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Racismo, a cegueira da alma

Silvia Grecco
11/03/2025 | 09:55
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FOTO: Tania Rego/ Agência Brasil
FOTO: Tania Rego/ Agência Brasil Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Eu tenho um filho cego e autista. Muitos o conhecem como um torcedor apaixonado pelo Palmeiras. Nickollas nasceu cego, e, para ele, as cores não têm o mesmo significado que para os outros. Ele não vê as diferenças entre as pessoas pela cor da pele, mas pelo caráter, pela essência de cada ser humano. Ele vê o mundo com o coração, e não com os olhos – algo que muitos de nós, que possuímos visão, ainda não conseguimos entender.

Na pandemia, o mundo foi abalado por um caso de racismo que ficou marcado na história: a morte de George Floyd. Naquele momento, meu filho me perguntou o que estava acontecendo, e eu me vi em um dilema. Como explicar algo que ele não consegue enxergar? Como falar sobre racismo para alguém que não vê cor, mas apenas a pessoa? Para ele, não há diferença entre as pessoas pela cor da pele. Foi ali, naquela conversa, que percebi o quanto o racismo é uma cegueira – uma cegueira da alma, um mal que se espalha e infecta os corações.

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O caso de George Floyd não foi um episódio isolado. Muitos outros episódios de racismo seguiram, especialmente no futebol, onde essa doença da humanidade parece persistir. O que me dói, como mãe, é ver o meu filho, um fã fervoroso do Palmeiras, se deparar com a dor do racismo mais uma vez. Recentemente, o caso envolveu o jogador Luighi, um ídolo para o Nickollas. E, mais uma vez, eu me vi tentando explicar para ele que existem pessoas que, ao olhar para o outro, não veem um ser humano, mas apenas a cor da pele. Como explicar isso para um jovem que só enxerga o que há de bom nas pessoas?

Me feriu ainda ver o comportamento de todos ao redor, especialmente na entrevista que o Luighi deu após o episódio. Um atleta em formação, que luta e se dedica ao seu time, ser dilacerado pela dor do racismo. Ele chorou, demonstrou indignação e, ao mesmo tempo, sentiu-se impotente. Naquele momento o repórter não teve a sensibilidade de abordar o que realmente importava: o sofrimento do jogador, a

violência do que acaba de acontecer. Tudo seguiu vazio, sem importância. Isso é insuportável!

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E a punição? Mais uma vez, foi branda. O racismo segue sendo minimizado, tratado como uma simples “falha de comportamento” ou um “deslize”, quando, na verdade, é um crime que fere a dignidade humana e corrói o tecido social. Não basta não ser racista. Precisamos ser antirracistas. Não podemos tolerar atitudes que, muitas vezes, são apenas disfarçadas por um “peço desculpas” sem consequências. O racismo é um problema que exige ações efetivas, coragem e comprometimento das autoridades e da sociedade como um todo.

Eu olho para o meu filho e vejo o verdadeiro exemplo de humanidade. Ele não vê a cor da pele das pessoas, não percebe o que o mundo insiste em destacar. Ele vê caráter, bondade e essência. Ele é um exemplo do que deveria ser nossa sociedade – um lugar onde as diferenças são celebradas, e não motivo de ódio.

Envio minha força, solidariedade e fé para o Luighi e para todos os outros jogadores, artistas e cidadãos que carregam a dor do racismo no peito. E faço um apelo: que possamos aprender a olhar uns para os outros com os olhos do coração, como meu filho Nickollas. Precisamos dar fim a essa cegueira moral que ainda insiste em nos dividir e nos fazer sofrer.

Silvia Grecco é secretária municipal da Pessoa com Deficiência da Capital.

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