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Estreitos vínculos de família que se rompem



26/07/2021 | 08:44


Como se sabe, as técnicas de amarrar são traiçoeiras. E isso vale tanto para os nós dos cordões de sapatos como os vínculos familiares. Muito frouxos, podem se desfazer e provocar tombos; apertados em demasia, incomodam e fazem mal à circulação. Os arranjos familiares, que podem significar tanto opressão quanto segurança, são o tema de Laços, filme italiano de Daniele Luchetti baseado em romance de Domenico Starnone, já publicado no Brasil pela Todavia.

Aldo (Luigi Lo Cascio) e Vanda (Alba Rohrwacher) são casados e têm dois filhos. A união é abalada pela entrada em cena de Lidia (Linda Caridi), colega de trabalho de Aldo, um radialista especializado em literatura. O casamento desmorona, Aldo vai morar com Lidia, mas também esse relacionamento não dura muito e ele volta para a esposa.

Há um salto no tempo, com o casal Aldo e Vanda já idoso, e com os personagens agora interpretados por Silvio Orlando e Laura Morante. Eles continuam a viver em seu espaçoso apartamento em Nápoles, cheio de livros e recordações. E também de alguns fantasmas do passado. Os filhos estão crescidos. Sandro (Adriano Giannini) e Anna (Giovanna Mezzogiorno) são dois tipos mais amargos que solares.

O rapaz vem de casamentos desfeitos. A irmã parece não se interessar por nada, exceto em vender o apartamento dos pais e resolver seus problemas financeiros.

A família descrita por Starnone, e retomada por Lucchetti, é um agrupamento despojado de afeto. Aldo voltou de sua aventura extraconjugal de cabeça baixa e teve de se submeter ao jugo de uma esposa ressentida. Os filhos sofreram com o ambiente em que se criaram e se tornaram adultos sem luz própria.

Como na prosa de Starnone, também no filme os pequenos detalhes são fundamentais. Os laços são metáforas das relações humanas, mas também significam uma forma concreta de o pai ausente se reaproximar dos filhos. Reaproximação ilusória, como se verá. O apartamento da família é outra entidade simbólica, personagem mudo na história, no qual se escondem objetos sutis, alguns comprometedores, como a caixinha que esconde fotos que não deveriam ser vistas por ninguém. Há mistérios, como a destruição da casa sem que nenhum objeto de valor tenha desaparecido. Um mistério que é menos policial do que expressão das contradições afetivas em jogo numa estrutura familiar minada pela base.

O filme é bom, mas não preserva o encanto do livro. Neste, Starnone pode se dar ao luxo de sutilezas, numa narrativa em três níveis, concedendo voz ao marido, à mulher e depois aos filhos. Uma polifonia em que todos defendem sua razão sem que nenhum acordo pareça possível. Na narrativa cinematográfica, tudo se mistura um pouco mais, com idas e voltas frequentes no tempo. No entanto, os desfechos e conclusões parecem abruptos demais, saltos que servem, de fato, para surpreender o espectador, mas também denotam certa carência de nuances. No percurso, um pouco da subjetividade dos personagens é perdida.

Salvo esses trancos inesperados, a narrativa proposta por Luchetti parece fluida e ancorada numa bela dupla de intérpretes, Luigi Lo Cascio e Alba Rohrwacher. A coisa já não anda tão bem quando avança no tempo e então são Silvio Orlando e Laura Morante a encarnar o casal, trinta anos mais velho. Não por deficiência do ator ou da atriz, ambos ótimos, mas pela falta de química entre eles. Algo não funciona.

De qualquer forma, a história é intrigante, como são todas as contadas por Domenico Starnone, tido como o grande autor italiano da atualidade. Várias de suas obras já foram publicadas no Brasil. Além de Laços, Segredos e Assombrações, romances breves e contundentes. Textos que escavam o subsolo das relações familiares e expõem à luz do dia velhos fantasmas, esqueletos saídos do armário, teias de aranha, lembranças incômodas, ciúmes ancestrais e ressentimentos sempre vivos. Tranqueiras mentais que, vindas do passado, atormentam as pessoas no presente. Com distribuição da Synapse Distribution, o filme chega às plataformas Claro Now, Vivo Play, Sky Play, iTunes / Apple TV+, Google Play e YouTube Filmes.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



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