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Jovem denuncia internação ilegal em Caps de São Bernardo

Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Moradora foi buscar informações e passou dois dias internada contra a sua vontade e sem ordem judicial


Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

01/09/2020 | 00:01


A cineasta Letícia Soares de Freitas, 27 anos, acusa a Prefeitura de São Bernardo, por meio do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) Alvarenga, de tê-la submetido a uma internação ilegal no dia 24 de agosto. Letícia é autista e já fez acompanhamento naquela unidade, no entanto, no dia em que esteve novamente no equipamento, queria apenas alguma ajuda, pois estava se sentindo sozinha. Sua dificuldade em se expressar oralmente fez com que os funcionários não a entendessem e o episódio terminou com dois dias de internação contra a sua vontade e sem ordem judicial.

Letícia é independente e tem total autonomia, tanto que mora sozinha há dois anos. “Uma autista aventureira cineasta”, como ela mesma se define, e naquele dia em que foi ao Caps, queria apenas auxílio para planejar as etapas de uma aventura. A jovem mantém desde 2016 o canal no YouTubeAspie Aventura, onde registra seus desafios e sucessos na socialização com outros autistas e com a sociedade em geral.

A dificuldade de Letícia é na fala, mas pelo WhatsApp ela relatou à equipe de reportagem o ocorrido. Segundo a jovem, ela foi até o Caps porque achou que eles a pudessem ajudar “com as coisas da vida”, como era antigamente. No entanto, perguntaram por que ela estava lá e, com sua dificuldade em se comunicar, Letícia não conseguiu se fazer entender. Sem estabelecer diálogo, a funcionária que a atendeu disse que ela teria que ficar internada e que precisavam pegar seus pertences. Assustada, a jovem foi ficando cada vez mais agitada. Avisou pelo celular sobre o ocorrido à amiga Adelaide Romero, 39, fundadora e presidente da Fasa (Família Autismo Só Amor), organização para auxiliar com informações aos autistas e seus familiares.

Letícia continuou tentando se explicar, sem sucesso. Tentou fugir e se lembrou de ter falado que era “uma garota livre”, mas foi medicada com uma injeção e dormiu várias horas. Quando acordou, foi repreendida por ter usado o celular – a equipe sabia sobre seu pedido de ajuda – e teve o aparelho telefônico, seu único meio seguro de comunicação, confiscado.

No dia seguinte, Adelaide foi ao Caps e foi atendida por uma profissional que se negou a passar informações sobre Letícia, alegando que ela não era parente, e afirmou que a jovem foi internada “porque representava um risco para si e para a sociedade”. Adelaide afirmou que conhece e acompanha de perto Letícia há três anos, que a jovem “tem autonomia e se vira muito bem”, só precisando de apoio para a socialização, como a maioria dos autistas. “Os Caps vieram da luta antimanicomial. O que fizeram com ela foi o inverso dessa luta”, afirmou Adelaide.

Para Letícia, faltaram o acolhimento e o carinho que ela já havia recebido no equipamento. “Gostaria que tivéssemos uma conversa compreensiva, que entendessem quais as minhas necessidades e que dessem mais valor às pessoas com quem convivo. Adelaide é a mais próxima de mim e eles não me deixaram vê-la”, argumentou. 

O caso de Letícia viralizou nas redes sociais e ela mesma produziu uma animação sobre a situação (encurtador.com.br/pDHJU). A coordenadora do Núcleo dos Direitos do Idoso e da Pessoa com Deficiência da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, Renata Tibiriça, enviou ofício para o Caps pedindo esclarecimentos sobre a internação, mas ainda não obteve resposta. “A lei antimanicomial determina que a internação tem que ser evitada, e que precisa de um laudo médico ou do pedido de um terceiro. Não está claro se havia algum desses elementos.”

A psicóloga responsável pela clínica onde Letícia faz acompanhamento particular, Adriana Prado Albuquerque, afirmou que a jovem é independente e que sabe lidar bem com suas questões, mas que não iria se manifestar sobre o episódio. 

Atendimento se baseou em prontuário

A Prefeitura de São Bernardo foi questionada sobre o atendimento dispensado à jovem Letícia Soares de Freitas, 27 anos, que alega ter sido internada ilegalmente no Caps (Centro de Atenção Psicossocial) Alvarenga, e informou, em nota, que a “referida paciente” chegou ao equipamento sozinha, “com quadro que preocupou a equipe, inclusive, com uma carta escrita, anexa ao seu prontuário, demonstrando fragilidade e possibilidade de colocar sua vida em risco”.

Segundo o comunicado, para estes casos, o protocolo determina a necessidade de acionamento de familiares. “A jovem ficou na unidade até que os profissionais conseguissem contato com os responsáveis legais, que foram até o local para orientações de tratamento e o acompanhamento da alta da paciente”, concluiu a nota. A administração não comentou a alegação de Letícia de que seu celular foi confiscado. A jovem afirmou que não ia ao Caps desde maio de 2018. 

A presidente da Fasa (Família Autismo Só Amor), organização para auxiliar com informações autistas e seus familiares, Adelaide Romero, 39, que acompanha Letícia há três anos, classificou como “grave” a decisão da equipe em adotar condutas baseadas em informações que já têm mais de dois anos. “Nos últimos anos, ela vem fazendo o tratamento e conta com rede de apoio”, afirmou. 

A administração não confirmou a data do último atendimento de Letícia na unidade de saúde mental. 



