Levantamento Na região, 2.390 passam por tratamento contra o alcoolismo, 80% desse grupo é formado por pacientes do sexo masculino
André Henriques/DGABC

Os Caps AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) da região atendem ao menos 2.390 munícipes que fazem uso abusivo do álcool, considerando números de São Bernardo, São Caetano, Diadema e Ribeirão Pires. Destes, cerca de 80% são homens.
Em São Caetano, hoje, com dados atualizados até fevereiro, 350 pessoas passam por tratamento. Em Ribeirão Pires, os números atualizados de 2025 somam cerca de 100 pacientes em tratamento contra o uso abusivo do álcool. O Caps AD de Diadema, considerando pacientes que deram entrada em 2024 e 2025, atende atualmente 147 munícipes, sendo 124 do sexo masculino e 23 do sexo feminino.
Em São Bernardo, em 2024, 1.793 pessoas passaram por tratamento para o o alcoolismo e outras drogas, das quais 1.410 são homens e 383, mulheres; 1.509 têm de 18 a 59 anos, 282 mais de 60 e dois são menores de 18. Os pacientes precisam de pelo menos 12 meses de tratamento, sem recaídas, para receberem alta. Portanto, boa parte dos usuários que iniciaram tratamento no ano passado seguem com os atendimentos.
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Em 2024, São Caetano realizou 7.805 atendimentos. Cada paciente passa por mais de um atendimento, mas para se ter ideia do perfil dos usuários, dessas pessoas que passaram pelo Caps, 6.349 são do sexo masculino. Em relação à faixa etária, 328 têm de 18 a 30 anos, 3.451 de 31 a 50 e 4.026 acima de 51. O Caps AD de Santo André não informou a quantidade de pacientes, mas revelou ao Diário que 70% deles estão em tratamento em decorrência do álcool. Destes, 78% é do sexo masculino, 21% feminino e 1% trans. Quanto à idade, 5% têm de 18 a 21, 75% entre 30 e 55, e 21% de 56 a 81.
Além da predominância dos homens entre os alcoolistas, um fato observado é que a maioria busca ajuda depois de muitos anos de dependência da substância. A coordenadora do CAPS AD de São Caetano, Cibele Lopez, explicou que o reconhecimento de que o hábito de beber é, para aquele indivíduo, uma doença e que ele precisa de ajuda ocorre somente depois de ter tido muitos prejuízos na vida.
É o caso de Donizete Bezerra, 54 anos, que está em tratamento no Caps de São Caetano desde junho de 2024, e teve o contato com a droga ainda criança. “Caiu a ficha agora de que eu perdi uma vida inteira. Já sou avô e perdi tudo na vida, porque nem trabalhar a dependência me permite mais. Minha última atividade foi catar e vender recicláveis. E essa era a última vez que minha família estava me dando uma chance”, compartilhou. Hoje o paciente compreende que possui uma doença e busca a libertação da culpa por ter cometido erros ao longo da vida. “Entendi que eu era impotente, que tenho uma doença e não sou um safado como a sociedade me julga. Entendi que para o resto da minha vida terei que ter uma consciência, pois não tem cura, que o preço da minha liberdade é a eterna vigilância”, pontuou.
MULHERES
A aposentada Gislene Alves, 64, é usuária há mais de quatro décadas. Ela buscou tratamento logo no início - começou a beber com 23 e aos 26 identificou a dependência, buscando tratamento -, mas teve muitas recaídas ao longo do processo. Somente no Caps AD de São Caetano está desde 2003.
“Minha mãe era alcoolista, cresci vendo ela beber, mas só fui beber adulta. Também tinha problema com a obesidade. Depois que fiz cirurgia bariátrica, agravou meu uso de álcool, em vez de comer e beber, eu só bebia. Eu vou e volto para o Caps, é uma eterna luta, já tentei suicídio, só que não desisto, estou sempre tentando e preciso de ajuda porque sozinha eu acabo com minha vida. Eu quero escrever uma nova história”, afirmou Gislene.
A médica psiquiatra Flavia Ismael, coordenadora da Saúde Mental de São Caetano, diz que as mulheres, apesar de minoria entre os usuários, desenvolvem a dependência em menos tempo que o homem e têm prejuízos maiores.
RECAÍDAS
As recaídas como as de Gislene são comuns no processo. Alguns pacientes não conseguem ficar abstinentes, então os profissionais atuam de forma a minimizar os danos, conforme explica a psicóloga do Caps AD de Santo André, Maria Eduarda Caldas. “Trabalhamos com as possibilidades do paciente e o que ele deseja. Às vezes, só de reduzir o uso já conseguimos ter um prognóstico melhor.” A profissional explicou que os pacientes passam por médicos e psicologia individual, mas que um dos tratamentos mais relevantes são os terapêuticos. “Os pacientes compartilham histórias e encontram, juntos, soluções. Temos grupos segmentados também, para mulheres, para trans, etc. Além disso, os pacientes têm atividades complementares como músicas, filmes, saídas externas, saraus e festas de fim de ano”, contou.
SEGUNDA CHANCE
Maria Eduarda disse que estes momentos festivos são importantes para mostrar aos alcoolistas que é possível se divertir sem o uso do álcool. Foi uma situação como esta que despertou no serralheiro aposentado Luiz Wanderley da Silva, 63, que está há um ano e três meses longe da bebida, e três meses sem jogar, o desejo de cura. “Comecei a beber com 16 anos e cresci vendo o pai, que morreu de cirrose, bebendo. Perdi todo meu dinheiro, e não foi pouco, com bebida e jogos. Ainda assim, não queria parar de beber. Mas há dois anos fui em uma festa de confraternização e vi todo mundo sóbrio sem beber. Vi o povo alegre se divertindo e não conseguia parar. Aquilo me tocou e foi a gota d’água para mim. Eu me perguntava porque as pessoas podiam beber um pouco e parar, e eu não, porque me perdia depois do primeiro gole. Agora eu aceitei o meu problema”, contou o paciente do Caps AD de Santo André.
O operário afastado Egídio José Veloso, 49, que está há cerca de oito meses na mesma unidade, tem história semelhante. Começou a beber aos 12 anos e depois de muitos prejuízos tomou a decisão de se dar uma segunda chance. “Um dia eu menti no trabalho e sai para beber. Não lembro direito se sentei na guia da calçada ou se cai, porque estava bêbado, e um ônibus passou por cima de mim. Mas continuei bebendo, não tratei minha perna, perdi meus dentes, e minha saúde estava muito ruim. Um dia passei muito mal, me tremia todo, e então pedi ajuda. De tanto sofrer, chegou um dia que eu pedi ajuda. Estou muito feliz com essa vitória de ter parado de beber”, compartilhou.
AJUDA
As sete cidades do Grande ABC possuem Caps AD, que atendem em horário comercial, de segunda à sexta-feira, no sistema porta aberta, ou seja, não precisa de agendamento ou encaminhamento. Os profissionais das demais unidades de saúde, como UBSs (Unidade Básica de Saúde) e UPAs (Unidade de Pronto Atendimento) também podem orientar a busca por atendimento especializado.

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