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Amores em tempos de pandemia

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Casais do Grande ABC relatam como vivenciar a maior crise sanitária dos últimos 100 anos influenciou seus relacionamentos


Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

12/06/2021 | 07:00


A pandemia de Covid-19, a maior crise sanitária que o mundo vivenciou nos últimos 100 anos, mudou a forma como fazemos muitas coisas. Trabalho, estudos e relacionamentos. Se em um primeiro momento houve um aumento nas separações – segundo o CNB-SP (Cartório Notarial do Brasil – Seção São Paulo), o número de divórcios lavrados em cartórios aumentou 46,2% no Grande ABC nos meses de junho e julho de 2020, de 195 para 285, na comparação com os mesmos meses de 2019 –, também houve quem se encorajasse nesse período para a vida a dois. Decidisse fazer o isolamento e, ao mesmo tempo, dividir o teto, as contas e os sonhos, apostando em um amor para sobreviver à quarentena. Em comemoração ao Dia dos Namorados, o Diário conta essas que são histórias de amores em tempos de pandemia.

Em apenas três meses, dois encontros e a vida a dois

Atire a primeira pedra o solteiro que nunca recorreu a algum aplicativo de relacionamento, nem que fosse para fazer print de posicionamentos pessoais questionáveis. O mês era dezembro de 2020 e o tédio da pandemia que obrigou as pessoas a ficar em casa desde março de 2020 levou a filósofa e professora Daniele Santana, 34 anos, a esse passatempo. Para sua surpresa, conheceu o ator Lucas da Silva Manzano, 30, e as 24 horas dos próximos quase 30 dias pareciam poucas para tanto assunto e coisas em comum.
Conversas e ligações intermináveis, a vontade de se ver, mas o medo de contágio fizeram com que Manzano marcasse com Daniele e fosse até a casa dela, na Zona Oeste de São Paulo, para um almoço no quintal, com distanciamento. As horas passaram, a conversa fluiu, um banho de chuva coroou o dia do primeiro encontro, que só viria a se repetir por um fim de semana inteiro depois de mais de 30 dias, após isolamento rígido feito pelos dois.

Manzano e Daniele estavam em trabalho remoto e, entre as muitas afinidades, dividiam a vontade de deixar a correria da Capital – ele morava na Zona Sul – por um lugar mais tranquilo.

Foi quando uma amiga de Daniele se ofereceu para procurar uma casa em Ribeirão Pires, onde os três – já que Daniele tem um filho, Francisco, 8 – pudessem morar. Desde o início de março vivem na pequena cidade do Grande ABC e acreditam que o período em que não puderam se encontrar fez com que os dois se aproximassem e se conhecessem de verdade.

“Essa possibilidade aberta pela pandemia fez com que as relações tivessem que se sustentar além do toque, do sexo, do rolê”, afirmou Daniele. “A distância nos possibilitou nos conhecer mais profundamente e isso muitas vezes ficava perdido na liquidez das coisas. Tive muitos medos, mas, ao mesmo tempo, tenho essa mania de acreditar nas pessoas. Não é sempre, ainda mais em homem, mas com o Lucas senti confiança”, pontuou a filósofa.

Para Manzano, foi importante olhar para o seu momento e o lugar onde estava para tomar a decisão da vida a dois. “Um ano e meio atrás não teria feito isso. (É preciso) Saber olhar para onde está e tentar entender se de fato dá para dar um salto de confiança”, finalizou.

No amor e na militância, na pesquisa e na docência

A socióloga feminista e professora universitária Silmara Conchão, 54 anos, conheceu o professor universitário e pesquisador Eduardo Magalhães, 52, em 2004. Mas, desde 2008, só o encontrou em manifestações em defesa da educação pública, sempre rapidamente. Até que em março de 2019, também em uma grande manifestação, a conversa evoluiu e eles passaram a se aproximar cada vez mais.

Em dezembro de 2019, com o apartamento em reforma, Magalhães foi ficar um tempo com Silmara, em Santo André. Quando o imóvel ficou pronto, a pandemia já havia se instalado, e o casal resolve apostar na convivência a dois e passou a morar junto. “A gente viveu um período grande de isolamento das outras pessoas, das famílias e acabamos tendo uma lua de mel”, explicou Silmara.

“Arriscamos. A pandemia aproximou muito no espaço doméstico essa relação entre as pessoas, as famílias e a gente, de verdade, não se conhecia direito. Era mais uma relação profissional, nos conhecíamos da militância e apostamos”, reconhece a socióloga. “O cotidiano é um desafio ao amor, à paixão, por conta da rotina. Arriscamos, mas continua bom”, completou.

Magalhães destacou que o País vive um momento de falta de afeto na política, que classifica como bruto. “Temos um governo que perdeu a empatia, o afeto pelo seu povo e isso é manifestado na gestão da pandemia, nas políticas publicas, é um governo sem afeto”, citou. “E isso é depressivo, se a gente incorpora isso na nossa vida pessoal é muito ruim. Então, é mais importante ainda manifestar o afeto neste período de pandemia, para marcar distanciamento desse desgoverno”, concluiu.

