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‘Eu pensei demais na minha família e não me permiti desistir’

Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Primeira paciente a ter alta do hospital de campanha de Sto.André, Danielle da Silva Máximo enaltece equipe médica: ‘Gratidão’


Luís Felipe Soares
Do Diário do Grande ABC

27/04/2020 | 00:01


Uma casa no Parque das Nações, em Santo André, guarda fonte de força especial que Danielle da Silva Máximo, 26 anos, precisou para não se entregar para a doença que assusta o planeta. Desde 2017, o local serve de moradia para a família da jovem andreense, mulher de Vinicius e mãe do pequeno Dominic, 2. A conexão entre eles foi fundamental para que ela enfrentasse a Covid-19 em duelo de vida e morte e saísse vitoriosa. Depois de seis dias internada, ela está de volta para o lar como a primeira pessoa a receber alta do hospital de campanha montado nos três ginásios do Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia.

“Tive que trabalhar muito bem minha cabeça e meu coração. Antes mesmo de internar, já estava com medo de voltar para o hospital. Senti uma piora da minha situação e isso aumenta a tensão. Lá (no leito), realmente me liguei na família”, disse a andreense. “Quanto maior fosse o desespero, maiores eram as chances de não ir embora. Lembrava demais do meu marido e do meu filho, além do resto do pessoal, e queria vê-los. Não me permiti desistir.”

Danielle deu entrada no hospital de campanha no dia 19. Ficou seis dias. “Fui uma paciente obediente, com muita força de vontade.” Em meio à rotina de atendimentos e observações, não é permitido conexão com o mundo exterior. “Mas meu marido conseguiu que me entregassem uma cartinha que ele fez com meu filho. Isso me fez chorar horrores em vários momentos. Chorava, lia, via a mãozinha do Dominic estampada e me lembrava que eles estavam esperando. Isso me dava forças”, conta.

Na sexta-feira cedo, ela soube da possibilidade de ter alta no começo da tarde. Não conseguia dormir e ficou mais agitada do que nunca. “Foi uma mistura de sentimentos, uma união de várias coisas passando pela minha cabeça”, lembra. Ao longo da manhã, recorda que toda a equipe demonstrou animação sobre a possibilidade de alta da paciente, com a maioria deles se reunindo no caminho e batendo palmas na medida em que a jovem deixava o local, por volta do meio-dia. Vídeo postado nas redes sociais do prefeito Paulo Serra (PSDB), no sábado, viralizou na internet.

O sentimento de alívio foi tomado por emoção enorme quando viu Vinicius. “O reencontro com meu marido foi um baque. Desabei e fiquei muito feliz ao mesmo tempo. Ele sempre foi um companheiro incrível. Foi a melhor sensação do mundo porque sabia que estava em casa.” De volta ao Parque das Nações, até achou que Dominic estava dez vezes maior. “Para mim passou uma eternidade. Claro que o agarrei e ele reclamou que estava apertando demais”, brinca. “Quando fiz uma chamada de vídeo com meus pais e meus irmãos, voltei a ficar emocionada. Foi um dia de muito choro, mas foram lágrimas boas.”

Para poder retornar àqueles que foram e são sua fonte de força, Danielle agradece ao atendimento e amor dedicado a ela pelos profissionais da saúde que a atenderam nos últimos dias. “Quando saí do leito, acho que eles ficaram mais felizes do que eu”, conta, emocionada, citando o máximo de nomes que conseguia lembrar. “Não são só prestadores de serviço. Acima de tudo, são pessoas que estão expostas e combatem doenças de frente. Vivemos tempos de valores trocados. Eles são bem mais importantes que jogadores de futebol e artistas famosos. Merecem respeito e terão minha gratidão eterna.”

TRAJETÓRIA
Danielle arrumou emprego como representante de atendimento de uma empresa de telemarketing em São Paulo no começo de março, pouco tempo depois da notícia do primeiro caso da Covid-19 no Brasil. Ela diz que dividia uma sala com cerca de 30 pessoas, onde um ar-condicionado trabalhava furiosamente e uma garota começou a ficar mal. Entre licenças médicas mais frequentes, começaram a reparar que os sintomas batiam com o que acompanhavam sobre o novo coronavírus na TV.

“A empresa não fechou nosso departamento de maneira imediata, como deveria fazer. Fomos mandados para casa no dia 8 (de março) e no dia 9 comecei a ficar ruim. Outras pessoas também ficaram doentes, mas eu fui o primeiro caso com sintomas bem graves”, afirma. Ela optou por não divulgar o nome da empresa.

No início, a andreense achava que sofria de uma crise de sinusite, até que uma médica que a atendeu na Policlínica Parque Novo Oratório percebeu a suspeita. Segundo a ex-paciente, a pior parte é a falta de ar motivada pela doença, cujo desenvolvimento é muito rápido.

Sobre sua ida ao Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia, recorda da viagem de ambulância e do ambiente relativamente vazio. “Tinham mais três pacientes (quando chegou) e os números aumentaram com o passar dos dias (ontem eram 33). Todos tinham aparente problemas extras, como diabetes ou pressão alta. Nunca tive complicações do tipo nem estou no grupo de risco. Você percebe que qualquer um pode ser vítima. É apavorante.”

Agora com alta, Danielle está em período de quarentena por 14 dias. O adequado seria ficar separada até mesmo da família, mas sua realidade não permite, pois reside em uma casa pequena no Parque das Nações. Uso constante de máscara e luvas, não compartilhar talheres e intenso cuidado com higiene diária fazem parte da nova rotina. “Minha preocupação não é só comigo. Preciso pensar nos outros, sempre. Isso me assusta ainda hoje. Vou continuar me cuidando e prefiro ser uma pessoa reclusa do que alguém que não respeita o próximo.” 



