usar escondido”, diz Maxuell. Apesar das queixas dos alunos, as prefeituras dos sete municípios, assim como a Secretaria Estadual de Educação, afirmam não ter recebido, nesses quatro meses após o início das as aulas, ocorrências graves relacionadas ao descumprimento das leis Estadual nº 18.058/2024 e Federal nº 15.100/2025, que restringem o uso de celular nas escolas.SEM BENEFÍCIOS
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