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Diferença entre ‘o profissional’ e outros


Cintia Bortotto

04/03/2019 | 07:04


Tenho refletido muito sobre profissionalismo, desde o juramento que é feito na maior parte das celebrações de colação de grau até a realidade muitas vezes dura do dia a dia. No fim do ciclo universitário, normalmente prometemos ética, seguir a profissão dentro do maior grau de eficiência, eficácia, qualidade e serviço ao outro ou à sociedade.

Mas é isso que temos presenciado? Em meio a tantas tristes notícias nas últimas semanas, como o rompimento da barragem de Brumadinho, o incêndio no Ninho do Urubu, que deixou dez vítimas, jovens, adolescentes, e até mesmo em uma análise mais próxima do acidente que levou Ricardo Boechat, questiono-me se de fato foram bons profissionais todos os que fizeram as interfaces com os eventos imediatamente anteriores às tragédias.

Será que os engenheiros que realizaram os laudos atestando o baixo risco de rompimento da barragem de Brumadinho foram bons profissionais? Exerceram bem sua profissão? Será que os gestores da Vale fizeram todas as perguntas devidas? Foram exemplos de administradores em termos de qualidade? Será que quem fez o projeto do Ninho do Urubu, que não correspondia à realidade, fez seu melhor trabalho? Será que os responsáveis pela fiscalização fizeram seu melhor? Cumpriram as promessas da profissão? Será que voar com os indícios de que não se deveria foi a atitude mais profissional?

Na minha opinião, a resposta às perguntas acima é ‘não’. Infelizmente, diminui-se a responsabilidade das profissões, dos cargos, colocando-se a responsabilidade em entidades como se elas não fossem conjunto de pessoas que tomam decisões e as executam. Mas, em meio a tudo isso, vemos também a reverência feita ao profissional, que não era ‘um’ (indefinido), mas era ‘o’ (definido), cheio de opinião, de atitude, posicionamento.

Admiro realmente bons profissionais e de fato respeito bons jornalistas. É uma profissão ímpar que demanda estudo, atualização, posicionamento embasado. Não são todos que conseguem exercer a responsabilidade de sua profissão como Boechat o fez. Ouvi interlocutores dele, que na maior parte do tempo exibiam opiniões contrárias, críticas aos seus posicionamentos, mas que no dia seguinte à sua morte prestaram seu pesar. Este é o reconhecimento de um grande “oponente” de pensamento, de uma pessoa que faz o poder de análise e crítica de uma nação aumentar. Fiquei feliz de poder ouvir tais relatos, lembrei do meu tempo de esportista, em que competir com os melhores me empurrava para frente, para ser melhor.

Uma nova reflexão se faz presente: o custo de ser um bom profissional vale a pena? Invariavelmente não se posicionar, fazer o mais fácil, obedecer sem questionar, fazer o errado para manter o emprego ou para receber valores é mais fácil. Mas não é isso que os bons profissionais fazem, estes fazem sim o que é mais difícil e não exatamente do ponto de vista técnico, mas também do ponto de vista comportamental, ético. Refletem sobre suas responsabilidades, sabem o que é o correto a ser feito e não se deixam levar pelo que é fácil, pelo caminho mais curto.

Ao nos profissionalizarmos, colocamo-nos a serviço de uma empresa, de pessoas, não poderíamos e não deveríamos nos desassociar disso. Ao longo de 24 anos de carreira, tive momentos difíceis, momentos até em que falar a verdade ou me recusar a fazer algo que na minha opinião não era correto me fizeram perder meu emprego, mas continuo coerente às promessas que fiz na noite da minha colação de grau, na frente dos meus pais. Gostaria que meus filhos fossem extremamente responsáveis com o compromisso às suas profissões, independentemente de quais profissões escolherão.

Talvez se a ética tivesse vencido medos, omissões e a falta de profissionalismo tivéssemos mais ‘Boechats’ e menos tragédias evitáveis.