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Jovem denuncia internação ilegal em Caps de São Bernardo

Moradora foi buscar informações e passou dois dias internada contra a sua vontade e sem ordem judicial

Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

01/09/2020 | 00:01


A cineasta Letícia Soares de Freitas, 27 anos, acusa a Prefeitura de São Bernardo, por meio do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) Alvarenga, de tê-la submetido a uma internação ilegal no dia 24 de agosto. Letícia é autista e já fez acompanhamento naquela unidade, no entanto, no dia em que esteve novamente no equipamento, queria apenas alguma ajuda, pois estava se sentindo sozinha. Sua dificuldade em se expressar oralmente fez com que os funcionários não a entendessem e o episódio terminou com dois dias de internação contra a sua vontade e sem ordem judicial.

Letícia é independente e tem total autonomia, tanto que mora sozinha há dois anos. “Uma autista aventureira cineasta”, como ela mesma se define, e naquele dia em que foi ao Caps, queria apenas auxílio para planejar as etapas de uma aventura. A jovem mantém desde 2016 o canal no YouTubeAspie Aventura, onde registra seus desafios e sucessos na socialização com outros autistas e com a sociedade em geral.

A dificuldade de Letícia é na fala, mas pelo WhatsApp ela relatou à equipe de reportagem o ocorrido. Segundo a jovem, ela foi até o Caps porque achou que eles a pudessem ajudar “com as coisas da vida”, como era antigamente. No entanto, perguntaram por que ela estava lá e, com sua dificuldade em se comunicar, Letícia não conseguiu se fazer entender. Sem estabelecer diálogo, a funcionária que a atendeu disse que ela teria que ficar internada e que precisavam pegar seus pertences. Assustada, a jovem foi ficando cada vez mais agitada. Avisou pelo celular sobre o ocorrido à amiga Adelaide Romero, 39, fundadora e presidente da Fasa (Família Autismo Só Amor), organização para auxiliar com informações aos autistas e seus familiares.

Letícia continuou tentando se explicar, sem sucesso. Tentou fugir e se lembrou de ter falado que era “uma garota livre”, mas foi medicada com uma injeção e dormiu várias horas. Quando acordou, foi repreendida por ter usado o celular – a equipe sabia sobre seu pedido de ajuda – e teve o aparelho telefônico, seu único meio seguro de comunicação, confiscado.

No dia seguinte, Adelaide foi ao Caps e foi atendida por uma profissional que se negou a passar informações sobre Letícia, alegando que ela não era parente, e afirmou que a jovem foi internada “porque representava um risco para si e para a sociedade”. Adelaide afirmou que conhece e acompanha de perto Letícia há três anos, que a jovem “tem autonomia e se vira muito bem”, só precisando de apoio para a socialização, como a maioria dos autistas. “Os Caps vieram da luta antimanicomial. O que fizeram com ela foi o inverso dessa luta”, afirmou Adelaide.

Para Letícia, faltaram o acolhimento e o carinho que ela já havia recebido no equipamento. “Gostaria que tivéssemos uma conversa compreensiva, que entendessem quais as minhas necessidades e que dessem mais valor às pessoas com quem convivo. Adelaide é a mais próxima de mim e eles não me deixaram vê-la”, argumentou. 

O caso de Letícia viralizou nas redes sociais e ela mesma produziu uma animação sobre a situação (encurtador.com.br/pDHJU). A coordenadora do Núcleo dos Direitos do Idoso e da Pessoa com Deficiência da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, Renata Tibiriça, enviou ofício para o Caps pedindo esclarecimentos sobre a internação, mas ainda não obteve resposta. “A lei antimanicomial determina que a internação tem que ser evitada, e que precisa de um laudo médico ou do pedido de um terceiro. Não está claro se havia algum desses elementos.”

A psicóloga responsável pela clínica onde Letícia faz acompanhamento particular, Adriana Prado Albuquerque, afirmou que a jovem é independente e que sabe lidar bem com suas questões, mas que não iria se manifestar sobre o episódio. 

Atendimento se baseou em prontuário

A Prefeitura de São Bernardo foi questionada sobre o atendimento dispensado à jovem Letícia Soares de Freitas, 27 anos, que alega ter sido internada ilegalmente no Caps (Centro de Atenção Psicossocial) Alvarenga, e informou, em nota, que a “referida paciente” chegou ao equipamento sozinha, “com quadro que preocupou a equipe, inclusive, com uma carta escrita, anexa ao seu prontuário, demonstrando fragilidade e possibilidade de colocar sua vida em risco”.

Segundo o comunicado, para estes casos, o protocolo determina a necessidade de acionamento de familiares. “A jovem ficou na unidade até que os profissionais conseguissem contato com os responsáveis legais, que foram até o local para orientações de tratamento e o acompanhamento da alta da paciente”, concluiu a nota. A administração não comentou a alegação de Letícia de que seu celular foi confiscado. A jovem afirmou que não ia ao Caps desde maio de 2018. 

A presidente da Fasa (Família Autismo Só Amor), organização para auxiliar com informações autistas e seus familiares, Adelaide Romero, 39, que acompanha Letícia há três anos, classificou como “grave” a decisão da equipe em adotar condutas baseadas em informações que já têm mais de dois anos. “Nos últimos anos, ela vem fazendo o tratamento e conta com rede de apoio”, afirmou. 

A administração não confirmou a data do último atendimento de Letícia na unidade de saúde mental. 

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