Literatura Gonçalo Junior fala em seu livro sobre quadrinista que driblou a censura na ditadura militar

Entre as décadas de 1950 e 1970, um quadrinista chamado Carlos Zéfiro fez a alegria dos homens de todas as idades. Autor de revistinhas pornográficas em quadrinhos, chamadas à época de ‘catecismos’ – uma alusão ao livreto de ensino religioso –, ele falava sobre sexo em tempos de forte repressão moral, inclusive por ser distribuída durante o auge da ditadura militar (1964-1985).
Por diversas vezes os militares procuraram por ele, sem sucesso. “As editoras (Edrel e Grafipar) foram intensamente censuradas, perseguidas, tiveram as redações invadidas. Eles queriam Zéfiro, que era um nome maldito, uma misteriosa figura”, diz o jornalista Gonçalo Júnior, autor da biografia recém-lançada O Deus da Sacanagem – A Vida e o Tempo de Carlos Zéfiro (Noir, 384 páginas, R$ 59,90).
Zéfiro, na verdade, era o pseudônimo usado pelo funcionário público carioca Alcides Caminha, que viveu no subúrbio de Anchieta, no Rio de Janeiro, e só foi descoberto em 1991, quando a revista Playboy publicou a verdadeira identidade do maior pornógrafo brasileiro. “Comecei a escrever este livro para provar que Alcides não era Zéfiro. porque dois meses antes de a Playboy revelar seu nome, outro desenhista, chamado Eduardo Barbosa, falou em uma matéria que a autoria era dele”, lembra. Só que, no decorrer da apuração, ele teve como fonte principal a irmã de Alcides, Valquíria Caminha, que confirmou a história do irmão. “Alcides foi revelado em novembro de 1991 e oito meses depois morreu em razão de um infarto fulminante. Teve uma vida de glória muito rápida. Ele estava muito feliz, tinha planos de voltar a desenhar, adaptar grandes obras literárias eróticas para os quadrinhos, e acabou morrendo quando voltava do aniversário de um filho”, conta Gonçalo, que ressalta que mais do que a biografia de Zéfiro, o livro é um tratado completo sobre a história da pornografia no Brasil e ajuda a compreender o comportamento sexual do brasileiro ao longo de décadas.
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