
No início do Século XX, filhos dos barões do café que visitavam a Europa com freqüência se encantaram com uma máquina que se movia sem cavalos, conhecida como automóvel. Não demorou muito e alguns exemplares já podiam ser vistos pelas ruas de São Paulo e Rio de Janeiro, principalmente.
Outra moda importada do Velho Mundo foi a competição entre os donos dos carros para saber quem seria o mais veloz e habilidoso ao volante. Em 27 de maio de 1908 foi fundado o Automóvel Clube Paulista e no dia 26 de julho do mesmo ano aconteceu a primeira corrida de carros do país.
Mais de 10 mil pessoas compareceram ao Parque Antártica – atual estádio do Palmeiras – para ver 15 pilotos partirem em direção a Itapecerica da Serra e voltar ao ponto inicial. Ao todo o percurso tinha 75 km e passava pelo bairro de Perdizes, rua Teodoro Sampaio, bairro de Pinheiros e a cidade de Embu. Com o tempo de 1h30min05, o conde Sylvio Álvares Penteado venceu a prova com a média de 50km/h. Seu carro foi um Fiat de 40 cavalos e motor de quatro cilindros.
A partir daí, a paixão pela velocidade cresceu entre os brasileiros mais ricos assim como o futebol entre os mais pobres.
Grand Prix – Em 1931, o Automóvel Clube do Brasil, já bem estabelecido, se ofereceu para organizar uma prova do circuito Grand Prix – que originaria a Fórmula 1 em 1950. A FIA (Federação Internacional de Automoblismo) aceitou o desafio, e em 8 de agosto de 1933 o Rio de Janeiro recebeu a principal categoria da época. A corrida foi realizada no conhecido Circuito da Gávea, considerado um dos mais difíceis do mundo na época. Era montado nas ruas da então capital federal e seu trecho mais perigoso, apelidado de Trampolim do Diabo, circulava o Morro Dois Irmãos, onde hoje se localiza a avenida Niemeyer e a favela do Vidigal.
O primeiro vencedor foi um brasileiro: Manuel de Teffé, que recebeu o prêmio de 25 contos de réis, valor considerado alto na época, após cruzar a linha de chegada com seu Alfa Romeo.
A dificuldade do Circuito da Gávea atraiu os mais famosos pilotos europeus da primeira metade do Século XX ao Brasil. Com a proximidade, os brasileiros começaram a perceber que era possível competir com as lendas do automobilismo.
No Velho Mundo – As corridas no Rio ficaram famosas, mas os brasileiros só tinham oportunidade de correr em seu próprio país. Isso começou a mudar em 1937, quando Benedito Lopes foi convidado pelo Automóvel Clube de Portugal para participar de duas corridas locais. E fez história: largou na primeira fila nas duas provas, foi terceiro em Vila Real e segundo em Estoril. Tornou-se uma celebridade e abriu as portas aos brasileiros na Europa.
Em 1939 estourou a 2ª Guerra Mundial e o automobilismo europeu foi paralisado. No Brasil, a paixão não morreu, mesmo com o racionamento de gasolina causado pelo conflito. Com jeitinho brasileiro, os pilotos adaptaram grandes cilindros de gás aos carros, e as corridas não pararam. Em 1940, São Paulo ganhou o Autódromo de Interlagos e nele amadureceu o primeiro herói das pistas brasileiras: Chico Landi.
Filho de uma próspera família de imigrantes italianos, o garoto enfrentou a todos, parou de estudar e se dedicou à profissão de mecânico de automóveis. Logo assumiu o volante e passou a vencer várias corridas pelo Brasil, inclusive o 8º Grand Prix do Rio, em abril de 1947.
Com o prêmio recebido, viajou à Europa para assistir às provas mais importantes. Em Monza foi convidado a participar do GP de Bari. Fez uma excelente corrida, mas a oito voltas do fim, quando ocupava o terceiro lugar, teve de abandonar com o carro quebrado. Mas seu desempenho foi tão bom que imediatamente foi convidado a participar da prova no ano seguinte.
Em 1948, Landi foi a Bari acompanhado de um amigo argentino, Juan Manuel Fangio – que anos mais tarde se tornaria o único pentacampeão mundial de Fórmula 1. Com um carro que pertencia a um comendador italiano, largou na primeira fila, liderou de ponta a ponta e se tornou o primeiro piloto americano a vencer uma prova na Europa. O nome do comendador? Enzo Ferrari.
A Fórmula 1 – Com a vitória em Bari, o comendador não perdeu tempo e contratou Landi para sua pequena equipe, a Ferrari. Em 1949, o brasileiro corre com o carro em vários Grand Prix.
Em 1950, a FIA cria a Fórmula 1 para organizar melhor as corridas e dar o status de campeonato mundial às corridas. Aí, como era estrangeiro e não tinha apoio financeiro, foi colocado em segundo plano na equipe. Landi foi o primeiro brasileiro a participar da F-1 (estreou com a Ferrari no GP de Monza de 1951).
Renascimento – Após Chico Landi, o automobilismo brasileiro se distancia da F-1, mas a paixão pelas corridas não diminui. A categoria se consolida em todo o mundo e um lugar entre o seleto grupo de pilotos parece impossível para quem vive tão distante da Europa.
Mas em 1969, um jovem de 22 anos filho de um radialista apaixonado por velocidade foi para a Inglaterra, comprou um chassi Merlyn e se inscreveu nos campeonatos Inglês e europeu de Fórmula Ford. Para conseguir preparar seus motores, o garoto Emerson Fittipaldi trabalhava como mecânico na oficina de Dennis Rowland, dono de uma pequena equipe. Com talento de sobra, fez a pole logo em sua estréia, no circuito de Zandvoort, na Holanda, em 20 de abril de 1969. O motor quebrou, mas a partir desse dia, o automobilismo mundial passaria a reconhecer o talento dos pilotos brasileiros. No mesmo ano, foi contratado pela Lotus e conquistou o título da Fórmula 3 inglesa.
Após passagem meteórica pela Fórmula 2, Fittipaldi estreou na F-1 no GP da Inglaterra em 19 de julho de 1970. Largou em último, chegou em oitavo. Em 4 de outubro, no GP dos Estados Unidos, veio a primeira vitória em apenas cinco corridas pela categoria.
Depois dessa vitória, mais do que nunca os responsáveis pelo automobilismo brasileiro passaram a se mexer para trazer para o país uma prova de Fórmula 1. Vários festivais internacionais foram realizados, com a presença dos mais famosos pilotos da época, sempre no mesmo palco: Interlagos, que recebia constantes reformas.
Em 1972, o sonho virou realidade. São Paulo sediou uma etapa do Mundial, que não contou pontos, por ser considerada experimental. A prova foi um sucesso e, no mesmo ano, Fittipaldi conquistou seu primeiro título.
A partir daí, a FIA não teve mais como evitar a corrida em Interlagos, que apesar de sofrer críticas há anos por causa das ondulações na pista, é considerada das uma das mais técnicas e emocionantes para os pilotos.
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