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Terra de entulhos


Rodolfo de Souza

09/08/2018 | 07:00


 A montanha era imensa. De fato, impressionou-me o tamanho do monte de entulho que vi numa localidade por onde transitava noutro dia. 

Aliás, é costume meu, desde sempre, pensar no endereço para o qual são levadas aquelas pesadas caçambas de entulho que, depois de cheias, o caminhão transporta para bem longe dos olhos de quem faz a reforma da casa e se livra facilmente de reboco, azulejos velhos e demais detritos. Logicamente que no afã de tornar sua residência mais bonita e aconchegante, retira tudo o que não lhe serve mais e trata logo de fazer desaparecer estas sobras inoportunas, e esquecer. Como num passe de mágica. Para onde vão, isso não lhe interessa. Paga bem para fazê-las sumir da sua frente. É o que basta.

Claro que todo esse lixo deve ser depositado em algum lugar do planeta. Não há como reaproveitá-lo, nem despachá-lo para a estratosfera. Mas que é preciso jogá-lo fora, lá isso é. Aliás, esta expressão é antiga, e designa livrar-se do material que deixou de ser útil, as rebarbas, o que se estragou... 

Apesar de que, jogar fora, em tempos modernos, ganhou nova roupagem. Vista agora como ato de depositar em qualquer canto deste mundo sofrido tudo aquilo que ele certamente não conseguirá digerir, a expressão deixa no ar um cheiro de constrangimento, até na forma de se discutir a respeito. 

Mesmo assim, toda porcaria, tudo o que é descartado porque não tem mais utilidade, continua sendo guardado sem critério, sem dor na consciência, em qualquer localidade desta mesma Terra que habitamos e que não suporta mais tanto peso.

No caso do entulho, lembra-me ter visto, inclusive, uma dessas caçambas, perdida lá no alto do monte. Parecia até uma miniatura de chaveiro por causa do seu tamanho frente à elevação de detritos que ali foram se acumulando, dia após dia, durante anos.

Mas é preciso demolir casas para construir outras, ou mesmo edifícios; talvez só reformar a velha, nunca se sabe. Diga-se de passagem, a humanidade nunca sabe o que é conveniente saber. “Não toquemos no assunto para que ele não se materialize e vire verdade.” – é o que lhe vai no subconsciente.

Entretanto, pelo andar da carruagem, penso que não está longe o tempo em que o lixo baterá à nossa porta, tamanha a quantidade que se coloca diariamente nos lixões e nos depósitos de entulhos. 

É a civilização moderna, cuja estrutura cromossômica é formada pelo gene do consumo, a responsável por este acúmulo que vai ganhando volume até que, num determinado momento, deixe de crescer para o alto e comece a esparramar. E, quando isso acontecer, lentamente se espalhará, estenderá seus tentáculos para além dos muros e tomará conta das ruas. 

Muito nos alegrará, então, saber que temos novos vizinhos. Silenciosos e malcheirosos vizinhos que, sorrateiramente, tomaram conta de tudo e agora anseiam por mais lixo como forma de fartar seu apetite voraz.



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