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Livro resgata a arte primitiva no Brasil

Ricardo Ditchun
Da Redaçao
08/01/1999 | 21:33
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Em 1979, Jacques Ardies, um belga diplomado em ciências financeiras e comerciais, inaugurou em Sao Paulo sua primeira galeria de arte, a Cravo e Canela. Um ano depois, em outro local, abriu outra, que leva seu nome. Desde entao, Ardies - hoje assumidamente brasileiro - se dedica a divulgar, exclusivamente, a arte naif no Brasil e no exterior. Após dezenas de exposiçoes, ele acaba de fornecer mais uma grande contribuiçao para promover a chamada arte primitiva nacional (A arte naif no Brasil, Empresa das Artes, 246 páginas, R$ 60).

A ediçao, de luxo, tem textos do escritor e crítico de arte Geraldo Edson de Andrade. Além de reproduzir cerca de 200 dos mais representativos trabalhos do gênero, o livro fornece importantes informaçoes biográficas a respeito dos 77 artistas que tiveram suas obras selecionadas por Ardies. Entre tantos, portanto, destacam-se Antonio Poteiro, Dalvan, Heitor dos Prazeres (também compositor), Madeleine Colaço, Waldomiro de Deus, Zé Cordeiro, Helenos e José Antonio da Silva.

A ambientaçao naif é sempre deslumbrante. Sao praias, pequenas cidades, terras férteis, animais, gente simples, festas populares, ferrovias, flores, parques de diversoes etc. Em 1969, Anatole Jakovsky, um crítico francês considerado a maior autoridade mundial no assunto, sentenciou: "O Brasil representa, junto com a França e a Iugoslávia, um dos reservatórios mais ricos e variados da arte naif no mundo".

Naif, primitiva ou ingênua. Por meio destas três denominaçoes, esse tipo de pintura explora de modo insubstituível as raízes da cultura popular. Também por essa razao, paira sobre a produçao naif uma forte carga de preconceitos que, em geral, só é quebrada pelos antropólogos - muitos a usam como fonte para seus estudos. Erroneamente, costuma-se rotular a arte ingênua como uma traduçao rasteira do folclore. O motivo, entre muitos, é a origem do impulso que motiva os artistas naif: ausência de apelo intelectual.

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Criador e obra, assim, mantêm uma saudável e inata relaçao dialética que poe fim à autenticidade nao planejada. Ser e fazer se misturam em uma única açao artesanal. Atento a esse detalhe, o observador de uma tela naif se coloca diante de uma fatia da realidade que ajuda a constituir o que se conhece como identidade cultural. Além da beleza e da explosao de cores, formas e situaçoes, o livro de Ardies também funciona como um alerta no sentido de que seja revista a situaçao marginalizada da arte naif. Andrade, em um dos textos publicados, lembra que, em 1951, na primeira ediçao da Bienal de Sao Paulo, foi premiada a ingenuidade do carioca Heitor dos Prazeres, ao mesmo tempo em que o concretismo do suíço Max Bill também recebia suas merecidas mençoes.




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