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Saída da Ford do País é alerta para o setor automotivo

Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Especialistas dizem que há dificuldades no atual cenário enfrentado pelas montadoras no Brasil; na região, empresas mantêm investimentos


Yara Ferraz
Do Diário do Grande ABC

13/01/2021 | 00:07


A saída da Ford do Brasil acende um sinal de alerta para a indústria automotiva nacional e também para o Grande ABC, que atualmente mantém cinco fábricas do setor. Para especialistas, a situação poderia ter sido evitada, já que o primeiro passo foi tomado com o fechamento da unidade de caminhões em São Bernardo, em outubro de 2019.

“Faltou articulação do governo. Quando veio a questão de São Bernardo, já era mais do que uma sinalização, um claro indício do que poderia acontecer no futuro. Os últimos investimentos feitos no País foram anunciados pela Ford em 2014 (o grande ciclo de investimentos anunciados, da ordem de R$ 4 bilhões, foi injetado entre 2011 e 2015 na produção de veículos no Brasil). Ou seja, era um sinal evidente de que as coisas não iam bem”, disse o economista e coordenador do curso de administração do Instituto Mauá de Tecnologia, Ricardo Balistiero.

Para o especialista, o ambiente de negócios no País não é favorável porque, além de outros problemas, como a alta carga tributária, há instabilidade política e a consequente falta de um plano nacional para a indústria. Segundo ele, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem um discurso de ataques “a diversas personalidades, além de ser negacionista em relação à pandemia”. “Com isso, o clima de negócios está péssimo e afugenta investimentos. Temos um governo bastante fraco do ponto de vista de planejamento, que utiliza a única arma que resta para segurar ou trazer empresas de fora, o fiscal. A Ford teve benefícios fiscais a vida toda, mas isso não segurou a companhia.”

Em contrapartida, a Argentina – que agora vai concentrar toda a produção na América Latina, junto com o Uruguai – vai ganhar investimento de US$ 580 milhões para a fabricação da nova Ranger, conforme anúncio em dezembro.

Sócio da MRD Consulting, empresa especializada em gestão executiva com expertise na assessoria a grandes e médias empresas, Flavio Padovan não acredita que outras empresas sigam o mesmo caminho. “Essa decisão, que a Ford começou a desenhar lá atrás com o fechamento da fábrica de caminhões de São Bernardo, faz parte de uma reestruturação global. A pandemia apenas acelerou isso. Nós temos um ambiente de negócio competitivo no Brasil”. Ele afirmou, no entanto, que todas as montadoras estão sofrendo. “O governo está paralisado com as reformas fiscais.”

O Diário questionou as montadoras da região sobre o assunto, já que algumas anunciaram mudanças recentes. Localizada em São Caetano, a GM (General Motors) reiterou a retomada dos investimentos de R$ 10 bilhões no Estado, estratégicos para o desenvolvimento e a produção de veículos inéditos. Em 2019, a empresa chegou a cogitar a saída do País.

Localizada em São Bernardo, a Toyota confirmou que a ida da sede administrativa para Sorocaba deve ocorrer no segundo semestre de 2021, mas que a operação de peças da região continuará operando normalmente. “A Toyota pretende continuar operando no Brasil, o que não tem sido fácil. Vivemos o momento mais desafiador de todos os tempos. Temos cuidado diligentemente de todos os fatores internos que nos permitem melhor competitividade e, ao mesmo tempo, temos conversado com o governo sobre reformas que permitam que o setor como um todo possa crescer, gerar empregos e distribuir valor”, afirmou, em nota.

No ano passado, a Mercedes-Benz inaugurou linha 4.0 de produção de chassis de ônibus. Foram aportados R$ 100 milhões, parte do ciclo de investimentos de R$ 2,4 bilhões anunciados pela empresa a serem aplicados entre 2018 e 2022. A empresa, que decidiu encerrar a produção de automóveis premium na fábrica de Iracemápolis, no Interior, em dezembro, reafirmou que não há impactos na unidade de São Bernardo, responsável por caminhões e ônibus.

