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Paranapiacaba: história irrecuperável vira sucata ferroviária

José Carlos PegorimDa Redaçao
26/10/1999 | 21:34
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Um maçarico está em açao desde a semana passada em Paranapiacaba cortando o ferro apodrecido de parte da história ferroviária brasileira, num trabalho que pode durar ainda um mês. Um locobreque de 100 anos e vários outros trens, que circularam ou nao na regiao, trombados, recentes e antigos, estao virando sucata. Ironia do destino, vao deixando de caminhao o cemitério em que dormiram nos últimos 20 anos.

O desmantelamento dos trens expôs novamente as divisoes dos moradores em relaçao a como e o quê deve ser preservado na Vila. "Conversamos com a rede e pedimos para fazer a limpeza", diz Elias Ferreira, presidente da Associaçao Amigos do Museu de Paranapiacaba. Em 1993, ele foi um dos líderes do movimento que impediu a Rede de sucatear os locobreques no pátio. Elias mudou de opiniao: nao há recuperaçao, e os trens representam risco para crianças e turistas. "Fica difícil lutar pela preservaçao de sucatas sem falso moralismo."

Zilda Bergamini, da Sociedade Amigos de Bairro de Paranapiacaba, tem a mesma opiniao: "Nao há como impedir que as pessoas entrem nos vagoes. Aparece cobra, bicho, eles escondem desocupados - que bem isso traz para nós?"

Segundo o superintendente da Rede Ferroviária Federal em Sao Paulo, Airton Franco Santiago, nenhum dos equipamentos que estao sendo desmantelados foi tombado pela Rede ou pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de Sao Paulo). Santiago informou que o material foi leiloado em julho, mas que serao mantidos no pátio os três locobreques restantes (há vários outros em situaçao melhor em Sao Caetano e outros pátios da Rede), "talvez um vagao do Cometa (primeiro trem com locomotiva a diesel do país)", uma locomotiva Siemens, entre outros. O próprio Santiago foi responsável, há dez anos, pela remoçao do Cometa de Sao Paulo para a Vila, já para tentar salvá-lo do desmantelamento.

DGABC

A Mae Natureza, ONG que convenceu o MP (Ministério Público) a abrir um inquérito civil contra a Rede responsabilizando-a por danos ao patrimônio histórico da Vila, irá apresentar um novo pedido ao órgao para, agora, abrir um processo criminal contra a empresa: "A tutela de bens históricos independe de eles estarem tombados", afirmou Donisete Garcia, 25 anos, advogado da ONG. "Vamos demolir as casas ruins e preservar só as boas?" comparou.

Ao saber pelo Diário do desmantelamento dos trens em Paranapiacaba, o sociólogo José de Souza Martins decidiu relatar o caso na manha desta terça-feira na reuniao do órgao: "A medida deveria ter passado pela análise dos conselheiros". A tarde, uma técnica esteve na Vila para ver a situaçao. Nesta quarta-feira, o órgao dirá se, entre a sucata, nao se corre o risco de cortar história.




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