Frustração Empresa comunica mercado que começa em dezembro a transferir operação ao Interior do Estado; montadora segue caminho da Ford
Adonis Guerra/SMABC

A Toyota do Brasil anunciou ontem o encerramento da produção em São Bernardo e a transferência da operação industrial para o Interior do Estado de São Paulo. Quinhentos e cinquenta funcionários serão afetados. A planta localizada no bairro Planalto começa a ser desocupada em dezembro e o processo deve estar concluído em novembro de 2023. É a segunda montadora de veículos a deixar a cidade em quatro anos – a primeira foi a Ford, em outubro de 2019.
Comunicado feito ao mercado na tarde de ontem pela Toyota informou que as operações da companhia de origem japonesa no Brasil vão continuar nas cidades de Sorocaba, Indaiatuba e Porto Feliz, localizadas no Interior paulista. A justificativa é que a empresa deseja mais sinergia nas unidades produtivas. Destaca também que o foco é ter mais competitividade frente aos desafios do mercado nacional.
A planta de São Bernardo foi a primeira fábrica a ser instalada pela Toyota fora do Japão e funciona na cidade há seis décadas. Em 2020, a empresa comunicou que passaria a sede administrativa de São Bernardo para Sorocaba a partir de janeiro de 2021.
No ano passado, a unidade, inaugurada em 1962, produziu 1,4 milhão de peças para os modelos que são feitos nas plantas de Indaiatuba, Sorocaba, Argentina e Estados Unidos. A Toyota garante que todos os postos de trabalho serão mantidos. A montadora dará suporte para que os funcionários possam ser realocados nas cidades onde a empresa mantém operações.
A transferência das operações será feita de maneira gradual. Em nota, a Toyota pontua que “prevê manutenção de emprego, ou seja, será oferecida oportunidade a 100% dos colaboradores que hoje trabalham na operação do (Grande) ABC”. Se quiserem, terão de atuar nas três unidades remanescentes da companhia.
Sorocaba, a cidade mais próxima a São Bernardo, está a uma distância de 119 quilômetros. Indaiatuba fica a 131 e Porto Feliz a 140. A direção do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC criticou a decisão e alegou que o fechamento da planta no Grande ABC é irresponsável, sem motivos plausíveis e afeta os trabalhadores. A entidade alega que, em novembro, a Toyota garantiu permanência da fábrica na região pelos próximos três anos.
Presidente do sindicato, Moisés Selerges reforçou que a Toyota não comentou previamente sobre a transferência. “Recebemos a notícia com surpresa. Recentemente, fiz uma visita à Toyota e cobrei a questão dos investimentos que eles tanto falavam. Não é uma unidade que não traz resultados. Disseram até que São Bernardo era um ponto estratégico.”
Para Selerges, dificilmente o trabalhador conseguirá se deslocar para o Interior de São Paulo. “Os funcionários têm suas vidas construídas aqui. Desde moradia até a escola dos filhos. Qual a estabilidade que a Toyota dará em outra cidade? Até agora, não comentaram sobre nenhum incentivo para seguir com a empresa nesta mudança. Nós queremos discutir sobre alguma possibilidade de permanência”, comenta.
Presidente garante suporte para os 550 funcionários
Rafael Chang diz que 100% dos empregos serão mantidos e que mundança se deu por sinergia e "sustentabilidade"
A Toyota se instalou em São Bernardo em 1962. O que motivou o encerramento das atividades na cidade?
É a nossa primeira fábrica no Brasil e faz parte deste crescimento que temos aqui no Brasil. O que buscamos sempre é aumentar a nossa efetividade e sobretudo a sustentabilidade de nossa operação. E uma das razões é encontrar a sinergia entre todas as nossas operações, mas sempre olhando que essa sustentabilidade vai ser para os nossos mais de 5.000 funcionários, incluindo os de São Bernardo. Estamos preservando 100% dos empregos dos nossos funcionários que trabalham em São Bernardo.
Quais peças são fabricadas em São Bernardo?
Produzimos peças para as nossas fábricas de Indaiatuba e Sorocaba, também para a Argentina e exportamos algumas para os Estados Unidos.
Qual foi a produtividade da empresa no último ano?
No ano passado produzimos 1,4 milhão de peças.
Todos os 550 trabalhadores desta unidade serão absorvidos pelas outras plantas da Toyota?
Aqui na fábrica de São Bernardo tivemos essa conversa com os nossos trabalhadores, para informar sobre esse processo de transferência, que vai começar em dezembro deste ano e vai finalizar em novembro de 2023. A primeira coisa que fizemos, por respeito a todos os funcionários, foi anunciar com antecedência e colocamos os prazos e todo o suporte que vamos dar para a realocação nas cidades onde operamos: Sorocaba, Porto Feliz e Indaiatuba. Eles tiveram essa informação e, obviamente, se alguns não quiserem ir, vamos conversar e falar com o sindicato sobre isso. O importante é que estamos preservando empregos e produção.
A saída da empresa, de alguma forma, está ligada ao relacionamento com o Sindicato dos Metalúrgicos?