Silmara faz questão de destacar que a decisão de permanecer juntos depois do início da pandemia tem se mostrado acertada. O casal dá aulas, pesquisa, trabalha e se curte, e que assim vai permanecer, enquanto for bom para os dois. “Manter o afeto é revolucionário em tempos de dor e de necropolitica”, afirmou a socióloga. “E é muito revolucionário também a gente poder fazer escolhas na nossa vida, na nossa relação. A autonomia, liberdade e o amor para a gente poder superar essa dor”, finalizou a docente. 

Pandemia acentuou o imediatismo

Se para muitas pessoas conviver entre quatro paredes intensamente durante a interminável quarentena da pandemia de Covid-19 trouxe agravamento nos conflitos, para outras também se intensificou o imediatismo, explicou a psicóloga clínica especializada em terapia de casal Osmarina Viel.

A psicóloga detalhou que foram observados dois movimentos. De um lado, casais que tinham relações superficiais, com muito estímulo externo, pouco tempo juntos e com a pandemia foram obrigados e se ver, se enxergar e para muitas pessoas ficou insuportável. Houve aumento de conflitos, de brigas e também de divórcios. De outro lado, pessoas que só namoravam, viviam cada um na sua casa e viram na pandemia a oportunidade de passar mais tempos juntos.

Osmarina alertou que é recomendável um mínimo de cautela e planejamento, especialmente quanto existem filhos envolvidos, para ambos os casos. “Em situações extremas como a que gente vive, algumas pessoas mudam seu comportamento, têm dificuldade de pensar que isso vai passar. Principalmente na nossa cultura, o brasileiro é muito imediatista e acaba forçando solução que agrava ainda mais a situação”, opinou.

A psicóloga diz que, culturalmente, os brasileiros têm dificuldade em adotar uma visão estratégica sobre a vida financeira, profissional e até amorosa. “A gente costuma enxergar assim: eu gosto de você, você gosta de mim e vamos ficar juntos. Quando, na verdade, são necessários muitos ajustes, as pessoas trazem suas bagagens, seus costumes”, citou.

A terapeuta aconselha aos casais que pensam em dividir a vida sob o mesmo teto que não se esqueçam de assuntos práticos. “É maravilhoso amar uma pessoa, ser amado, mas temos que pensar em tudo. Como fica a questão financeira, os afazeres da casa, que são pontos que causam muitos conflitos. É preciso alinhar as expectativas de ambos”, comentou.

A especialista ressaltou que uma casa pode ser como uma empresa. Quando admitimos alguém novo naquele lugar, ele pode precisar de tempo para se adaptar, de treinamento. “O que não quer dizer que não pode dar certo. Precisa de maturidade para organizar as coisas, ajustar tudo, mesmo depois que já estão juntos e então há grande possibilidade de um relacionamento duradouro e harmônico”, finalizou. 

Sofre menos quem se adapta mais rápido

Para a especialista em medicina comportamental Leila Navarro, a pandemia exigiu das pessoas uma capacidade grande de adaptação, e quem conseguiu fazer isso mais rápido, foi quem sofreu menos.

“(Charles) Darwin (naturalista, geólogo e biólogo britânico) dizia que não sobrevivem os mais fortes, mas os que se adaptam mais. E, hoje, ele diria também que é quem se adapta com mais velocidade. Isso é um talento para as pessoas sobreviverem tanto na vida profissional como na pessoal”, afirmou.

Leila também entende que a pandemia deu um chacoalhão nas estruturas, nos nossos paradigmas, nos sonhos e a gente passou a ficar um pouco mais imediatista. Que ao mesmo tempo em que existem pessoas que acham que tudo vai voltar ao normal, outras querem viver o agora.

“Muitos desses indivíduos entenderam que o mundo mudou e que precisam se adaptar a isso. No caso de relacionamentos, houve o entendimento de que são duas pessoas adultas e qual o problema de se unir”, pontuou. “Então, foi isso, para algumas pessoas essa situação trouxe essa possibilidade de acelerarem seus relacionamentos e eu acho isso muito bacana”, completou.

A especialista compara a situação como uma nova viagem. “Quando a gente vai em uma viagem, você não vai ficar criticando a realidade, você vai querer conhecer, entender, então, algumas pessoas tentam se adaptar à nova realidade à qual elas estão impostas”, definiu. Apesar de ver de maneira positiva os casais que decidiram dividir a vida em meio à pandemia, Leila também recomenda cautela.

“A pessoa tem que ter um pouco de bom senso para poder identificar o que está ocorrendo com ela, se é amor ou se é paixão. A paixão é esse primeiro impacto, que movimenta, que dá coragem e cega, (a pessoa) não mede tanto as coisas. Já o amor tem a ver com conhecimento, quando mais eu conheço, mais eu amo”, afirmou.

Do ponto de vista individual, a especialista pontuou que a pandemia fez as pessoas que moravam sozinhas terem um encontro consigo mesmas. “Muita gente passou a fazer terapia, por que encontraram muitas sobras dentro de si. Já para outras, foi também um momento de entender a diferença entre solidão e solitude”, concluiu. 
 



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