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Caso Shangri-lá é reaberto

09/03/2000 | 22:33
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 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A história do desaparecimento do barco pesqueiro Shangri-lá - cujos tripulantes foram mortos pelo submarino alemao U-199 em julho de 1943 - vai voltar à tona. 57 anos depois do sumiço do barquinho, o Tribunal Marítimo decidiu nesta quinta-feira reabrir o processo de investigaçao das causas do afundamento do pesqueiro, arquivado em 1944 por falta de provas. Nas próximas semanas, o juiz relator do processo Marcelo David Gonçalves e a procuradora Teresa Cristina Bevilácqua irao até o município de Arraial do Cabo ouvir os depoimentos dos parentes de alguns dos pescadores mortos na tragédia.

Além de buscar outras provas testemunhais, o juiz tentará anexar ao processo novas evidências técnicas que possam ajudar a Justiça a concluir o real motivo do afundamento do Shangri-lá. "Agora, começa uma nova investigaçao. Já requisitei ao juiz relator que ouça cinco testemunhas, parentes de um dos pescadores. E todas pessoas citadas por eles também serao ouvidas", contou a procuradora Teresa Cristina Bevilácqua. O pedido de reabertura do processo nº 812/1943 foi feito pela Procuradoria Especial da Marinha há três semanas.

Agilidade - Segundo o presidente do Tribunal Marítimo Mario Augusto de Camargo Ozório, a decisao de ouvir as testemunha lá mesmo em Arraial, onde vive a maioria, tem o objetivo de agilizar o andamento do processo. Ele afirma que o aspecto humanitário do caso foi um dos motivos da reabertura do processo. "Aceitamos este recurso da procuradoria em caráter excepcional porque acreditamos ser importante resgatarmos a memória destes pescadores. Além disso, queremos mostrar a estas famílias que o poder público nao vai se eximir de suas obrigaçoes", afirmou o presidente do Tribunal, ressaltando que se o processo concluir que os tripulantes do barco foram vítimas de um ataque, todos irao virar heróis de guerra. "Seus nomes serao inscritos no panteao dos mortos da 2ªGuerra e o nome do barco será incluído na lista de navios sacrificados na guerra", disse. Como divulgou o Jornal do Brasil em duas reportagens publicadas em fevereiro, até o final do ano passado, ninguém suspeitava de que o barco poderia ter sido afundado por um submarino alemao. Esta nova versao da história surgiu depois que o historiador Elisio Gomes enviou à Procuradoria Especial da Marinha uma cópia de um depoimento onde o capitao alemao afirmava ter abatido a tiros de canhao um barquinho com as mesmas características do Shangri-lá. De posse da informaçao, a procuradora Teresa Cristina e o diretor da Procuradoria, almirante Sérgio Queiroz, iniciaram um trabalho de reconstituiçao dos fatos, concluindo que nova versao era plausível.

Reaçao - A notícia de reabertura do processo do Shangri-lá pegou de surpresa a família do pescador aposentado Hércules da Costa Marques, 78 anos, que perdeu o pai, José, e o irmao, Zacarias, no naufrágio do barco. "Meu pai nem está querendo comentar o assunto com medo de sofrer outra decepçao. Nestes 57 anos, nossa família já teve muitas falsas esperanças. Mas confesso que fiquei bastante feliz", contou Maria Nazareth Carvalho, 37 anos.

DGABC

Memória - Em julho de 1943, durante a II Guerra Mundial, o submarino U-199 da Alemanha nazista rondava a costa do Estado do Rio quando cruzou com barco Shangri-lá. O capitao do submarino alemao mandou afundar o pesqueiro com dois tiros de canhao, matando os dez tripulantes. Por mais de meio século, a história - contada num interrogatório pela tripulaçao do submarino abatido pela Força Aérea Brasileira (FAB) - ficou esquecida.

Até que no final do ano passado a Procuradoria Especial da Marinha pediu a reabertura do processo ao Tribunal Marítimo - responsável pelo julgamento de acidentes com embarcaçoes. Em 1943, o processo tinha sido arquivado por insuficiência de provas. "Esta nova prova é uma evidência muito forte. Achamos que era um dever humanitário pedir a reabertura do caso", disse a procuradora Teresa Cristina Bevilacqua, ressaltando que o fato reescreverá um importante capítulo da história do Brasil na 2º Guerra.

No depoimento, os alemaes - capturados dias depois como prisioneiros de guerra - contaram que no dia 22 de julho de 1943 afundaram um barco com as mesmas características do Shangri-lá, na regiao entre as cidades do Rio de Janeiro e Cabo Frio. Dias depois de atacar o Shangrilá, o U-199 foi afundado em 31 de julho de 1943 ainda no litoral do Rio. Doze dos 61 tripulantes sobreviveram e foram capturados e levados para os Estados Unidos.

Com o esclarecimento do episódio, os tripulantes do barco poderao virar heróis de guerra - já que um decreto presidencial havia determinado que todos os barcos de pesca estavam a serviço da marinha - e os parentes dos pescadores poderao exigir pensao de ex-combatente.




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