Cotidiano

Lar, doce lar


Pânico instaurado. O que fazer diante de situação nunca antes vivida? Ou, pelo menos, para as gerações atuais. 

Tudo o que se ouve ou se lê nos meios de comunicação diz respeito aos perigos da contaminação ora em curso. Países fechando fronteiras, restrições para sair às ruas, alunos impedidos de seguirem para suas escolas... O povo correndo para os mercados a fim de abastecer suas despensas até que não suportem mais. Ninguém, em momento de tamanha angústia, pensa também no prazo de validade das mercadorias adquiridas, claro. O que importa é estocar, como se vivêssemos em tempos de guerra. Ou será que vivemos? A batalha é outra, mas não deixa de ser uma dura batalha, a despeito do desdém de uma parcela da população contaminada antes com o vírus da ignorância crônica. Peste, aliás, muito mais difícil de se combater, justamente por não haver antídoto contra ela.

Todos os governantes do mundo, sejam de direita ou de esquerda, vão às televisões para alertar o povo sobre as consequências da doença que pode, assim, com toda a sutileza que lhe é peculiar, dar cabo de parte da gente deste mundo. A China é testemunha primeira do caso. Itália vem na sequência. Europa, diga-se de passagem, está fechada para si e para o mundo. O que fazer? Permanecer em casa é a ordem do dia.

Somente um povo parece imune ao danado do bicho. Não, não falo daquela gente orgulhosa que habita para além dos dourados portões do império. Falo mesmo da população deste imenso barraco, que não dá lá muita bola para a contaminação que se propaga pelo mundo, assunto que chateia em todas as telas. Considerando também o fato de que, em dias atuais, não descolamos a cara de uma tela. Ninguém nota o fenômeno que mantém, cada vez mais, nossas vidas restritas aos movimentos que acompanhamos nelas, nas telas. E, verdade seja dita, dependemos delas agora, em momento de tamanha preocupação.

Fica difícil, então, entender como as pessoas demoram tanto para colocar em funcionamento o cérebro e dar vez à razão, que neste momento pede para se conter os ímpetos e evitar aglomerações, evitar mesmo a doce escapadinha para a rua, seja lá para o que for. Em dias de angústia frente ao perigo que ora se agiganta, o melhor é permanecer confinado em casa. Oxalá todos os brasileiros tivessem uma onde pudessem se esconder.</CW>

Mas sua excelência, autoridade máxima deste sertão, disse que tudo não passa de exagero que leva o povo daqui e do mundo a uma paranoia desenfreada. E, mesmo carregando no coro o vírus, esteve, sua majestade, na rua, cumprimentando correligionários que certamente levarão a doença para outras pessoas por aí afora. São habitantes deste circo que, cheios de júbilo, carregam no peito o desejo ímpar de adquirir o contágio em nome do capitão, sobretudo, se vier dele. Digo isso, depois de ter visto na internet um sujeito carregando um cartaz com tais dizeres, inacreditavelmente escritos em bom português.

Mesmo assim, independentemente da opinião de gente pouco afeita ao pensamento refinado, somos obrigados a admitir que, diante de quadro tão dramático, o lar nunca foi tão doce.

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