
Andreense da gema (completou 35 anos neste sábado, dia do 447º aniversário da cidade), Carla se destacou como diretora de arte ao lado de seu parceiro Cássio Amarante em Central do Brasil e também em O Primeiro Dia, de Walter Salles e Daniela Thomas. Além disso, provocou a criaçao de uma nova categoria de premiaçao no Festival de Brasília, com os créditos que fez com Fernanda Sarmento para Kenoma, filme de sua irma, a cineasta Eliane Caffé, também de Santo André.
Em Bossa Nova, de Bruno Barreto, destacam-se na história cores fortes e essencialmente tropicais, saídas de uma paleta vibrante e vistas através das janelas e dos interiores do filme. Tudo bem diferente de Central do Brasil, no qual a direçao de arte era imperceptível. "Temos a necessidade de enquadrar a proposta que vem do diretor. Em Central, a preocupaçao era mostrar as características socioeconômicas de um Nordeste medieval. Em Bossa Nova, Barreto queria um Rio romântico e aconchegante, sem pobreza".
As referências imagéticas de Carla para Bossa Nova sao as cores de David Hockney e as janelas de Edward Hopper, dois artistas plásticos norte-americanos. Hockney, que foi desenhista de cenários de ópera, pintou, com cores quentes, imagens provocativas, associadas à pop art. Hopper mostrou indivíduos isolados uns dos outros, apesar de retratá-los inseridos na realidade social, especialmente de dentro ou através de janelas.
"Cabe ao diretor de arte lapidar em um local as imagens que ajudam a traduzir a temática de um filme", diz. Carla vê a direçao de arte como uma atividade enriquecedora, especialmente em Central do Brasil, rodado no povoado de Cruzeiro do Nordeste (PE). "Eu e Cássio estabelecemos relaçoes de trabalho maravilhosas. Contratamos pedreiros, marceneiros, comemos no restaurante local na beira da estrada, um lugar onde nao passava viva alma. Cinema é a única arte que modifica a economia de um lugar".
A equipe precisou de objetos autênticos do vilarejo e levou malas, panelas, utensílios etc., tudo novo, para trocar com a populaçao pelos mesmos, só que velhos e usados. "Era divertido. Ninguém entendia porque a gente queria trocar novo por velho. Mas eram objetos que tinham vida, um dado fundamental para o filme".
A cidadezinha tinha 500 habitantes, mas 350 eram crianças, muitas filhas de pais que migraram em busca de trabalho no Sudeste. "Recrutamos as crianças para recortar e colar os retratos vistos na cena da Casa dos Milagres", lembra.
O próximo trabalho de Carla é Os Narradores de Javé, filme com direçao de Eliane Caffé e roteiro de Luís Alberto de Abreu, de Ribeirao Pires. Será rodado no segundo semestre deste ano em Gameleira (BA), às margens do rio Sao Francisco, abordando a resistência cultural da populaçao de uma cidadezinha prestes a ser inundada pelas águas de uma barragem. Para nao perder sua memória, o povo local se organiza. O processo será semelhante ao de Central. "Vamos trabalhar com a intervençao da comunidade e seus costumes culturais, ricos em maracatus, reisados, congadas e outras manifestaçoes", completa Carla.
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