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Quando o prazer vira compulsão


Bruna Gonçalves
Do Diário do Grande ABC

06/06/2010 | 07:41


Todo mundo já deve ter cometido algum exagero. Seja quase estourar o cartão de crédito em uma tarde no shopping ou passar horas em frente ao computador. São ações consideradas ‘normais' até que passe de um simples prazer para uma necessidade, criada para substituir alguma frustração ou desequilíbrio emocional.

Se isso se tornar frequente e fugir do controle é sinal de alerta: compulsão moderna.

O psicoterapeuta Alessandro Vianna explica que a compulsividade se enquadra nos transtornos do espectro obsessivo-compulsivo. "Nos últimos anos é comum ver pessoas compulsivas. Ela se desenvolve por meio de um comportamento, principalmente ligado a questões emocionais, como autoestima baixa, ansiedade e nervosismo do dia a dia. Ao comprar ou passar horas na internet a pessoa sente aquele prazer momentâneo, porém, em seguida, pode vir o arrependimento, por perceber que não era necessário", explicou.

A compulsão é observada em adolescentes e adultos, homens ou mulheres. "A pessoa geralmente está fragilizada e encontra nisso algo que lhe proporcione satisfação imediata".

‘Comprar me faz sentir vivo', diz engenheiro
"Acho que sou uma consumidora compulsiva desde a adolescência". É assim que a comerciante de São Bernardo Regiane Rappoli Benedelli, 42 anos, responde ao ser questionada sobre a paixão pelas compras.

Segundo o psicoterapeuta Alessandro Vianna estudos apontam que o número de consumidores compulsivos tem crescido. "Pesquisas revelam que 3% da população tem esse perfil, mas acredito que possa ser até maior", revelou.

A comerciante contou que desde os 11 anos, quando começou a trabalhar, adorava sair para fazer compras. "Minha obsessão é por biquínis. Tenho mais de 50 conjuntos. Quando viajo sempre acabo comprando algum e nunca repito o modelo. Uma vez, cheguei a gastar R$ 7 mil em um dia só com biquínis", contou.

Ela diz que o marido não se conforma com os gastos exagerados. "É que se vou ao shopping sempre quero comprar alguma coisa. Se volto para casa sem nada fico frustrada", disse.

A compulsão é tão grande que ela mesma confessa que já doou muitas roupas com a etiqueta. "É o que eu mais faço. Se compro e visto duas vezes a peça e não gosto, sei que posso dar embora, porque não vou usar."

De acordo com a professora de psiquiatria e coordenadora do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) de São Caetano Fernanda Piotto Fralonardo, a pessoa começa a ter esse comportamento quando há uma alteração nos impulsos responsáveis pela realização de um desejo. "Dentro do nosso cérebro há o sistema de recompensa, toda fez que fazemos algo que dá prazer o sistema é ativado. Quando passa a ser frequente é porque a dopamina (neurotransmissor relacionado ao prazer) sofreu alguma alteração", disse.

Dívidas - Mesmo comprando muito, Regiane sabe o limite. "Várias vezes vi meu cartão de crédito chegando ao limite. Nesse caso dou uma desacelarada. Tudo que eu faço é dentro do que eu posso pagar", explicou.

Muitas pessoas não conseguem ter esse controle. "Mesmo sabendo que não tem dinheiro, ela acaba comprando, Com isso acabam se endividando, fazendo crediários só para ter a satisfação da compra", observou a psiquiatra Fernanda.

De acordo com Alessandro, esses compulsivos podem fazer dívidas de até 10 vezes a renda mensal.

Homens - Não são apenas as mulheres que desenvolvem esse tipo de comportamento, os especialistas apontam que homens também cometem seus excessos, como é o caso do engenheiro eletrônico de Santo André, Denis de Moraes Salvo, 33. "Uma vez fui ao shopping para tomar um sorvete, e voltei com uma TV de Plasma de R$ 4.500", explicou o engenheiro que afirma que sempre vai ao shopping para comprar. "Sempre quero comprar, seja roupa ou eletrônico. Agora com a reforma do apartamento fico pensando o que está faltando. Me faz sentir vivo", disse.

Diagnóstico - Para os especialistas o primeiro passo para quem é compulsivo é assumir isso e buscar ajuda. "A pessoa precisa observar que o comportamento se a atitude se tornar rotineira e se tornar uma dependência, quando no momento é bom, mas depois vem aquele sentimento de culpa é preciso procurar ajuda", disse Vianna. Segundo a psicóloga do Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes) da Unifesp é preciso diagnóstico. "Assim será feito tratamento para que se identifique causas e soluções desse comportamento."

‘O PC só fica desligado quando acaba a luz'
Outra compulsão cada vez mais comum e que atinge principalmente jovens é pela internet. O vício é tão grande que muitos passam horas em frente ao computador e até deixam de sair de casa para não se desconectar do mundo virtual.

A estudante de pedagogia de Santo André, Mariana Fernandes Teixeira, 21 anos, deixa o computador ligado 24 horas. "O PC só fica desligado quando acaba a luz ou quando faço uma viagem longa. Caso seja de poucos dias deixo ligado", contou a jovem que passa o dia no computador. "Mesmo quando estou no trabalho ou estudando, o MSN e o Orkut sempre estão conectados", explicou a estudante que confessa que não consegue ficar longe do mundo virtual e já deixou de sair com os amigos. "Quando namorava um menino de outro Estado, eu ficava em casa só para ficar no MSN com ele", disse.

Para o psicoterapeuta Alessandro Vianna o comportamento pode ser atribuído a dois fatores: fragilidade emocional e desestruturação da família. "Hoje a vida moderna faz com que os pais passem o dia fora. Por isso, os filhos ficam solitários e encontram na internet uma nova vida. Passar um tempo navegando, conversando com as pessoas não tem problema. A situação começa a ficar crítica quando essa pessoa deixa de fazer coisas da vida real para ficar ligada ao virtual", explicou.

Segundo Vianna, é nesse meio que eles desenvolvem o prazer. "Muitos vão deixar de sair ou se saírem vão ficar com os sites de relacionamentos conectados. Isso prova o aprisionamento do jovem a esse meio, assim como nos jogos", ressaltou Vianna.



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