Setecidades Titulo Recomeço

Grande ABC acolhe refugiados afegãos que viviam no aeroporto

Ação da Diocese de Santo André, com apoio de uma família voluntária, é chance de recomeço para 17 imigrantes; região abriga 468 pessoas em situação de refúgio

13/11/2022 | 09:20
Compartilhar notícia
André Henriques/DGABC
André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Em uma das alas do Aeroporto Internacional de Guarulhos, onde a prefeitura da cidade mantém Posto Avançado de Atendimento Humanizado ao Migrante, 131 pessoas de 18 famílias afegãs aguardam, há dias ou meses, por acolhimento. Vivendo em moradias improvisadas com carrinhos de transporte de bagagem e cobertores, 17 afegãos ganharam, na última quarta-feira (9), a chance de recomeçar.

A Diocese de Santo André, por meio de seu Centro de Apoio ao Migrante, e voluntários andreenses se uniram para reduzir o sofrimento destes refugiados, que foram obrigados a deixar seu país de origem a partir dos avanços de conflitos e perseguições pelo Talibã (movimento político militar extremista islâmico que ganhou força em 2021, após a saída das tropas norte-americanas do Afeganistão). 

“Estamos tocados pela situação”, afirmou o padre Pierre Dieucel que, entre outras atividades, atua no Centro de Apoio ao Migrante da Diocese. “O Brasil é um dos principais do mundo em acolhida com dignidade. O País abre suas portas, assim como fez a senhora Ludmila (da família de voluntários que cedeu temporariamente imóvel no Grande ABC). A gente não precisa saber quem é quem. O povo brasileiro é movido a ajudar, com doações, com amor”, disse o religioso.

DGABC

De acordo com dados da Polícia Federal obtidos pelo Diário, desde 1987, o Grande ABC é moradia de 23.094 imigrantes. Deste total, 468 vivem em situação de refúgio. Somente neste ano, 210 pessoas foram acolhidas em cidades da região nesta condição.

Apesar das diferenças culturais, em especial a religião, a Diocese e a família de voluntários de Santo André foram solidárias diante da situação vivida pelos refugiados do Afeganistão. Nesta reportagem, a identidade destas pessoas foi preservada por questões de segurança, assim como detalhes sobre o acolhimento. 

No Aeroporto de Guarulhos, a cena impressiona. O grupo acolhido na região é formado por crianças, mulheres e homens que mantinham condição estável em seu país. São histórias de um engenheiro civil que atuava em obras púbicas, de professores universitários que lecionavam a língua inglesa – o que é considerado pelos talibãs forma de disseminação da cultura ocidental –, de um profissional que atuava no Banco Islâmico Afegão, de uma professora de escola primária e de uma artista. O mais jovem das seis famílias abrigadas é uma menina de cinco meses. O mais velho, um senhor de 70 anos. Uma das mulheres está grávida.

Foi a família de Ludmila Bianchin, 39 anos, que abriu as portas de um imóvel para acolher os 17 afegãos. “A gente se comoveu com a situação dessas pessoas que estavam aqui (no aeroporto). Doeu o coração. Junto com a Pastoral do Migrante nos unimos para poder ajudá-los. São todos refugiados de uma guerra, vivenciaram a violência. Coisas que não conseguimos nem imaginar, tamanha dor”, considerou. 

De suas vidas passadas, além de memórias, os refugiados trouxeram apenas o que coube nas malas e sacolas. A maioria partiu do Paquistão rumo ao Brasil por medo da violência do Talibã. Um dos homens, 34, fugiu do Afeganistão com a filha, de 2 anos, e a mulher. Deixou para trás os pais e os irmãos.

“Espero que me ajudem a encontrar um emprego e uma casa, para que eu possa trazer minha família. E nada mais do que isso”, falou sobre as expectativas em terras brasileiras. 

“Lá eu dava aulas de inglês, o que o Talibã não permite. E nem para meninas. Por isso fugimos. Estamos começando nossas vidas do zero. Essa é uma nova história para nós, especialmente para minha filha”, ressaltou. 

Entre janeiro e outubro deste ano, o Aeroporto Internacional de Guarulhos recebeu 1.387 afegãos em situação de refúgio. Em nota, a prefeitura da cidade informou que, pela alta demanda, abriu a Residência Transitória para Migrantes e Refugiados, com capacidade para 27 pessoas. “Há previsão de que nas próximas semanas, graças à verba enviada pelo governo federal, mais 100 vagas sejam abertas na cidade. Estamos em processo de adequação de espaço e credenciamento da instituição para que essas vagas estejam disponíveis”.

Pessoas interessadas em auxiliar famílias acolhidas pela Diocese podem contribuir com a doação de alimentos, roupas, calçados, eletrodomésticos, móveis, entre outros itens em boas condições.

Endereço: Centro de Apoio ao Migrante - Rua Montevideu, 71, Utinga (Santo André).


PIX: 09.656.530/0003-29 (Associação Scalabrini a Serviço dos Migrantes)

Políticas de migração avançam no Brasil, mas precisam ser ampliadas

Ainda que o Brasil esteja longe do contexto de campos de refugiados, os recursos e as políticas públicas para o acolhimento de imigrantes são insuficientes para atender toda a demanda. Em 2021, 850 pessoas de diferentes países chegaram ao Grande ABC. Neste ano, até o dia 9 de novembro, foram 1.048 imigrantes, crescimento de 23%.

“A vantagem da América Latina é que a integração local dessas pessoas se dá nas cidades, em meio urbano. E isso propicia que essas pessoas possam ter uma vida mais ou menos normal, dentro de suas limitações, com acesso à saúde pública universal, com as crianças indo para a escola”, observou Gilberto Rodrigues, professor e coordenador da pós-graduação em Relações Internacionais da UFABC (Universidade Federal do ABC).

“Mas existe um grande deficit. Apesar de haver esforço global e de a sociedade estar cada vez mais sensibilizada com o tema das pessoas refugiadas, ainda assim existe xenofobia, violência contra migrantes, vinculada ao racismo. E falando especificamente sobre os afegãos, a gente não tem experiência de receber pessoas de cultura e idioma tão diferentes. Temos muitos relatos de organizações que utilizam o Google Tradutor para o diálogo”.

Os avanços dos últimos anos nas políticas nacionais de migração foram tímidos, na avaliação do docente. No atual governo, houve ações importantes, como o visto humanitário para afegãos e o reconhecimento de venezuelanos como pessoas refugiadas. “Mas esperamos que o próximo governo tenha atuação mais ampla, para outros grupos, e políticas públicas voltadas ao acolhimento”, concluiu o especialista.




Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


;