E minha reflexão acaba por desejar piamente mais profissionais sérios. Para o nosso bem e de nosso País. 



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Diferença entre ‘o profissional’ e outros

Cintia Bortotto

04/03/2019 | 07:04


Tenho refletido muito sobre profissionalismo, desde o juramento que é feito na maior parte das celebrações de colação de grau até a realidade muitas vezes dura do dia a dia. No fim do ciclo universitário, normalmente prometemos ética, seguir a profissão dentro do maior grau de eficiência, eficácia, qualidade e serviço ao outro ou à sociedade.

Mas é isso que temos presenciado? Em meio a tantas tristes notícias nas últimas semanas, como o rompimento da barragem de Brumadinho, o incêndio no Ninho do Urubu, que deixou dez vítimas, jovens, adolescentes, e até mesmo em uma análise mais próxima do acidente que levou Ricardo Boechat, questiono-me se de fato foram bons profissionais todos os que fizeram as interfaces com os eventos imediatamente anteriores às tragédias.

Será que os engenheiros que realizaram os laudos atestando o baixo risco de rompimento da barragem de Brumadinho foram bons profissionais? Exerceram bem sua profissão? Será que os gestores da Vale fizeram todas as perguntas devidas? Foram exemplos de administradores em termos de qualidade? Será que quem fez o projeto do Ninho do Urubu, que não correspondia à realidade, fez seu melhor trabalho? Será que os responsáveis pela fiscalização fizeram seu melhor? Cumpriram as promessas da profissão? Será que voar com os indícios de que não se deveria foi a atitude mais profissional?

Na minha opinião, a resposta às perguntas acima é ‘não’. Infelizmente, diminui-se a responsabilidade das profissões, dos cargos, colocando-se a responsabilidade em entidades como se elas não fossem conjunto de pessoas que tomam decisões e as executam. Mas, em meio a tudo isso, vemos também a reverência feita ao profissional, que não era ‘um’ (indefinido), mas era ‘o’ (definido), cheio de opinião, de atitude, posicionamento.

Admiro realmente bons profissionais e de fato respeito bons jornalistas. É uma profissão ímpar que demanda estudo, atualização, posicionamento embasado. Não são todos que conseguem exercer a responsabilidade de sua profissão como Boechat o fez. Ouvi interlocutores dele, que na maior parte do tempo exibiam opiniões contrárias, críticas aos seus posicionamentos, mas que no dia seguinte à sua morte prestaram seu pesar. Este é o reconhecimento de um grande “oponente” de pensamento, de uma pessoa que faz o poder de análise e crítica de uma nação aumentar. Fiquei feliz de poder ouvir tais relatos, lembrei do meu tempo de esportista, em que competir com os melhores me empurrava para frente, para ser melhor.

Uma nova reflexão se faz presente: o custo de ser um bom profissional vale a pena? Invariavelmente não se posicionar, fazer o mais fácil, obedecer sem questionar, fazer o errado para manter o emprego ou para receber valores é mais fácil. Mas não é isso que os bons profissionais fazem, estes fazem sim o que é mais difícil e não exatamente do ponto de vista técnico, mas também do ponto de vista comportamental, ético. Refletem sobre suas responsabilidades, sabem o que é o correto a ser feito e não se deixam levar pelo que é fácil, pelo caminho mais curto.

Ao nos profissionalizarmos, colocamo-nos a serviço de uma empresa, de pessoas, não poderíamos e não deveríamos nos desassociar disso. Ao longo de 24 anos de carreira, tive momentos difíceis, momentos até em que falar a verdade ou me recusar a fazer algo que na minha opinião não era correto me fizeram perder meu emprego, mas continuo coerente às promessas que fiz na noite da minha colação de grau, na frente dos meus pais. Gostaria que meus filhos fossem extremamente responsáveis com o compromisso às suas profissões, independentemente de quais profissões escolherão.

Talvez se a ética tivesse vencido medos, omissões e a falta de profissionalismo tivéssemos mais ‘Boechats’ e menos tragédias evitáveis.

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