Tiago Silva/DGABC

As agressões anteriormente restritas aos muros das escolas tomaram proporções maiores com os recursos tecnológicos. Na era digital, comentários maldosos que começam nas salas de aula podem ganhar comunidades no Orkut, virar hit no Youtube e render longas conversas no MSN. Até o nome da prática ganhou terminologia adequada à web: 'cyberbullying' ou 'bullying virtual', expressão em inglês adotada para se referir à humilhação e perseguição sistemáticas a determinados alunos.
Apelidos pejorativos, manipulação de fotografias com efeitos negativos e, muitas vezes, exposição de fatos íntimos são alguns exemplos das humilhações a que são submetidas as vítimas do cyberbullying. Amparado pela tela do computador, o bully (agressor) tem a falsa sensação de anonimato e se sente à vontade para cometer atos cruéis. "Cada um põe seus demônios para fora sem o menor problema, achando que não serão descobertos", avalia a presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Maria Irene Maluf.
Pesquisa recente divulgada pela Secretaria da Educação da Inglaterra apontou que a popularização de equipamentos eletrônicos, com conseqüente acesso à internet, agravou os casos de bullying. Segundo o estudo, 70% dos adolescentes entre 12 e 15 anos admitiram já ter sofrido agressões virtuais. Nos Estados Unidos, ofensas publicadas no site de relacionamentos My Space levaram a adolescente Megan Méier, 13 anos, ao suicídio, em 2006.
Casos semelhantes vêm ganhando destaque no Brasil, onde pesquisa do Cemeobes (Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar) aponta que 45% dos alunos já tiveram envolvimento com o bullying. O último fato que se tem conhecimento é do adolescente Samuel, 17 anos, morto no Rio de Janeiro após ser agredido por cinco colegas da escola com a brincadeira conhecida como "Pedala, Robinho". Segundo o delegado que investigou o caso, os garotos devem ter "exagerado" na dose dos tapas.
Mas, então, como diferenciar uma brincadeira inofensiva de criança de uma maldade característica do bullying? A psicopedagoga dá a dica. "Se é uma coisa persistente, que eu uso para machucar ou ridicularizar, isso é o bullying. Uma brincadeira de mau gosto normalmente termina com as pessoas se retratando", esclarece.
Tão importante quanto observar se o filho está sendo ridicularizado na escola é saber se a criança faz parte do grupo que intimida os mais frágeis. "Os pais têm que se preocupar se os filhos são vítimas, mas também se são agressores. O agressor tem as portas abertas para o caminho da delinqüência, o que é seríssimo", alerta a especialista. Nesses casos, de acordo com Maria Irene, é recomendável "não repreender a criança, mas sim procurar um especialista na tarefa de cuidar dela".
Traumas - As conseqüências imediatas para quem sofre o bullying são a queda da auto-estima e da auto-imagem, conforme explica a vice-presidente do Cemeobes e consultora educacional, Cléo Fante. "No início, o bullying pode gerar sentimentos de inferioridade e submissão", diz. Com o passar do tempo, porém, as marcas podem se transformar em distúrbios psicológicos. "Os casos crônicos podem resultar em transtornos, como depressivos, compulsivos, além de idéias de vingança e suicídio", aponta.
O sofrimento da fonoaudióloga Queila Furlanetto, hoje com 22 anos, teve início na infância. Por estar acima do peso, era insistentemente chamada de "baleia" pelos colegas, que direcionavam atitudes covardes contra ela. "Uma vez pegaram uma folha sulfite e desenharam um elefante com o meu nome. O papel passou na mão de todas as pessoas da sala. Eu percebia que todos olhavam para a folha e depois riam de mim. Quando chegou na mão de uma amiga minha vi o que estava escrito. Fui para casa chorando", contou. Sua vontade, relata, era "nunca mais voltar para aquela escola".
Mesmo magra, quando se olha no espelho Queila ainda revive os traumas da adolescência. "Não consigo ficar satisfeita. Coloquei na minha cabeça que nunca mais serei gorda", diz ela, que já fez uso de atitudes prejudiciais à saúde em prol da 'boa forma'.
Como denunciar - A intimidação virtual é crime e deve ser denunciada. As vítimas podem prestar queixa nas delegacias convencionais, ou, se preferirem, nas especializadas, como a Delegacia de Crimes Praticados por Meios Eletrônicos, do Deic (Departamento de Investigações sobre Crime Organizado).
Também é possível acessar o site da ONG Safernet (www.safernet.org.br), que tem convênio com o Ministério Público Federal, para fazer a denúncia. A página contém, ainda, informações sobre o que fazer em caso de crimes de ameaça, calúnia, injúria e falsa identidade.
O responsável é localizado por meio do número de IP da máquina (código que identifica o computador) e pode ter de pagar uma indenização à vítima, além de responder pelo crime de difamação, cuja pena é de um ano de prisão. Se tiver menos de 16 anos, seus pais responderão pelo crime; caso tenha entre 16 e 18 anos, responderá junto com seus pais ou responsáveis.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.