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O 'besteirol' e os delírios da música brasileira

Gislaine Gutierre
Do Diário do Grande ABC
31/03/2001 | 16:10
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  Cantadas, as músicas do repertório popular brasileiro podem até ser interessantes e fazer muito sucesso. Mas algumas, quando lidas, provocam verdadeiros ataques de riso. Alguns compositores, talvez abusando da providencial licença poética que a música permite, criam letras que parecem não fazer sentido algum.

As elucubrações não poupam gênero e no rol do “besteirol” tem espaço para rock, pagode, forró, reggae e até a tradicional MPB. E depois de lançar um olhar crítico sobre as composições, o ouvinte tem a sensação de que pouca coisa inteligível sai desse universo.

Dizer que esses compositores estão errados pode soar como exagero. Afinal, na música realmente se pode fazer de tudo. Mas o que pensar de uma letra que diz Entre o céu e o firmamento/ Não há ressentimento/ Cada um ocupando o seu lugar (Firmamento, interpretada pelo grupo Cidade Negra)?

“O firmamento é o próprio céu, então é esquisito”, acredita o professor Pasquale Cipro Neto, colunista do Diário e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, na TV Cultura. “É exagerado, redundante”, completa.

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No repertório do Cidade Negra há outra esquisitice, quando Toni Garrido canta: Eu fui, eu fui, eu fui, eu fui pro outro lado de lá (Downtown). E o que é esse “outro lado de lá”?, pensa o pobre ouvinte. Se o “outro lado de lá” é “cá”, então o sujeito não saiu do lugar.

Mas pode haver uma saída pela tangente, no caso de o “lá” ser um outro lugar mais distante. Neste caso, o “cá” não seria exatamente onde está o sujeito. “É confuso, atrapalhado. Não é uma letra das mais poéticas”, analisa Pasquale.

Em outras situações, o problema da música não é meramente gramatical, mas resultado de uma má escolha das palavras, que culmina em algo ininteligível ou mesmo risível.

O grupo de forró Falamansa, por exemplo, faz sucesso com a música Xote dos Milagres, que começa assim: Escrevi seu nome na areia/ O sangue que corre em mim sai da tua veia.

Teria o fulano recebido sangue por transfusão? Não, na interpretação de Pasquale, que prefere entender que esta seria uma metáfora de que o rapaz depende daquela pessoa para viver. “Ele exagerou um pouco”, admite, enfim.

“Às vezes o que acontece é que a história é tão particular que só o autor conhece. É preciso ter sensibilidade para captar as metáforas”, esclarece o professor.

E haja condescendência para tanta poesia. De tanta colagem e metáfora, o hit cantado por Byafra nos anos 80, Sonho de Ícaro, soa quase como surreal: Viver, viver e não fingir/ Esconder no olhar, pedir não mais/ que permitir jogos de azar/ Fauno lunar, sombras no porão/ e um show vulgar todo verão".

O que dizer, então, do alvo das garrafadas no Rock in Rio, Carlinhos Brown, que compôs a indecifrável – mas muito bonita na interpretação de Marisa Monte – Maria de Verdade: Pousa-se toda Maria / No varal das 22 fadas nuas lourinhas / Fostes besouro Maria / e a aba do Pierrô descosturou na bainha.

“Acho que muitas vezes, para rimar, o compositor bota uma palavra que nem é a mais indicada, mas já que não encontra outra melhor, vai ela mesmo”, teoriza o guitarrista dos Titãs Tony Bellotto, que comanda no canal Futura o programa Afinando a Língua.

“É difícil você acertar a mão em uma letra, porque ela precisa ser original, ter um tema interessante e funcionar dentro da métrica da música”, defende o músico. “Mas para mim, clareza é fundamental. Há composições que são imagens delirantes e não me dizem nada”.

Às vezes, esses delírios se apresentam fantasiados de obras intelectualizadas. Humberto Gessinger, que faz questão de levantar a bandeira de compositor e letrista na banda Engenheiros do Hawaii, por exemplo, compôs uma música chamada Às Vezes Nunca, um título que dispensa mais comentários.

Mas, ironicamente, é dele mesmo a frase que mais se encaixa nessa triste realidade. Está na música Toda Forma de Poder, o primeiro sucesso da banda: Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada, nada, nada, não.




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