Além de buscar outras provas testemunhais, o juiz tentará anexar ao processo novas evidências técnicas que possam ajudar a Justiça a concluir o real motivo do afundamento do Shangri-lá. "Agora, começa uma nova investigaçao. Já requisitei ao juiz relator que ouça cinco testemunhas, parentes de um dos pescadores. E todas pessoas citadas por eles também serao ouvidas", contou a procuradora Teresa Cristina Bevilácqua. O pedido de reabertura do processo nº 812/1943 foi feito pela Procuradoria Especial da Marinha há três semanas.
Agilidade - Segundo o presidente do Tribunal Marítimo Mario Augusto de Camargo Ozório, a decisao de ouvir as testemunha lá mesmo em Arraial, onde vive a maioria, tem o objetivo de agilizar o andamento do processo. Ele afirma que o aspecto humanitário do caso foi um dos motivos da reabertura do processo. "Aceitamos este recurso da procuradoria em caráter excepcional porque acreditamos ser importante resgatarmos a memória destes pescadores. Além disso, queremos mostrar a estas famílias que o poder público nao vai se eximir de suas obrigaçoes", afirmou o presidente do Tribunal, ressaltando que se o processo concluir que os tripulantes do barco foram vítimas de um ataque, todos irao virar heróis de guerra. "Seus nomes serao inscritos no panteao dos mortos da 2ªGuerra e o nome do barco será incluído na lista de navios sacrificados na guerra", disse. Como divulgou o Jornal do Brasil em duas reportagens publicadas em fevereiro, até o final do ano passado, ninguém suspeitava de que o barco poderia ter sido afundado por um submarino alemao. Esta nova versao da história surgiu depois que o historiador Elisio Gomes enviou à Procuradoria Especial da Marinha uma cópia de um depoimento onde o capitao alemao afirmava ter abatido a tiros de canhao um barquinho com as mesmas características do Shangri-lá. De posse da informaçao, a procuradora Teresa Cristina e o diretor da Procuradoria, almirante Sérgio Queiroz, iniciaram um trabalho de reconstituiçao dos fatos, concluindo que nova versao era plausível.
Reaçao - A notícia de reabertura do processo do Shangri-lá pegou de surpresa a família do pescador aposentado Hércules da Costa Marques, 78 anos, que perdeu o pai, José, e o irmao, Zacarias, no naufrágio do barco. "Meu pai nem está querendo comentar o assunto com medo de sofrer outra decepçao. Nestes 57 anos, nossa família já teve muitas falsas esperanças. Mas confesso que fiquei bastante feliz", contou Maria Nazareth Carvalho, 37 anos.
Memória - Em julho de 1943, durante a II Guerra Mundial, o submarino U-199 da Alemanha nazista rondava a costa do Estado do Rio quando cruzou com barco Shangri-lá. O capitao do submarino alemao mandou afundar o pesqueiro com dois tiros de canhao, matando os dez tripulantes. Por mais de meio século, a história - contada num interrogatório pela tripulaçao do submarino abatido pela Força Aérea Brasileira (FAB) - ficou esquecida.
Até que no final do ano passado a Procuradoria Especial da Marinha pediu a reabertura do processo ao Tribunal Marítimo - responsável pelo julgamento de acidentes com embarcaçoes. Em 1943, o processo tinha sido arquivado por insuficiência de provas. "Esta nova prova é uma evidência muito forte. Achamos que era um dever humanitário pedir a reabertura do caso", disse a procuradora Teresa Cristina Bevilacqua, ressaltando que o fato reescreverá um importante capítulo da história do Brasil na 2º Guerra.
No depoimento, os alemaes - capturados dias depois como prisioneiros de guerra - contaram que no dia 22 de julho de 1943 afundaram um barco com as mesmas características do Shangri-lá, na regiao entre as cidades do Rio de Janeiro e Cabo Frio. Dias depois de atacar o Shangrilá, o U-199 foi afundado em 31 de julho de 1943 ainda no litoral do Rio. Doze dos 61 tripulantes sobreviveram e foram capturados e levados para os Estados Unidos.
Com o esclarecimento do episódio, os tripulantes do barco poderao virar heróis de guerra - já que um decreto presidencial havia determinado que todos os barcos de pesca estavam a serviço da marinha - e os parentes dos pescadores poderao exigir pensao de ex-combatente.
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