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‘Eu pensei demais na minha família e não me permiti desistir’

Primeira paciente a ter alta do hospital de campanha de Sto.André, Danielle da Silva Máximo enaltece equipe médica: ‘Gratidão’

Luís Felipe Soares
Do Diário do Grande ABC

27/04/2020 | 00:01


Uma casa no Parque das Nações, em Santo André, guarda fonte de força especial que Danielle da Silva Máximo, 26 anos, precisou para não se entregar para a doença que assusta o planeta. Desde 2017, o local serve de moradia para a família da jovem andreense, mulher de Vinicius e mãe do pequeno Dominic, 2. A conexão entre eles foi fundamental para que ela enfrentasse a Covid-19 em duelo de vida e morte e saísse vitoriosa. Depois de seis dias internada, ela está de volta para o lar como a primeira pessoa a receber alta do hospital de campanha montado nos três ginásios do Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia.

“Tive que trabalhar muito bem minha cabeça e meu coração. Antes mesmo de internar, já estava com medo de voltar para o hospital. Senti uma piora da minha situação e isso aumenta a tensão. Lá (no leito), realmente me liguei na família”, disse a andreense. “Quanto maior fosse o desespero, maiores eram as chances de não ir embora. Lembrava demais do meu marido e do meu filho, além do resto do pessoal, e queria vê-los. Não me permiti desistir.”

Danielle deu entrada no hospital de campanha no dia 19. Ficou seis dias. “Fui uma paciente obediente, com muita força de vontade.” Em meio à rotina de atendimentos e observações, não é permitido conexão com o mundo exterior. “Mas meu marido conseguiu que me entregassem uma cartinha que ele fez com meu filho. Isso me fez chorar horrores em vários momentos. Chorava, lia, via a mãozinha do Dominic estampada e me lembrava que eles estavam esperando. Isso me dava forças”, conta.

Na sexta-feira cedo, ela soube da possibilidade de ter alta no começo da tarde. Não conseguia dormir e ficou mais agitada do que nunca. “Foi uma mistura de sentimentos, uma união de várias coisas passando pela minha cabeça”, lembra. Ao longo da manhã, recorda que toda a equipe demonstrou animação sobre a possibilidade de alta da paciente, com a maioria deles se reunindo no caminho e batendo palmas na medida em que a jovem deixava o local, por volta do meio-dia. Vídeo postado nas redes sociais do prefeito Paulo Serra (PSDB), no sábado, viralizou na internet.

O sentimento de alívio foi tomado por emoção enorme quando viu Vinicius. “O reencontro com meu marido foi um baque. Desabei e fiquei muito feliz ao mesmo tempo. Ele sempre foi um companheiro incrível. Foi a melhor sensação do mundo porque sabia que estava em casa.” De volta ao Parque das Nações, até achou que Dominic estava dez vezes maior. “Para mim passou uma eternidade. Claro que o agarrei e ele reclamou que estava apertando demais”, brinca. “Quando fiz uma chamada de vídeo com meus pais e meus irmãos, voltei a ficar emocionada. Foi um dia de muito choro, mas foram lágrimas boas.”

Para poder retornar àqueles que foram e são sua fonte de força, Danielle agradece ao atendimento e amor dedicado a ela pelos profissionais da saúde que a atenderam nos últimos dias. “Quando saí do leito, acho que eles ficaram mais felizes do que eu”, conta, emocionada, citando o máximo de nomes que conseguia lembrar. “Não são só prestadores de serviço. Acima de tudo, são pessoas que estão expostas e combatem doenças de frente. Vivemos tempos de valores trocados. Eles são bem mais importantes que jogadores de futebol e artistas famosos. Merecem respeito e terão minha gratidão eterna.”

TRAJETÓRIA
Danielle arrumou emprego como representante de atendimento de uma empresa de telemarketing em São Paulo no começo de março, pouco tempo depois da notícia do primeiro caso da Covid-19 no Brasil. Ela diz que dividia uma sala com cerca de 30 pessoas, onde um ar-condicionado trabalhava furiosamente e uma garota começou a ficar mal. Entre licenças médicas mais frequentes, começaram a reparar que os sintomas batiam com o que acompanhavam sobre o novo coronavírus na TV.

“A empresa não fechou nosso departamento de maneira imediata, como deveria fazer. Fomos mandados para casa no dia 8 (de março) e no dia 9 comecei a ficar ruim. Outras pessoas também ficaram doentes, mas eu fui o primeiro caso com sintomas bem graves”, afirma. Ela optou por não divulgar o nome da empresa.

No início, a andreense achava que sofria de uma crise de sinusite, até que uma médica que a atendeu na Policlínica Parque Novo Oratório percebeu a suspeita. Segundo a ex-paciente, a pior parte é a falta de ar motivada pela doença, cujo desenvolvimento é muito rápido.

Sobre sua ida ao Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia, recorda da viagem de ambulância e do ambiente relativamente vazio. “Tinham mais três pacientes (quando chegou) e os números aumentaram com o passar dos dias (ontem eram 33). Todos tinham aparente problemas extras, como diabetes ou pressão alta. Nunca tive complicações do tipo nem estou no grupo de risco. Você percebe que qualquer um pode ser vítima. É apavorante.”

Agora com alta, Danielle está em período de quarentena por 14 dias. O adequado seria ficar separada até mesmo da família, mas sua realidade não permite, pois reside em uma casa pequena no Parque das Nações. Uso constante de máscara e luvas, não compartilhar talheres e intenso cuidado com higiene diária fazem parte da nova rotina. “Minha preocupação não é só comigo. Preciso pensar nos outros, sempre. Isso me assusta ainda hoje. Vou continuar me cuidando e prefiro ser uma pessoa reclusa do que alguém que não respeita o próximo.” 

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