
Filmado em câmera digital, VinteDez terá pré-estréia no próximo dia 19, dentro da programação do É Tudo Verdade – 7º Festival Internacional de Documentários (leia mais nesta página). O curta-metragem de 26 minutos será exibido na sala 2 do Cineclube DirecTV, em São Paulo, às 23h.
Com patrocínio integral da Prefeitura de Santo André, o documentário é o vértice de uma jornada cinematográfica de Tata e César Filho. A cruzada em território andreense começou em 1991, quando Chiquinho (apelido pelo qual é conhecido César Filho) finalizou Rota ABC, registro dos “filhos e netos da elite do operariado” na região. “Eu tentei traduzir em imagens a ausência de perspectivas, de crença no futuro, dessa juventude. Por conta disso, o Rota ABC tem uma atmosfera fuliginosa, em preto-e-branco, desencantada”, diz Chiquinho.
Os dez anos que polarizam Rota e VinteDez sublinham duas realidades diferentes. Há uma década, a expectativa dos adolescentes estava sujeita ao sucateamento do parque industrial, à desaceleração do desenvolvimento da indústria automobilística e ao grito “no future”, decalque do testamento deixado pelos Sex Pistols no hino punk God Save the Queen.
“Toda a seqüência inicial do Rota foi tirada de São Paulo S/A (filme em que Luís Sérgio Person observa a puberdade das montadoras). Era para mostrar a euforia desenvolvimentista que não combinava com os jovens dos anos 90, sem perspectivas róseas”, afirma Chiquinho. A desesperança foi sustada em VinteDez. “Dez anos depois, eu volto e vejo uma guinada de 180 graus.”
A nova empreitada não foi solo. Tata Amaral, a diretora de Um Céu de Estrelas e Através da Janela, veio junto à capitania de favelas de Santo André.
“Logo que chegamos, encontramos uma atitude muito positiva, de combatividade. Uma consciência social enorme”, diz Tata. “Esse é um dado que está claro no filme.” Procede. O curta sutura imagens de jovens entre 14 e 18 anos, habitantes de bairros como Sítio dos Vianas, Centreville e Parque Novo Oratório. São todos participantes do movimento hip hop e não lavam as mãos para os problemas de suas comunidades.
“O VinteDez não é um documentário sobre o hip hop. O movimento é apenas um dado. O filme é sobre adolescentes carentes de Santo André, sobre jovens que se movimentam para transformar a sociedade”, diz Chiquinho. Tata completa: “Foi minha primeira experiência com hip hop. E essa participação ativa do jovem é um fenômeno de Santo André. Não é assim em todo lugar. Isso é fruto da política cultural da cidade, levada a cabo nas três gestões do (ex-prefeito) Celso Daniel.”
“Us mano e as mina” de Santo André correspondem às expectativas da dupla de diretores. Exemplo elementar do feedback é o DJ Douglas Lacerda, 17 anos, do grupo Aliança Periférica. Seu depoimento encerra o filme. Ele é o DJ que toda mãe e toda comunidade gostariam de ter. É presidente do grêmio de sua escola e foi eleito para representar seu bairro nas reuniões do Orçamento Participativo da cidade.
A atitude levou Tata e Chiquinho a tomar a liberdade de decretar o quinto elemento do hip hop, composto oficialmente pelas manifestações de DJs, MCs (cantores), breakers (dançarinos) e grafiteiros. A novidade é a posse, que Chiquinho explica. “Posses são as reuniões em que os jovens discutem a sua atuação na comunidade. Eles fazem de tudo. Vão às escolas para demonstrar o uso de preservativos, ministram workshops de grafite e de outros elementos do movimento”. Essa caldeirada artística da periferia andreense está pronta para correr o mundo, uma vez que deve ser inscrita em Marselha e Leipzig, os dois mais importantes festivais do cinema documental no globo. É o novo tráfico entre Santo André e a Europa. O tráfico de informações.
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