Nós temos comunicação com todos os stakeholders (participantes do processo de produção) do nosso negócio. Sindicatos, concessionárias, fornecedores e mesmo o governo. Mas as condições do negócio vão mudando. Então as empresas precisam se adaptar e, dentro disso, estamos procurando esta sinergia e sustentabilidade. E vamos lembrar que esse compromisso quer temos com o Brasil desde que começou a nossa operação. E nos últimos anos se acrescentou muito. Vamos lembrar que em 2019 nós introduzimos o primeiro carro híbrido flex do mercado e do mundo, trazendo tecnologia para o Brasil. Logo investimos mais de R$ 1 milhão para modernizar a nossa fábrica de Sorocaba, que também trouxe um modelo novo, o Corolla Cross, que é exportado para 22 países. Esse ano, começamos o terceiro turno na fábrica de Sorocaba, onde abrimos mais de 550 empregos diretos. E logo fizemos o anúncio da exportação de motores que produzimos em Porto Feliz para a América do Norte e investimento para modernizar a nossa linha de Corolla. São sinais do nosso compromisso, tanto de investimento quanto de preservação de empregos. E isso significa gerar renda e pagar mais impostos. Esse é o nosso compromisso com o Brasil, com a sociedade e com os nossos funcionários.
Nesta terça-feira o diretor de relações governamentais da empresa, Roberto Braun, se encontrou com o prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, para informar da saída da empresa. Antes, a Toyota havia procurado a Prefeitura para tentar algum tipo de acordo para uma possível permanência?
Nós sempre mantemos o diálogo aberto com todos os stakeholders que têm relação conosco. Com governos seja local, estadual ou federal, sempre buscando alguma solução. E esses são sinais de que estamos buscando preservar empregos e aumentar a produção.
A Toyota vai vender o terreno onde está a fábrica de São Bernardo, ou irá utilizar a área de alguma outra forma?
Hoje o nosso foco está em comunicar corretamente os nossos funcionários, como cuidar deles, como vamos fazer esse processo de transferência. Então, vamos discutir estes detalhes um pouco mais à frente.
Cidade sofre com fuga de grandes companhias do setor automotivo
Evaldo Novelini
A Toyota é a terceira gigante da cadeia automotiva a anunciar a saída de São Bernardo nos últimos quatro anos. Antes da companhia de origem japonesa, a norte-americana Ford e a brasileira Mangels já tinham trocado a cidade do Grande ABC por outras localidades.
Com sede nos Estados Unidos, a Ford fechou sua unidade em São Bernardo em 30 de outubro de 2019. A planta, que tinha 2.800 funcionários, havia sido inaugurada havia 52 anos, no bairro Taboão. Em fevereiro daquele ano, a empresa alegou que iria concentrar suas operações em Camaçari, na Bahia, e Taubaté, em São Paulo.
Em janeiro de 2020, foi a vez da Mangels, produtora de rodas que atuava no município desde 1968, anunciar que estava mudando sua sede de São Bernardo para a cidade de Três Corações, em Minas Gerais, onde mantém fábrica. Com isso, o Grande ABC perdia mais uma de suas empresas de capital aberto, com ações negociadas na bolsa de valores.
Economista vê "perda de competitividade";prefeito lamenta
O economista Sandro Maskio, coordenador de estudos do Observatório Econômico e professor do curso de ciências econômicas da Universidade Metodista de São Paulo, explica que a decisão da Toyota de fechar a planta de São Bernardo coloca em risco a competitividade local. O prefeito Orlando Morando (PSDB), que só ficou sabendo da medida na última hora, lamentou a decisão da empresa.
“Isso demonstra quanto os municípios do Interior estão se sobressaindo. Eles têm vantagem sob o ponto de vista do custo de produção e se destacam pela competência de desenvolvimento tecnológico. Para o Grande ABC, há prejuízos porque perdemos as capacidades de inovação e conhecimento na região”, diz Maskio.
O economista alega que a Toyota não tinha representatividade tão forte se comparada a outras montadoras de São Bernardo. Mesmo assim, as consequências são diversas. “É grande sinal de alerta. É importante que os gestores públicos fiquem atentos. Devemos segurar os investimentos que temos, porque acontecimentos como esse afetam a geração de empregos. Com isso, perdemos a chance de reter e concentrar na região mão de obra qualificada. Não podemos exportar bons profissionais.”
A Prefeitura de São Bernardo foi avisada, na tarde de ontem, de que “o setor administrativo da montadora Toyota será transferido”. “O comunicado foi feito pelo diretor de relações governamentais da empresa, Roberto Braun, ao prefeito Orlando Morando, detalhando que a decisão ocorre porque no espaço industrial estava apenas em funcionamento o operacional administrativo”, diz nota do Executivo.
O prefeito lamenta, no mesmo comunicado, a decisão da companhia e informa que tentará manter a montadora na cidade. “Os representantes da empresa sempre foram bem acolhidos e recebidos pela administração municipal, o que não justifica a sua desmobilização da cidade.” Orlando ressalta que irá procurar o presidente da Toyota do Brasil, Rafael Chang, visando mudar a decisão da companhia. BM
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