A crise financeira mundial preocupa o governo federal tanto que ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou ajustes nas contas, com o objetivo de impedir mais gastos públicos, sem reduzir os investimentos. O chamado superavit primário (que é a economia feita pelo setor público para pagar os juros da dívida do País) teve aumento de R$ 10 bilhões. Desta maneira subirá o montante que o governo terá para aportar em obras de infraestrutura, além de outros investimentos.
O anúncio tem como objetivo precaver o Brasil de possíveis efeitos colaterais da crise que assola o mundo. Mantega explicou que as medidas fiscais anunciadas poderão abrir espaço para que o Banco Central, eventualmente, adote medidas de crescimento da economia, caso seja necessário.
"Temos de mudar essa equação entre a política fiscal e monetária. Se tivermos uma situação pior, o BC estará em condições de reagir com política monetária mais expansionista, caso haja agravamento."
O ministro avaliou que a situação externa segue indefinida, com grandes chances de piora. "Tomara que os países ricos resolvam a situação. Mas não acho que isso aconteça. Acredito que situação dos países ricos vai se arrastar porque as dívidas não foram equacionadas, não foram tomadas medidas à altura dos problemas que eles têm", disse.
NA PRÁTICA - O acréscimo corresponde a alta entre 0,25% a 0,30% do Produto Interno Bruto (soma das riquezas do País). Mantega disse que o aumento da meta será para o governo central (formado por Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) e não para o setor privado. Assim, a economia desses órgãos passará de pouco mais de R$ 81 bilhões para R$ 91 bilhões.
A medida, disse o ministro, ajudará elevar os investimentos no País, com destaque para as obras do PAC. Com isto, a pressão inflacionária, que interfere diretamente no bolso da população, deve ser estabilizada e até o meio de 2012.
RISCOS AO CONSUMIDOR - Antônio Colangelo Luz, professor de Economia da Trevisan Escola de Negócios, afirmou que o grande risco para o Brasil é a volta da inflação, que modifica o preço dos produtos ao consumidor, diminuindo o poder de compra, em especial a crédito.
"As medidas anunciadas anteriormente, em conjunto com a de ontem, têm como foco conter a demanda e recuar a inflação. A ideia é fazer com que o governo gaste um pouco mais, pois a economia está meio parada, principalmente nas obras do governo que foram postergadas e 5% delas devem ser retomadas."
Mauro Rochilin, professor de Economia do Ibmec, foi mais a fundo e afirmou que a medida foi tomada em vista da reunião de amanhã do Copom, que deve refazer os cálculos para a Selic (taxa básica de juros). "Este é um modo de pressionar o BC para sinalizar que o mercado, em conjunto com o ministério, quer que baixe a taxa de juros em no mínimo 0,25%, já nesta reunião. O que foi anunciado é para a torcida ver. De fato o superavit já está praticamente conquistado (3% do PIB), a data é que teve um peso bombástico."
Ambos concordam que o aumento é positivo para o País. Isso porque ajuda a combater a inflação, já que a poupança do governo irá consumir menos e a chance de controlar os preços é maior. A conta é simples: maior superavit leva a menor consumo, que faz a inflação e a Selic caírem.
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