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A apatia diante da epidemia

A dengue, que se arrasta há duas décadas no Estado de São Paulo, atingiu neste ano o pior quadro na maioria dos municípios


Wilson Marini

15/04/2010 | 00:00


A dengue, que se arrasta há duas décadas no Estado de São Paulo, atingiu neste ano o pior quadro na maioria dos municípios, e de forma escandalosa no Litoral e regiões mais quentes do Interior. Rio Preto, Ribeirão Preto, Araçatuba e Guarujá, entre outras, perderam a conta do número de casos em 2010. São milhares de registros, que somados aos milhares verificados em anos anteriores, tornam a maioria da população dessas cidades contaminada por pelo menos um sorotipo do vírus. O problema para o futuro é que a pessoa infectada por um segundo sorotipo tem ampliada a chance de contrair dengue hemorrágica, segundo especialistas. Quem se incomoda?

Dois lados
Na esfera estadual, falar abertamente sobre o assunto passa a ser bom tema apenas para a oposição. "O perigo é real e imediato e exige mobilização total", alerta o deputado Fausto Figueira (PT), que é médico. "O problema é grave o bastante para que o Ministério Público apure eventuais omissões das autoridades responsáveis." A resposta política do governo é tentar suavizar os dados. A Secretaria de Saúde afirma que o número de casos no Estado em março (8.076, na estatística oficial) é 52% inferior ao registrado em fevereiro. Correto. Não informa, porém, que a conta mais honesta deve ser feita multiplicando-se por dez cada caso notificado. E não compara com anos anteriores. Joga-se com os números.

O risco
Os sucessivos recordes da epidemia - nunca a doença afetou tanto como em 2010 na maioria das cidades paulistas - traçam um panorama sombrio de saúde pública que poderá ter consequências ainda piores no verão seguinte, se medidas coordenadas e inteligentes não forem tomadas agora. E o pior: à ineficiência da maioria das ações locais das prefeituras, entidades e voluntários, soma-se a postura olímpica das autoridades estaduais que não reconhecem publicamente a existência de uma grave epidemia. Ou pelo menos, não tomam atitudes condizentes com a séria ameaça à saúde pública.

As águas de abril
Represas do Alto Tietê, na Grande São Paulo, passaram do limite de 100% de armazenamento. Uma chuva forte na cabeceira pode gerar problemas em áreas habitadas, segundo revela O Diário de Mogi. A água está literalmente "derramando". Depende apenas de São Pedro. "Essa é uma situação atípica", afirma o superintendente de Produção de Água da Sabesp, Hélio Castro. "Pelo menos desde que estou aqui (1992) não me lembro de um quadro como este", referindo-se ao nível das barragens nesta época do ano.

Alertas de novembro
Situação atípica, mas prevista. A estratégia da Sabesp em adiar as operações de descarga das represas em dezembro merece investigação no mínimo como aprendizado nesses tempos de aquecimento global. Alertas sobre o elevado nível dos rios haviam sido disparados de Brasília pela ANA (Agência Nacional de Águas) no início de novembro. Os avisos foram empurrados com a barriga até o ponto que não dava mais para segurar, na metade de dezembro. A Sabesp retardou o esvaziamento porque, confiando nos dados da série histórica, temia causar diminuição do estoque de água para abastecimento da população da Grande São Paulo após o verão. Não contava com dois meses seguidos de chuva, situação "atípica". Como não contava com as águas de abril. E agora, atua como equilibrista, torcendo para não chover.



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A apatia diante da epidemia

A dengue, que se arrasta há duas décadas no Estado de São Paulo, atingiu neste ano o pior quadro na maioria dos municípios

Wilson Marini

15/04/2010 | 00:00


A dengue, que se arrasta há duas décadas no Estado de São Paulo, atingiu neste ano o pior quadro na maioria dos municípios, e de forma escandalosa no Litoral e regiões mais quentes do Interior. Rio Preto, Ribeirão Preto, Araçatuba e Guarujá, entre outras, perderam a conta do número de casos em 2010. São milhares de registros, que somados aos milhares verificados em anos anteriores, tornam a maioria da população dessas cidades contaminada por pelo menos um sorotipo do vírus. O problema para o futuro é que a pessoa infectada por um segundo sorotipo tem ampliada a chance de contrair dengue hemorrágica, segundo especialistas. Quem se incomoda?

Dois lados
Na esfera estadual, falar abertamente sobre o assunto passa a ser bom tema apenas para a oposição. "O perigo é real e imediato e exige mobilização total", alerta o deputado Fausto Figueira (PT), que é médico. "O problema é grave o bastante para que o Ministério Público apure eventuais omissões das autoridades responsáveis." A resposta política do governo é tentar suavizar os dados. A Secretaria de Saúde afirma que o número de casos no Estado em março (8.076, na estatística oficial) é 52% inferior ao registrado em fevereiro. Correto. Não informa, porém, que a conta mais honesta deve ser feita multiplicando-se por dez cada caso notificado. E não compara com anos anteriores. Joga-se com os números.

O risco
Os sucessivos recordes da epidemia - nunca a doença afetou tanto como em 2010 na maioria das cidades paulistas - traçam um panorama sombrio de saúde pública que poderá ter consequências ainda piores no verão seguinte, se medidas coordenadas e inteligentes não forem tomadas agora. E o pior: à ineficiência da maioria das ações locais das prefeituras, entidades e voluntários, soma-se a postura olímpica das autoridades estaduais que não reconhecem publicamente a existência de uma grave epidemia. Ou pelo menos, não tomam atitudes condizentes com a séria ameaça à saúde pública.

As águas de abril
Represas do Alto Tietê, na Grande São Paulo, passaram do limite de 100% de armazenamento. Uma chuva forte na cabeceira pode gerar problemas em áreas habitadas, segundo revela O Diário de Mogi. A água está literalmente "derramando". Depende apenas de São Pedro. "Essa é uma situação atípica", afirma o superintendente de Produção de Água da Sabesp, Hélio Castro. "Pelo menos desde que estou aqui (1992) não me lembro de um quadro como este", referindo-se ao nível das barragens nesta época do ano.

Alertas de novembro
Situação atípica, mas prevista. A estratégia da Sabesp em adiar as operações de descarga das represas em dezembro merece investigação no mínimo como aprendizado nesses tempos de aquecimento global. Alertas sobre o elevado nível dos rios haviam sido disparados de Brasília pela ANA (Agência Nacional de Águas) no início de novembro. Os avisos foram empurrados com a barriga até o ponto que não dava mais para segurar, na metade de dezembro. A Sabesp retardou o esvaziamento porque, confiando nos dados da série histórica, temia causar diminuição do estoque de água para abastecimento da população da Grande São Paulo após o verão. Não contava com dois meses seguidos de chuva, situação "atípica". Como não contava com as águas de abril. E agora, atua como equilibrista, torcendo para não chover.

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