Santo André Secretário de Gabinete pede exoneração para pleitear Paço
de Santo André em outubro; prefeito demonstra decepção

O secretário de Gabinete de Santo André, Nilson Bonome, anunciou ontem seu desligamento da administração Aidan Ravin (PTB), onde atuou por mais de três anos. Pela manhã, durante reunião do PMDB paulista, liderado pelo deputado Baleia Rossi, o diretório decidiu por consenso lançar candidatura própria na cidade, deliberando por Bonome encabeçar a chapa majoritária. Com a dissidência, o agora ex-comissionado vai disputar a corrida eleitoral contra Aidan.
A saída de Bonome obrigou o chefe do Executivo a agir rápido para substituí-lo nas duas funções que exercia. Secretária adjunta de Gabinete, a advogada Fabiana Bozzella será alçada à titularidade da Pasta, enquanto a articulação entre Executivo e Legislativo ficará a cargo da vice-prefeita, Dinah Zekcer (PTB), que atuou por 16 anos na Câmara.
Fabiana se envolveu em caso pitoresco recentemente, quando o governo impugnou concurso público para procurador em razão de ela, integrante do alto escalão, constar na lista de inscritos.
Depois de pedir exoneração, Bonome assegurou que não seria "demagogo". Segundo ele, não há chance de retroceder. "Fui convencido de que eu seria o melhor nome para construir o voo solo. Não me ofereci para ser candidato. Apenas aceitei o desafio de unir o PMDB."
Baleia Rossi ratifica que a executiva estadual fez apelo para o secretário representar o PMDB dentro do esforço de buscar espaço e garantir fortalecimento. "Para nós, Santo André é estratégica. Vemos no Bonome densidade eleitoral, possui condições de agregar a legenda pela candidatura, algo que não ocorre há muito tempo, mas nada entrará como imposição." A última tentativa do PMDB ao Paço se deu em 2004, com Wilson Bianchi.
Bonome sustentou até setembro o status de homem-forte do governo. Chegou a chefiar três secretarias simultaneamente (Gabinete, Finanças e Saúde). Mas o prazo expirou. Aidan tomou as rédeas da administração, retirando algumas de suas atribuições.
O ultimato do PMDB para indicar o vice do prefeito azedou de vez a relação. O prefeito se negou a antecipar a escolha exclusivamente pelo partido, em detrimento dos aliados. Aidan afirmou que o episódio é "delicado", mas não se configura em novidade. "O Bonome demonstrou a vontade e esse sonho vai ser respeitado. Conversamos, não fui pego de surpresa", explicou o petebista, ao ressaltar que a decisão do PMDB tornou a saída "natural". "Ficaria difícil continuar."
Alegando que o título de homem-forte foi criado por jogo político, Aidan reconheceu que Bonome funcionava como "maestro da equipe", não escondendo a decepção com a saída e a empreitada em trincheira diferente. "Quando se faz projeto a intenção é ir até o fim. A ideia era construir história maior. Espero que haja chance de compor no segundo turno."
Presidente, Araújo não teve ciência da decisão
O presidente municipal do PMDB e da Câmara de Santo André, José de Araújo, ficou à mercê da decisão do diretório estadual por candidatura própria na cidade. Há mais de 30 anos no partido, Araújo mostrou contrariedade com a situação, salientando que ninguém o contatou para tratar o assunto. "Vamos marcar reunião com o (presidente da executiva paulista) Baleia Rossi para discutir essa questão. A definição pode ser tomada até junho entre municipal e estadual. Não haveria necessidade para precipitação."
Correligionário e colega de Câmara, Sargento Juliano disse que o encontro vai elucidar a conjuntura do PMDB local, salientando que "cada município tem sua peculiaridade", porém evitou entrar em embate. "A estadual é soberana. Vamos acatar a decisão." Após receberem a notícia pelo Diário, ambos compareceram no gabinete de Aidan Ravin. Eles defendiam que o partido deveria caminhar na órbita governista, mesmo sem garantia de indicar o vice na chapa do prefeito.
O discurso de Araújo foi utilizado pelos integrantes da estadual. O partido cobrou publicamente o presidente, que não estava atendendo aos interesses do PMDB, o que inviabilizaria o diretório de Santo André de seguir a resolução de lançar candidato a prefeito ou vice em cidades com mais de 200 mil habitantes.
A intervenção no diretório, entretanto, ficou em segundo plano. A medida deverá ser adotada em Santo André e ocorrerá em São Caetano. A estadual vai aguardar o julgamento da liminar sobre o imbróglio de São Caetano, provavelmente em duas semanas, para definir os próximos passos. "Vamos esperar o agravo ser apreciado pela Justiça. Porém tem tudo para ser positiva a decisão a nosso favor", alegou Baleia, reafirmando que o vereador Paulo Pinheiro vai disputar a sucessão de José Auricchio Júnior (PTB).
A princípio definido como o único candidato do PMDB em Santo André , Bonome salienta que, dependendo do encaminhamento, existe a possibilidade de dissolução. "O que se falou é que há chance de dissolver o diretório, porém primeiro se resolverá a situação em São Caetano."
Grana admite que saída facilita conversa
A saída de Nilson Bonome do governo Aidan Ravin refletiu positivamente dentro do PT. O pré-candidato ao Paço do partido, deputado estadual Carlos Grana, considera que o diálogo com o peemedebista fica mais fácil, a partir da dissidência. A negociação é para a vaga de vice na chapa petista.
"Vamos continuar nossas conversas com todos. (A saída) É um dos elementos que podem facilitar o entendimento", admite o parlamentar.
Aidan declara não acreditar que Bonome será o vice de Grana. "Vou achar que estaria vendido. Não vejo dessa forma, de o PMDB ter entregado os pontos. Primeiro tem de viabilizar a candidatura, estabilizar, e não negociar", pondera.
O PSDB é outra legenda que se julga favorecida com o adeus de Bonome. O pré-candidato tucano ao Paço, vereador Paulinho Serra, diz que é difícil para o eleitor entender a ruptura. "Do ponto de vista político-administrativo é esquizofrênico. Não se consegue explicar como o chefe de Gabinete do prefeito será seu concorrente na eleição."
O deputado estadual Orlando Morando (PSDB-São Bernardo) é mais enfático ao tratar da perda eleitoral de Aidan. "É estranho o aliado de ontem ser o inimigo de hoje. Mostra desestabilização do governo e isso ajuda nossa sigla, que já é forte no município", ressalta.
No entanto, com Bonome fora do governo e da discussão pela vice de Aidan, o PSDB desponta como favorito para compor chapa com o prefeito, impedindo o voo solo de Paulinho. "O partido nunca quis ter a vice. Se quiséssemos, já teríamos. Estamos trabalhando nossa candidatura e quem discute o principal não se preocupa com o secundário", salienta Morando.
O cientista político e professor da Fundação Santo André Marco Antônio Teixeira analisa que adversários de Aidan podem se beneficiar com a dissidência. "A tendência é que o apoio ao prefeito se fragmente."
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