A Volkswagen também continuou a investir em São Bernardo em 2020, com a modernização da área de estamparia e o início da produção do Nivus, que integram aporte de R$ 2,3 bilhões. A Scania anunciou a construção de um centro logístico, no valor de R$ 200 milhões, que tinha previsão de inauguração em dezembro, que passou para o primeiro trimestre. As duas empresas não se posicionaram sobre o assunto.


BNDES cobra mais esclarecimentos

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) possui dois contratos de financiamento com a Ford, no valor de R$ 335 milhões, assinados em 2014 e 2017. A instituição pediu mais esclarecimentos à empresa sobre o fechamento das fábricas.

“O banco aguarda as respostas para avaliar os impactos da decisão da companhia sobre os financiamentos diretos ainda em curso”, informou, em nota. O aporte financiado à montadora teve como objeto projetos destinados ao desenvolvimento de novos produtos no Brasil.

“Esses contratos dispõem de cláusulas-padrão que visam à manutenção do emprego durante a implementação do projeto, que já ocorreu. Os financiamentos já passaram da metade do prazo total, estando com pagamentos em dia”, informou o BNDES, completando que também estão em vigor 30 contratos de financiamento indiretos – feito por agentes financeiros credenciados – para a Ford, no valor total de R$ 54,2 milhões. A empresa não se manifestou sobre o assunto.

TRABALHADORES

Ontem, em ato convocado pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari (Bahia), trabalhadores fizeram carreata. Ainda não há proposta por parte da Ford, que afirmou que vai trabalhar intensamente com os sindicatos, funcionários e outros parceiros para desenvolver medidas que ajudem a enfrentar o difícil impacto do anúncio. A montadora avisou na segunda-feira que vai fechar três fábricas no Brasil, o que põe em risco 13 mil empregos, e encerrar história de 101 anos no País. 



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Saída da Ford do País é alerta para o setor automotivo

Especialistas dizem que há dificuldades no atual cenário enfrentado pelas montadoras no Brasil; na região, empresas mantêm investimentos

Yara Ferraz
Do Diário do Grande ABC

13/01/2021 | 00:07


A saída da Ford do Brasil acende um sinal de alerta para a indústria automotiva nacional e também para o Grande ABC, que atualmente mantém cinco fábricas do setor. Para especialistas, a situação poderia ter sido evitada, já que o primeiro passo foi tomado com o fechamento da unidade de caminhões em São Bernardo, em outubro de 2019.

“Faltou articulação do governo. Quando veio a questão de São Bernardo, já era mais do que uma sinalização, um claro indício do que poderia acontecer no futuro. Os últimos investimentos feitos no País foram anunciados pela Ford em 2014 (o grande ciclo de investimentos anunciados, da ordem de R$ 4 bilhões, foi injetado entre 2011 e 2015 na produção de veículos no Brasil). Ou seja, era um sinal evidente de que as coisas não iam bem”, disse o economista e coordenador do curso de administração do Instituto Mauá de Tecnologia, Ricardo Balistiero.

Para o especialista, o ambiente de negócios no País não é favorável porque, além de outros problemas, como a alta carga tributária, há instabilidade política e a consequente falta de um plano nacional para a indústria. Segundo ele, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem um discurso de ataques “a diversas personalidades, além de ser negacionista em relação à pandemia”. “Com isso, o clima de negócios está péssimo e afugenta investimentos. Temos um governo bastante fraco do ponto de vista de planejamento, que utiliza a única arma que resta para segurar ou trazer empresas de fora, o fiscal. A Ford teve benefícios fiscais a vida toda, mas isso não segurou a companhia.”

Em contrapartida, a Argentina – que agora vai concentrar toda a produção na América Latina, junto com o Uruguai – vai ganhar investimento de US$ 580 milhões para a fabricação da nova Ranger, conforme anúncio em dezembro.

