Problema para moradores Desde 1989 Maria Angela Zaccarelli Marino pesquisa a prevalência de doenças autoimunes em moradores da região do Polo Petroquímico
FOTO: Denis Maciel/DGABC

Os efeitos dos poluentes emitidos pela Braskem, que integra o Polo Petroquímico localizado na divisa entre Santo André e Mauá, são tema de estudo desenvolvido pela pesquisadora e médica endocrinologista Maria Angela Zaccarelli Marino desde 1989. Reportagem publicada pelo Diário nesta quinta-feira (13) traz relatos de moradores vizinhos à empresa, que conta com quatro das 14 unidades localizadas no Polo, que convivem com poluição, mau cheiro e doenças.
A pesquisa da médica, que começou pela grande prevalência de doenças autoimunes, como a tireoidite crônica, nos moradores da região do Capuava, ganhou amplitude e será publicado em breve, em uma revista científica, novo estudo comprovando que os efeitos dos poluentes causam enfermidades em vários órgãos, dentre os quais pulmão, coração, vasos sanguíneos, hipófise, testículos e ovários.
“Há um trabalho desenvolvido na Inglaterra mostrando que os filhos de mulheres que moram em regiões poluídas têm morbidade e mortalidade. Mortalidade no primeiro ano de vida e morbidade, doenças que ficam para a vida inteira. Como não podemos usar crianças no estudo, utilizei ratos – criados em gaiolas localizadas na região do entorno do Polo – e constatei a ocorrência de morbidades”, disse a pesquisadora.
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Maria Angela destacou que é autora de vários estudos, entre os quais sobre a covid-19. Porém, desde sua primeira pesquisa tem levado suas descobertas a respeito de poluentes a vários países. Atualmente, a médica analisa a viabilidade de apresentar sua pesquisa em Roma.
“Meu marido brinca que se eu aceitasse todos os convites para palestrar em outros países iria morar no avião. Uma revista suíça importante está me convidando para falar. Por quê? Porque quando eu divulguei o estudo sobre tireoidite as crianças estavam doentes e não sabiam. O problema do hipotireoidismo na infância é que causa retardo mental irreversível e baixa estatura”, pontuou.
Segundo a pesquisadora, a tireoidite crônica é a maior causa no Brasil e no mundo do hipotireoidismo primário, que se não foi tratado pode levar ao coma e à morte. “Quando iniciei as pesquisas, comecei falando da glândula tireoide e que, por meio dos compostos que a petroquímica produz, as pessoas estavam ficando doentes ali na região”, disse a médica.
Com isso, apesar de todo interesse no exterior por seu trabalho, a pesquisadora afirmou que recebe críticas onde deu início a seus estudos, o Grande ABC. “Onde eu trabalhava à época não me deram apoio. Se eu contar a história, é algo inacreditável. Fui impedida de fazer a pesquisa. Quem me ajudou foi o Ministério Público, o doutor José Luiz Saikali e a USP (Universidade de São Paulo). Então, fomos muito criticados e impedidos de fazer essa pesquisa por motivos que eu não sei. Ou melhor, até sei, mas são complexos.”
Os problemas que enfrenta com seus trabalhos foi parar no Judiciário, onde a causa continua parada. “A última do juiz foi até pitoresca sob um ponto de vista, porque ele não respeita os pesquisadores, não respeita o ser humano e mandou voltar a pesquisa para a prancheta, ou seja, o estudo em campo”, afirmou.
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FAZENDO O BEM
Apesar das dificuldades enfrentadas, Maria Angela não desanima e busca ajudar a população do entorno da petroquímica, seja com atendimento sem custo em seu consultório, ou distribuindo folhetos informativos para os moradores como forma de se prevenir dos efeitos nocivos dos poluentes.
“Sabe o que importa? Que as pessoas estão sendo cuidadas. Então, eu cuido, eu atendo e oriento. Já fiz cartilhas e distribuímos para que as pessoas, os moradores do entorno, fiquem sabendo sobre as doenças, porque se for depender do poder público, se morre à mingua. O importante é acreditar na causa”, disse a médica.
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