Sócio da MRD Consulting, empresa especializada em gestão executiva com expertise na assessoria a grandes e médias empresas, Flavio Padovan não acredita que outras empresas sigam o mesmo caminho. “Essa decisão, que a Ford começou a desenhar lá atrás com o fechamento da fábrica de caminhões de São Bernardo, faz parte de uma reestruturação global. A pandemia apenas acelerou isso. Nós temos um ambiente de negócio competitivo no Brasil”. Ele afirmou, no entanto, que todas as montadoras estão sofrendo. “O governo está paralisado com as reformas fiscais.”

O Diário questionou as montadoras da região sobre o assunto, já que algumas anunciaram mudanças recentes. Localizada em São Caetano, a GM (General Motors) reiterou a retomada dos investimentos de R$ 10 bilhões no Estado, estratégicos para o desenvolvimento e a produção de veículos inéditos. Em 2019, a empresa chegou a cogitar a saída do País.

Localizada em São Bernardo, a Toyota confirmou que a ida da sede administrativa para Sorocaba deve ocorrer no segundo semestre de 2021, mas que a operação de peças da região continuará operando normalmente. “A Toyota pretende continuar operando no Brasil, o que não tem sido fácil. Vivemos o momento mais desafiador de todos os tempos. Temos cuidado diligentemente de todos os fatores internos que nos permitem melhor competitividade e, ao mesmo tempo, temos conversado com o governo sobre reformas que permitam que o setor como um todo possa crescer, gerar empregos e distribuir valor”, afirmou, em nota.

No ano passado, a Mercedes-Benz inaugurou linha 4.0 de produção de chassis de ônibus. Foram aportados R$ 100 milhões, parte do ciclo de investimentos de R$ 2,4 bilhões anunciados pela empresa a serem aplicados entre 2018 e 2022. A empresa, que decidiu encerrar a produção de automóveis premium na fábrica de Iracemápolis, no Interior, em dezembro, reafirmou que não há impactos na unidade de São Bernardo, responsável por caminhões e ônibus.

A Volkswagen também continuou a investir em São Bernardo em 2020, com a modernização da área de estamparia e o início da produção do Nivus, que integram aporte de R$ 2,3 bilhões. A Scania anunciou a construção de um centro logístico, no valor de R$ 200 milhões, que tinha previsão de inauguração em dezembro, que passou para o primeiro trimestre. As duas empresas não se posicionaram sobre o assunto.


BNDES cobra mais esclarecimentos

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) possui dois contratos de financiamento com a Ford, no valor de R$ 335 milhões, assinados em 2014 e 2017. A instituição pediu mais esclarecimentos à empresa sobre o fechamento das fábricas.

“O banco aguarda as respostas para avaliar os impactos da decisão da companhia sobre os financiamentos diretos ainda em curso”, informou, em nota. O aporte financiado à montadora teve como objeto projetos destinados ao desenvolvimento de novos produtos no Brasil.

“Esses contratos dispõem de cláusulas-padrão que visam à manutenção do emprego durante a implementação do projeto, que já ocorreu. Os financiamentos já passaram da metade do prazo total, estando com pagamentos em dia”, informou o BNDES, completando que também estão em vigor 30 contratos de financiamento indiretos – feito por agentes financeiros credenciados – para a Ford, no valor total de R$ 54,2 milhões. A empresa não se manifestou sobre o assunto.

TRABALHADORES

Ontem, em ato convocado pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari (Bahia), trabalhadores fizeram carreata. Ainda não há proposta por parte da Ford, que afirmou que vai trabalhar intensamente com os sindicatos, funcionários e outros parceiros para desenvolver medidas que ajudem a enfrentar o difícil impacto do anúncio. A montadora avisou na segunda-feira que vai fechar três fábricas no Brasil, o que põe em risco 13 mil empregos, e encerrar história de 101 anos no País. 

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